Quando o empresário Josué Christiano Gomes da Silva chegou ao salão nobre da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, em 30 de janeiro, o local já estava lotado. No caminho até a mesa principal, o presidente da Fiesp foi cercado por dirigentes de sindicatos associados à entidade, que faziam questão de cumprimentá-lo. Assim que os salamaleques terminaram, Gomes se aproximou da mesa, onde o esperavam de pé o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e outros convidados. Todos sentaram nos lugares indicados com seus nomes, e Gomes deu início aos trabalhos da última reunião da diretoria da Fiesp prevista no calendário de janeiro.
Ele começou contando como conheceu o ministro, empossado havia quatro semanas apenas. O encontro ocorreu décadas atrás, quando Gomes visitou a loja do pai de Haddad, cliente da indústria têxtil de sua família, a Companhia de Tecidos Norte de Minas (Coteminas). Khalil Haddad tinha negócios numa área de comércio popular no Centro de São Paulo, a cujos lojistas o pai do empresário, José Alencar Gomes da Silva, vendia tecidos. Do jovem Fernando Haddad, o presidente da Fiesp guardou a lembrança de um negociador difícil: “Como comprador, ele judiava da gente brutalmente, porque sempre queria pagar mais baixo.” Haddad fez 60 anos em janeiro, e Gomes completará a mesma idade em dezembro.
Feito o gracejo, o empresário foi à substância do seu discurso. Lamentou o declínio da indústria brasileira, reclamou dos impostos e criticou as taxas de juros. Segundo seu diagnóstico, o setor perdeu relevância econômica porque sucessivos governos adotaram políticas que extraem com tributos a maior parte da riqueza produzida pelas fábricas e encarecem excessivamente os custos de financiamento, a tal ponto que inviabilizam investimentos na produção. “O Brasil foi criando condições extremamente inóspitas para o desenvolvimento da atividade da indústria de transformação”, disse.
A seguir, tratou da reforma tributária. As indústrias acreditam que as propostas em discussão no Congresso podem beneficiar seus negócios, e Gomes expressou simpatia por elas. Como a votação ainda deve demorar, ele aproveitou a visita de Haddad para adiantar dois pedidos. Primeiro, criar um benefício especial que permita às indústrias deduzir mais rapidamente dos seus lucros gastos com máquinas e investimentos em novas instalações, abatendo assim os impostos que são calculados sobre seus ganhos. Depois, zerar imediatamente o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), principal tributo federal incidente sobre as vendas do setor.
Vários produtos, inclusive do setor têxtil, já têm o IPI zerado atualmente. O outro incentivo sugerido por Gomes já existe para certas despesas, como os investimentos das indústrias em pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Ampliar esses benefícios significaria perda imediata de arrecadação para o governo, sem garantia de compensação no futuro. Imaginando a resposta do ministro aos pedidos, Gomes encerrou sua fala com uma mensagem tranquilizadora: “Pode ter certeza que a indústria de transformação vai responder. Todas as experiências de redução de tributos para a indústria resultaram, na verdade, num aumento de arrecadação.”
Ao tomar a palavra, Haddad ignorou os dois pedidos de Gomes. Preferiu destacar os pilares da sua estratégia para tirar a economia do marasmo: uma reforma tributária ampla, nos moldes das propostas que o Congresso começou a debater em 2019, e um plano para equilibrar as contas do governo nos próximos anos, projeto que àquela altura ainda era objeto de estudo. O ministro estava entusiasmado com os encontros que tivera no convescote anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, dias antes. Contou aos empresários ter notado grande interesse dos investidores estrangeiros pelo Brasil e previu o surgimento, em breve, de oportunidades vantajosas para o país e suas indústrias.
Os microfones foram então abertos para os empresários na plateia. A primeira alfinetada veio de Pedro Evangelinos, presidente do Sindicato da Indústria de Refrigeração, Aquecimento e Tratamento de Ar do Estado de São Paulo. O empresário criticou a sugestão feita por Gomes. Como somente 2% das indústrias brasileiras têm ganhos tributados conforme o lucro contábil, apenas elas, as maiores empresas do país, poderiam aproveitar o benefício proposto pelo presidente da Fiesp. “Seria importante pensar naquilo que pode ajudar os outros”, disse Evangelinos. Segundo a Receita Federal, 93% das indústrias brasileiras são de pequeno porte e se enquadram nas regras do Simples, e por isso não teriam como aproveitar o incentivo.
