sexta-feira, 2 de setembro de 2022

FOME NÃO EXISTE, DECRETA BOLSONARO

Carlos José Marques, ISTOÉ

Como tudo na narrativa paralela do mandatário é estabelecido por decreto ou via medida provisória, bem capaz que dia desses ele lance um informe com o mesmo enunciado acima, no padrão do que costuma bravatear: “Não existe fome para valer no Brasil”. De viva voz já o fez. Em mais um dos delírios inomináveis, que não cansa de exibir, numa pororoca infindável de afrontas à realidade, consagrou o fim da chaga. Nos obscuros caminhos e conexões nervosas da mente do capitão as cenas cotidianas, denúncias e estatísticas contrárias a essa sua convicção não passariam de balela para prejudicá-lo. 

A mera ideia de que muita gente anda sofregamente procurando comida nos lixões de rua e caminhões de recolhimento por não conseguir bancar o básico em alimentos que garantam a sobrevivência – nem o essencial, nada mesmo! Não é figura de linguagem! – estaria, por assim dizer, no campo da fábula perversa, ardil diabólico e mentiroso para evitar que ele, o Messias “mito”, seja visto como “o salvador”, benfeitor dos pobres e oprimidos, imagem que lhe asseguraria, no seu entender, a reeleição. Porque, na prática, no universo fechado das prioridades que o movem, basicamente tudo converge no mesmo sentido. 

Bolsonaro não enxerga um palmo além do nariz sobre aquilo que não gosta de ver ou saber. Recusa-se a encarar problemas reais e acredita piamente não ser da sua conta tratar deles, muito embora a condição de governante que hoje exerce – sem a aptidão para tal ou entendimento do que representa a missão conquistada nas urnas – contemple o bem-estar social como fundamento número um. “Você não vê alguém pedindo pão na padaria”, avaliou em entrevista, numa de suas mais tonitruantes aberrações. Como é que é? Pode ficar espantado, prezado leitor, mas foi literalmente o que ele disse. 

Talvez para um turista estrangeiro acidental, em um dia de céu azul, belas paisagens, praias, protegido pelo desconhecimento previsível e preventivo, que estivesse por aqui de passagem, sem maiores alertas, levado por guias apenas aos mais reluzentes salões e endereços (em situações muito exclusivas e excepcionais), blindado dos dissabores do quadro que lhe cerca mesmo próximo ao hotel, quem sabe assim seria até aceitável tamanha desinformação e visão “Poliana” de um maravilhoso paraíso sem miséria. Mas para um chefe de Estado, em pleno comando da Nação, a ignorância ou maquiagem deliberada dos fatos são abjetas. 

Os mais de 33 milhões de esfomeados – número que dobrou em dois anos no seu governo – não são miragem. Estão ali na esquina, em qualquer lugar, mesmo e especialmente nas grandes cidades, nos metrôs, praças, túneis e avenidas, para não lembrar daqueles em regiões ribeirinhas, nos confins desse Brasil imenso, nos sertões e cerrados, esquecidos, abandonados, que morrem aos milhares por desnutrição sem serem notados. Aqueles que estão famintos no Brasil nem conseguem entender quando o presidente alega que “não tem filé mignon para todo mundo”.

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