Judiciário e juízes deveriam significar Instituição (Poder) e cidadãos respeitáveis. Afinal, como viver a democracia quando não se acredita nos seus homens e nas suas organizações? Com função pública, o agente público não pode ser público sob risco de ser escrachado por onde passe. E como agentes públicos corporificam o Estado, uma imagem negativa de seus funcionários desqualifica e despotencializa o aparato público. A ideia de Justiça é diluída nos achaques cotidianos contra o Poder Judiciário. Aliás, contra os três Poderes. Espera-se dessa deslegitimação um efeito inverso na pirâmide judicial. Não é desproposital a hipótese de constrangimentos públicos para juízes de todas as instâncias. O efeito dominó também poderá atingir políticos e profissionais do direito em geral.
É certo que o famoso seminário em Nova York (novembro de 2022), tendo sete ministros do STF como convidados, parece de fato algo bizarro, pra dizer o mínimo, mas a crítica mais radical à “promiscuidade” do encontro tem lá seus acertos, exageros e erros. Um dos erros é alimentar, no imediato das eleições tensionadas em polarização d’antes desconhecida em nossa história, ressentimentos e desprezo pelo STF. Quem não conhece Conrado Hubner Mendes poderia considerá-lo um jurista bolsonarista. Afinal, neste momento da nossa história o que mais a ultradireita quer, e certa esquerda “revolucionária” quase extinta, é a confirmação histórica, nas várias ordens privadas, da perversidade da democracia liberal.
Daí a ocorrência de um estranho privado, ou vontade particular, que invade e se faz público, um público quase fora da sanção legal, afinal, parece incorporar um avesso direito achado nas ruas nas revoltas dos que perderam as eleições e elegem Alexandre de Moraes e seus pares na Corte Maior, para alimentar uma narrativa em defesa da liberdade contra a fraude eleitoral, uma mentira a mais em tempos de regressão cognitiva.
Ressentimentos e ódios podem extrapolar a esfera particular pela via de robôs em programações algoritimicas de desinformação e indução de comportamentos, invasão de espaços públicos.
Derrotados nas eleições tomam para si as bandeiras contra o que consideram a ordem hoje e fazem movimentos sociais. Chegando nas avenidas, rodovias, praças, quartéis (financiados por empresários birutas), enfim, a espaços públicos, para confrontar juízes ou mesmo políticos de campos políticos adversos. Essa passagem da política para fora de sua linguagem habitual, já extremamente porosa, constituindo a ação política direta, hidratada com divergência zero e muita intolerância.
O esgarçamento do mínimo ético na política dá-se por força do tempo no qual o falso torna-se, por repetição, verdade absoluta. Paralelamente a esse processo de fascização pela via dos recursos digitais, a sociedade civil organizada se movimenta, armada. Milícias, polícias e mesmo o narcotráfico cevados no laboratório do Rio de Janeiro, principalmente, é estruturado como forças em defesa da Pátria, da Família, da Propriedade. Um filme muito velho. Hitler e Mussolini colheram o que plantaram…Retorno à doentia relação público privado em tempos malvados.
“Quando tudo é privatizado você é privado de tudo”, dizia um escrito numa rua de São Paulo. Em curso a privatização de corações e mentes. A consequência maior podia ser a continuidade de um projeto: a de sermos privamos das emoções da fraternidade e do amor, substituídas por seus contrários.
Felizmente, pelo voto, prevaleceu a civilização. As forças da barbárie, contudo, permanecem vivas e com crescimento exponencial.
– Edmundo Lima de Arruda Jr

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