Evangelinos é filho de um imigrante grego que veio para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial e começou a produzir componentes para aparelhos de refrigeração em São Paulo na década de 1970. O negócio prosperou até que, no ano 2000, um concorrente norte-americano comprou a empresa da família e fechou a fábrica no Brasil. Cinco anos depois, Pedro e o irmão, Yanis, decidiram retomar as atividades. Constataram que não poderiam competir se produzissem no país e resolveram então se associar a um fabricante na China, de onde importam os produtos quase prontos para vender no mercado nacional com a marca RAC Brasil. Os irmãos trazem uma fatia equivalente a apenas 6% da produção da fábrica chinesa.
Na reunião da Fiesp, o ministro da Fazenda ouviu mais uma dúzia de perguntas e desviou das cascas de banana até o fim, mantendo o foco nas suas prioridades. Acrescentou que não tem planos de mexer agora nas regras do Simples, o programa que reduz impostos para empresas de pequeno porte, mas sugeriu que poderá ser reavaliado no futuro. “A reforma tributária pode ajudar muito, muito”, insistiu. Antes de encerrar o encontro, Gomes disse que as primeiras iniciativas do ministro mereciam aplausos e ofereceu seu apoio. “Conte com a indústria do Brasil, com a indústria de São Paulo, e acredite na indústria”, disse. E convidou todos para almoçar no restaurante no topo do edifício da Fiesp.
Apresença de Haddad na sede da Fiesp teve significado especial para Gomes. Poucos dias antes, o salão nobre da entidade servira de palco para cenas de opereta, no auge de uma crise interna que deixara o empresário pendurado por um fio no comando da federação. A visita da maior autoridade econômica do país era uma maneira de demonstrar o prestígio político de Gomes e sua capacidade de diálogo com o novo governo, neutralizando assim os dissidentes que haviam tentado derrubá-lo. Para oferecer solidariedade a ele, dirigentes das federações industriais do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e da Bahia também se deslocaram até São Paulo para a reunião de 30 de janeiro.
Com o mesmo objetivo, o vice-presidente Geraldo Alckmin, que acumula as funções de ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, havia visitado a Fiesp dias antes, em 16 de janeiro. Recém-empossado, ele ainda não completara a montagem de sua equipe e não tinha anúncio algum a fazer aos industriais. Entreteve a plateia com anedotas de seus tempos como governador do estado de São Paulo e prefeito de Pindamonhangaba e disse que estava na Fiesp para colher sugestões. Ficou para o almoço e ouviu várias. Segundo um dos empresários que passaram pela mesa do vice-presidente, ele anotava os pedidos dos industriais no verso dos cartões de visita que lhe entregavam.
Um dos que conseguiram reter a atenção de Alckmin foi o presidente executivo da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos, Klaus Curt Müller. Ele queria reclamar de uma medida tomada no início de 2021 pelo governo Jair Bolsonaro, que zerou as tarifas de importação de pneus para cargas pesadas, com a alegação de que havia escassez do produto no mercado nacional. Pneus feitos na China, no Vietnã e em outros países asiáticos passaram a entrar no Brasil livres da taxa de 16% que pagavam antes, e as vendas das indústrias brasileiras despencaram. O vice-presidente ouviu, anotou e ficou de analisar.
Assim que Alckmin foi embora, teve início uma assembleia convocada a pedido dos desafetos de Gomes com o objetivo de destituir o empresário da presidência da entidade. Foram horas de tumulto, que terminaram no início da noite com a deposição de Gomes, aprovada por 47 representantes dos 131 sindicatos que compõem a Fiesp. Seguiram-se dias de indefinição sobre o futuro da organização patronal, até que os grupos em conflito resolveram se encontrar para negociar um acordo. Celebrada a paz, anunciada por notas oficiais lacônicas, Gomes pôde voltar a ocupar sua sala na Fiesp sem medo de ser despejado.
