sexta-feira, 18 de novembro de 2022

A CULTURA ESTARÁ DE VOLTA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Os quatro anos de massacre, sabotagem ou asfixia podem ter chegado ao fim

Começou, sem exagero, um minuto depois do fim da apuração e dos primeiros fogos: uma explosão coletiva, comparável à notícia do fim de uma guerra — e foi mesmo uma guerra. Os telefones dispararam, e não apenas para a troca de gritos eufóricos, suspiros de alívio e desabafos comovidos.

As vozes do outro lado já falavam de projetos reprimidos, sabotados ou asfixiados e que talvez possam agora se materializar. Palavras como edital, concorrência, bilheteria, elenco, ensaio, estreia, que se temia extintas da língua, reapareceram nas frases empolgadas de pessoas loucas para trabalhar. Era o teatro, o cinema, a música, as artes plásticas, a literatura, a poesia e tantas formas de expressão voltando à vida.

Graças a um simples ponto percentual, talvez se esteja na iminência de uma renascença criativa no Brasil. Ideias engavetadas têm uma chance de saírem do sonho para os salões, palcos, telas, vídeos e livrarias. É hora de saber quem não desistiu e continuou a criar em imaginação, mesmo diante de uma realidade tão boçal.

Depois de quatro anos de massacre, será preciso ver o que sobrou da centenária UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), com seus cinco campi, 65 mil estudantes, nove hospitais e mais de mil laboratórios, condenada pelo governo federal a não ter sequer papel higiênico nos banheiros. De templos como a Biblioteca Nacional, o Arquivo Nacional, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a Fundação Casa de Rui Barbosa, a Fundação Palmares, museus, conservatórios, institutos de pesquisa, muitos mais.

Os executores do desmonte ou prostituição da educação e da cultura nunca poderão nos pagar pelos livros, filmes, peças, exposições e canções que não vieram à luz porque seus criadores tiveram de abandoná-los. Mas aí estará a vingança desses criadores: botar tudo que puderem para fora e dizer "Chupem!".

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