“Pra começar”, cantava Marina Lima, logo após a contagiante bateria e o insinuante solo de guitarra, “quem vai colar os tais caquinhos do velho mundo?”. Era 1986, um ano depois do fim do regime militar, quando tudo voltava a ser possível.
“Pátrias, famílias, religiões e preconceitos”, prosseguia a letra escrita pelo irmão e poeta Antônio Cícero, mais tarde integrante da Academia Brasileira de Letras, “quebrou, não tem mais jeito”.
Quatro anos antes, governadores de oposição já haviam sido eleitos para estados importantes como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Gente como Franco Montoro, Tancredo Neves e Leonel Brizola – este depois de 15 anos de exílio.
Tancredo havia sido eleito em janeiro de 1985, mas foi parar no hospital na véspera da posse. Coube ao vice-presidente eleito, José Sarney, conduzir a transição para a democracia. O cenário econômico era complexo, a inflação permanecia um desafio, mas havia esperança. E uma sensação de liberdade no ar.
Os tais caquinhos do velho mundo ainda estavam por ali. A Assembleia Constituinte abriu caminho para um reinício no mundo da política. Mas permaneciam vivas na memória coletiva a censura às artes e à imprensa e toda uma visão conservadora da vida.
Na visão otimista daquela segunda metade dos anos 80, parecia que ninguém mais conseguiria colar os caquinhos de toda uma época que chegava ao fim. O Brasil respirava o novo. E gostava de ser visto assim pelo mundo.
Trinta e dois anos depois daquela canção que fez dançar uma juventude que celebrava a liberdade, porém, o improvável aconteceu. Exatamente 57.797.847 eleitores garantiram a Jair Bolsonaro estoque suficiente de cola para remontar os caquinhos do antigo regime.
O antigo capitão dedicou os últimos três anos e meio a esse paciente trabalho. Chamou milhares de militares para o governo, facilitou acesso às armas, elogiou diversas vezes o regime militar, atacou a imprensa e ameaçou as instituições e a própria democracia.
Para ele, não foi ainda o suficiente. No último domingo, ele lançou a sua candidatura a um novo mandato entre ameaças ao Supremo Tribunal Federal, ataques à oposição e um convite para que seus seguidores ocupem as ruas do país no dia 7 de setembro.
Tudo isso embrulhado em um discurso religioso no qual se apresenta como representante do bem contra o mal. Alguém que repudia o aborto e defende a família tradicional.
Em seu confuso discurso, o presidente pede a seus eleitores que nunca deixem de lutar pela liberdade. Uma estranha recomendação de quem marcou sua longa passagem pela Câmara dos Deputados com elogios a torturadores e a ditadores como o chileno Augusto Pinochet.
Pois no dia 7 de setembro, quando o país celebra seus 200 anos de independência, as ruas estarão tomadas por admiradores de um presidente que repete quase cotidianamente suas ameaças à democracia.
A simpatia que o Brasil havia conquistado ao redor do mundo a partir dos anos 80, quando milhões de pessoas foram às ruas inicialmente para pedir eleições diretas e depois para apoiar um candidato de oposição no Colégio Eleitoral, começou a se esvair há três anos.
A imagem do Brasil hoje no exterior é a de um país onde a democracia está ameaçada. Um país que abandonou a proteção ao meio ambiente. Um país cujo líder recorre a palavras rudes para se referir a governantes estrangeiros que lhe parecem de campos opostos na política.
Assim vai chegar o Brasil a seus 200 anos. Nada de celebrações que unam o país. Nada de proximidade com o presidente de um país do qual fomos colônia e que teve a ousadia de encontrar-se, na última visita, com o líder da oposição que aparece à frente nas pesquisas eleitorais. Apenas multidões nas ruas insufladas contra o Supremo Tribunal Federal.
O mundo estará de olho. Assim como permanecerá atento ao que vai acontecer em outubro. As principais democracias ocidentais já emitem sinais de que esperam ver respeitados os resultados apurados pelas urnas eletrônicas tão contestadas por Bolsonaro.
Em caso de desrespeito a esses resultados, o Brasil celebrará seus 200 anos em esplêndido isolamento. Ainda há tempo para evitar isso. Tempo para lembrar do que o país se livrou há 37 anos e para recordar que um novo recomeço é possível, a partir das próximas eleições.
“Se tudo caiu, que tudo caia”, já dizia Marina naquele 1986. “Pois tudo raia, e o mundo pode ser seu”.
Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.

Nenhum comentário:
Postar um comentário