terça-feira, 22 de novembro de 2022

GOLDFAJN NO BID, UMA BOA PROMESSA

Editorial O Estado de S.Paulo

Com a eleição do economista Ilan Goldfajn, pela primeira vez um brasileiro presidirá o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o maior banco regional de desenvolvimento do mundo. Eleito em primeiro turno com 80% dos votos, Goldfajn, ex-presidente do Banco Central do Brasil (BCB), é figura conhecida e respeitada em Washington, onde comandou, a partir de janeiro deste ano, o Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional. A carteira do banco inclui atualmente 616 projetos em toda a região, com recursos comprometidos de US$ 56,18 bilhões. Maior cliente, o Brasil depende hoje do banco para 82 projetos, com financiamento estimado de US$ 9,29 bilhões. Por sua participação no capital, os países com maior poder de voto são Estados Unidos (30%), Brasil (11,4%) e Argentina (11,4%).

O presidente eleito do BID deverá iniciar em 19 de dezembro seu mandato de cinco anos. A escolha de Goldfajn restabelece um padrão – a presença de um latino-americano na chefia da instituição – interrompido recentemente. Em 2020, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu atribuir o posto a um norte-americano. Conseguiu impor o nome de Mauricio Claver-Carone, membro sênior do Conselho de Segurança Nacional para o Hemisfério Ocidental.

Como integrante desse conselho, o escolhido de Trump havia contribuído para o endurecimento da política de Washington em relação a Cuba, Venezuela e Nicarágua. Não está claro se isso o qualificaria, na visão de seu líder americano, para comandar um banco regional de desenvolvimento. Mexicanos, argentinos e europeus tentaram boicotar a iniciativa, mas fracassaram. O presidente Jair Bolsonaro apoiou seu guru Donald Trump. Mas o escolhido foi incapaz de completar o mandato. Em setembro deste ano, Claver-Carone foi afastado, por ter mantido, contra as normas do banco, um relacionamento íntimo com uma funcionária.

Com a escolha de Ilan Goldfajn, a chefia do BID volta a ser exercida por um latino-americano e Brasília consegue, enfim, registrar um brasileiro na presidência da instituição. A eleição do ex-presidente do BCB foi facilitada pelo governo argentino. Num importante gesto cooperativo, o presidente Alberto Fernández cancelou a candidatura de Cecilia Todesca Bocco, secretária de Relações Econômicas Internacionais do Ministério de Relações Exteriores.

A iniciativa do presidente argentino valorizou, uma vez mais, a pauta de cooperação regional, amplamente renegada, durante a maior parte de seu mandato, pelo presidente Jair Bolsonaro. Raramente empenhado em ações de integração internacional, o presidente brasileiro tornou-se mundialmente conhecido por seus tropeços diplomáticos e, como seu líder Donald Trump, por seu antiglobalismo. De toda forma, o presidente Bolsonaro acertou, afinal, ao indicar para a presidência do BID o economista Ilan Goldfajn, sugerido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

Normalmente empenhado na ação diplomática, o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, quase se viu envolvido, no entanto, num injustificável incidente com o BID, poucos dias antes da votação. Numa ação desastrada, o ex-ministro petista Guido Mantega propôs um adiamento das eleições no banco. Seria conveniente, segundo Mantega, esperar um pronunciamento do futuro chefe de governo do Brasil. A tentativa foi um evidente despropósito. Não há relação necessária entre os mandatos presidenciais no BID e nos países-membros. A tentativa fracassou, Mantega se afastou da equipe de transição de Lula, a votação ocorreu na data prevista e Ilan Goldfajn foi eleito.

A política proposta por Goldfajn coincide, em grande parte, com agendas defendidas pelo PT e por vários governos da região: combate à desigualdade e à pobreza, avanço tecnológico, modernização e ampliação da infraestrutura e crescimento compatível com a preservação ambiental. A ênfase na questão ambiental de certa forma atualiza a pauta do BID. Sem novas intervenções desastradas, o banco poderá continuar cumprindo a importante missão iniciada em 1959.

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