A aproximação com o novo governo ajudou o industrial a vencer a oposição interna. Pragmáticos, os industriais não têm interesse em criar uma relação conflituosa com os petistas, o que poderia obstruir seu acesso aos corredores de Brasília onde suas reivindicações são discutidas. No entorno de Lula também não há ninguém interessado em ter no comando da Fiesp um adversário do governo, ainda que a entidade tenha perdido muito da influência de outros tempos. Dois dias após a destituição de Gomes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez questão de telefonar ao empresário para se solidarizar.
Gomes logo se posicionou como fiel escudeiro de Lula. No auge do confronto do presidente da República com o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, por causa das altas taxas de juros, o industrial não hesitou. Em março, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ex-ministro de Bolsonaro, disse na Fiesp que a gritaria contra os juros era contraproducente, por criar instabilidade nos mercados. Gomes respondeu que as taxas elevadas eram injustificáveis. Dias depois, ele ajudou a transformar um seminário do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em palco para os críticos da política monetária e ganhou aplausos ao classificar as taxas fixadas pelo BC como “pornográficas”.
O Banco Central ignorou as pressões do governo e manteve a taxa básica de juros em 13,75%, nível em que está estacionada desde agosto. É a taxa mais alta do mundo em termos reais, descontada a inflação. O BC diz que segurá-la nesse patamar ajuda a conter os preços e que só vai afrouxar o torniquete quando o governo tiver um plano consistente para equilibrar suas contas. Gomes juntou-se aos que pensam que o BC e os tubarões do mercado financeiro exageram ao apontar o descontrole orçamentário do governo como raiz das dificuldades que a economia atravessa. Na sua concepção, qualquer esforço para reanimar a indústria e os negócios será inócuo se os juros não diminuírem.
Em 31 de março, Haddad chamou Gomes para lhe mostrar um esboço do seu plano fiscal, que tinha sido apresentado a jornalistas dias antes. A proposta cria regras para conter o crescimento das despesas do governo e evitar que continuem aumentando mais rapidamente do que as receitas. Na primeira reunião de diretoria da Fiesp em abril, Gomes sacou um pedaço de papel do bolso do paletó e disse que estavam registrados ali quatro compromissos assumidos pelo ministro no encontro de fim de março. O empresário contou que Haddad prometeu implementar o benefício fiscal defendido em janeiro pela Fiesp e lançar um programa de financiamentos subsidiados para a indústria, além de trabalhar pela reforma tributária e pela baixa dos juros. “Esse documento foi iniciativa dele”, ressaltou Gomes, agitando o papel no ar. “Ele escreveu e ele assinou.” A distância, eram visíveis na folha de papel quatro linhas rabiscadas à mão e a assinatura de Haddad.
Gomes está no comando dos negócios de sua família desde que o pai se afastou das empresas para se dedicar à política. José Alencar foi senador por Minas Gerais, vice-presidente da República nos dois primeiros governos de Lula e ministro da Defesa por um breve período, entre 2004 e 2006. Morreu em 2011, três meses após encerrar seu segundo mandato na Vice-Presidência. Alencar fundou a Coteminas em 1967, em Montes Claros, e mais tarde expandiu suas atividades por fábricas no Rio Grande do Norte, na Paraíba e em Santa Catarina. A empresa produz lençóis, toalhas e outros artigos de cama, mesa e banho, além de fios e tecidos. No varejo, vende com três marcas próprias: Artex, mmartan e Casa Moysés.
Em 2006, Gomes deu sua grande tacada empresarial ao concluir uma fusão com a norte-americana Springs. A união resultou na formação da Springs Global, que é controlada pela Coteminas e administra todas as atividades do grupo, incluindo nove fábricas no Brasil e uma na Argentina. Unidades industriais que funcionavam nos Estados Unidos foram fechadas, e suas máquinas transferidas para instalações no Brasil. A transação deu à Coteminas acesso a cadeias de varejo no mercado norte-americano e fortaleceu a musculatura da empresa brasileira para enfrentar o crescimento da avassaladora concorrência chinesa.
