Não importa se o crime que ocorreu há cinco anos será investigado no Rio ou em Brasília, mas que seja apurado
Um dos momentos marcantes da posse de Anielle Franco como ministra da Igualdade Racial, na quarta-feira, foi quando lembrou a morte da irmã, a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), em 14 de março de 2018. O assassinato de Marielle e de seu motorista, Anderson Gomes, completará cinco anos sem que haja respostas adequadas. Ao assumir o cargo, no dia 2, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, disse que esclarecer o crime é “questão de honra” e defendeu a federalização das investigações, hoje a cargo do estado do Rio.
Cerca de um ano depois do crime, a Delegacia de Homicídios da Capital e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) prenderam o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, apontados como executores de Marielle e Anderson. Segundo as investigações, Lessa foi responsável pelos disparos, enquanto Queiroz dirigiu o Cobalt que perseguiu o carro das vítimas. Eles foram denunciados pelo duplo assassinato e pela tentativa de homicídio de uma assessora da vereadora. Mantidos em presídios federais, ainda não foram julgados.
Não é a primeira vez que se cogita levar a apuração para Brasília. Em setembro de 2019, diante de tentativas de obstrução das investigações, a então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ ) a federalização do caso. Em maio de 2020, porém, ministros da Terceira Seção do STJ negaram por unanimidade o pedido. Entenderam que havia avanços na elucidação do crime, não existindo justificativa técnica para a mudança.
O esclarecimento do caso Marielle é um dos maiores desafios com que a polícia e o Ministério Público do Rio já se depararam. Falsas pistas, falsas testemunhas, eliminação de provas, interferências políticas, tudo contribuiu para dificultar as investigações. O mandante, seja lá quem for, encomendou o crime a matadores profissionais, com passagens pela polícia e larga experiência em ocultação de provas. As armas usadas pelos bandidos jamais foram encontradas — teriam sido jogadas no mar —, e o Cobalt utilizado na noite do crime desapareceu como num passe de mágica. Vários mandantes já foram apontados, mas nenhuma prova consistente foi apresentada contra eles.
O assassinato de Marielle e Anderson atingiu em cheio o Estado Democrático de Direito. Quinta mais votada para a Câmara do Rio, Marielle exercia um mandato outorgado pelo povo. Foi calada de forma brutal. Desvendar esse crime não é favor do Estado, é obrigação. Não só com a família das vítimas, mas com toda a sociedade brasileira. Não fazê-lo é capitular diante de criminosos que tentam impor um Estado paralelo sob a força das armas. É louvável a disposição do novo governo para esclarecer o caso. Mas não importa se o crime será apurado no Rio ou em Brasília, pela Polícia Civil ou Federal —esse deve ser um trabalho conjunto. O que importa é que seja apurado. E que, cinco anos depois, se possa responder a duas perguntas básicas: quem mandou matar Marielle e Anderson e por quê.

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