Nos últimos anos, porém, a companhia vem acumulando prejuízos. Em 2022, as perdas registradas até setembro somaram 466 milhões de reais, para receitas operacionais de 1,3 bilhão de reais, segundo as informações mais recentes da Coteminas. Seus custos subiram com os preços do algodão e do poliéster em alta. As vendas, que tinham aumentado durante o isolamento imposto pelo combate à Covid, quando as pessoas passaram mais tempo dentro de casa, caíram quando elas voltaram às ruas. A subida dos juros agravou a situação, fazendo estrago no balanço da empresa, que se endividou nos últimos tempos para desenvolver uma rede própria de varejo. “Uma tempestade perfeita”, resumiu Gomes em agosto, em teleconferência com analistas do mercado. As ações da Coteminas despencaram, mas voltaram a despertar interesse dos investidores no fim de abril, quando fechou um acordo com a varejista chinesa Shein que poderá ampliar o mercado para os seus produtos. Embora a Coteminas não tenha fábricas em São Paulo, ela mantém seus escritórios comerciais na capital paulista há décadas e é filiada ao sindicato da indústria têxtil do estado.
Mineiro de Ubá, Gomes assumiu a presidência da Fiesp em janeiro de 2022, após vencer uma eleição em que sua chapa era a única concorrente. O seu nome foi uma escolha pessoal do empresário Paulo Skaf, de 67 anos, que dirigiu a Fiesp por dezessete anos. Nesse longo domínio, Skaf promoveu sucessivas alterações nos estatutos da entidade para se manter no cargo e cogitou fazê-lo mais uma vez antes de comunicar aos correligionários, no segundo semestre de 2020, que planejava sair. Não deu muitas explicações, dizendo apenas que queria encerrar o ciclo e se dedicar a negócios particulares. Mas sabia-se que ele sonhava disputar as eleições para governador de São Paulo e apostava no apoio de Jair Bolsonaro para realizar suas ambições políticas e superar a frustração de três tentativas fracassadas de chegar ao Executivo do estado.
Como outros dirigentes da federação, Skaf é um sem fábrica. Ele desativou a tecelagem da família no início dos anos 2000, se desfez do maquinário e transformou as instalações num condomínio empresarial, alugando o espaço para pequenas empresas. Pôde assim se dedicar exclusivamente à política empresarial, primeiro como presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) e, depois, da Fiesp. José Alencar foi um dos patrocinadores de sua candidatura à presidência da federação, em 2004. Outros medalhões da indústria, como o presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, Benjamin Steinbruch, também apoiaram seus planos.
Em 2022, Skaf ajudou a montar a chapa de Gomes e organizou vários jantares para apresentá-lo aos dirigentes dos sindicatos. Apesar de bem relacionado no meio, o dono da Coteminas conhecia poucos deles. O presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico, José Ricardo Roriz Coelho, um ex-aliado de Skaf que se distanciou do dirigente com o tempo, organizou uma candidatura alternativa, mas falhas na documentação de dois apoiadores acabaram inviabilizando o registro da chapa. Com a pista livre, a eleição de Gomes se transformou num passeio. Dos 113 delegados habilitados a participar do processo, 104 votaram no seu nome.
Nas eleições da Fiesp, cada sindicato tem um voto. Em tese, não faz diferença se um delegado representa as montadoras de automóveis do ABC paulista ou simples oficinas mecânicas, que também fazem parte da indústria. Nas votações, ainda que a empresa tenha peso econômico irrelevante, sua opinião vale como a de um titã do capitalismo. Esse modelo, cristalizado na estrutura sindical criada por Getúlio Vargas nos anos 1930, pulveriza a representação das empresas do setor e torna a política interna da entidade muito dependente de interesses miúdos. Dos 131 sindicatos filiados à Fiesp, 49 funcionam em modestas salas alugadas, distribuídas em 5 dos 16 andares do imponente edifício-sede da federação e separadas por paredes de madeira. O prédio em forma de pirâmide foi construído na década de 1970 e se tornou uma das referências arquitetônicas da Avenida Paulista.
A estrutura sindical concebida por Vargas segue quase intocada, quase um século depois. Ela prevê que patrões e empregados se organizem em sindicatos nos vários setores da economia para negociar salários e condições de trabalho. As entidades devem ser registradas no Ministério do Trabalho, e a lei impede que mais de um sindicato represente a mesma categoria no mesmo território. Todos devem ser filiados a federações estaduais, como a Fiesp, que se associam a entidades nacionais, como, no caso, a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Cabe a elas a representação política dos sindicatos e a gestão do chamado Sistema S, que administra serviços de assistência social e treinamento profissional, e de onde provém a verba que sustenta a Fiesp e CNI. Com a reforma trabalhista aprovada em 2017, no governo Michel Temer, o imposto sindical compulsório que empresas e trabalhadores recolhiam para sustentar a estrutura foi extinto. Todos os sindicatos tiveram que buscar com associados outras fontes de recursos para financiar suas atividades, enquanto as federações e confederações patronais continuaram contando com repasses bilionários do Sistema S.
As diferenças entre Gomes e seu antecessor eram óbvias para todos que os conheciam, mas só se tornaram evidentes para os dirigentes da Fiesp mais tarde. Hiperativo e espalhafatoso, Skaf fazia questão de lembrar aniversários de diretores dos sindicatos e mandava entregar flores para as mulheres deles em ocasiões especiais. Gomes vivia ocupado com suas obrigações na Coteminas, passava algumas tardes por semana na Fiesp e não encontrava tempo para atender às variadas demandas dos filiados. “Skaf foi essencialmente um despachante dos interesses deles, provavelmente um bom despachante”, disse Pedro Wongtschowski, acionista do Grupo Ultra, em entrevista à piauí em janeiro. “Josué sempre achou que seu papel à frente da Fiesp seria outro e não pensou que precisasse dedicar tempo a tantas miudezas.”
Gomes manteve vários funcionários contratados por Skaf, até mesmo a secretária dele, mas recrutou gente de sua confiança para auxiliá-lo na gestão da Fiesp e das duas entidades do Sistema S que lhe cabe administrar: os departamentos estaduais do Serviço Social da Indústria (Sesi) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Financiados por contribuições compulsórias das empresas, eles terão 4,4 bilhões de reais para gastar neste ano e deverão repassar 130 milhões de reais para as atividades da Fiesp, o que cobre seu orçamento quase inteiro. Gomes também mexeu nos departamentos técnicos que assessoram a diretoria da federação e nos quinze conselhos temáticos que integram sua estrutura, reduzindo o espaço que os sindicatos patronais ocupavam nesses órgãos.
Nos tempos de Skaf, esses conselhos chegaram a reunir cerca de 2 mil membros, incluindo empresários, políticos e dirigentes da federação. A ideia é que os colegiados promovam debates e auxiliem a federação a formular estratégias, mas o excesso de participantes muitas vezes torna as reuniões improdutivas. Os integrantes participam em caráter voluntário, sem remuneração, porém ganham acesso privilegiado à Fiesp, e muitos aproveitam os encontros apenas para ampliar relacionamentos e cavar oportunidades. Gomes nomeou novos presidentes para os conselhos e deu a todos carta branca para fazer mudanças. Wongtschowski, que sempre criticou publicamente a gestão de Skaf, assumiu o Conselho Superior de Inovação e Competitividade, afastou os sindicatos e substituiu todos os membros do colegiado.
O presidente do Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo, André Sturm, que presidia o Conselho Superior de Economia Criativa quando Skaf mandava no prédio, procurou Gomes para saber quais eram os seus planos e levou semanas para obter uma resposta. Quando finalmente conseguiu ser recebido na sala de Gomes, foi informado de que o apresentador de televisão Luciano Huck fora escolhido para substituí-lo, o que ocorreu dias depois. “Ninguém me deu um telefonema para conversar antes, e ninguém do setor foi chamado”, afirmou Sturm, que é amigo de Skaf, numa conversa com a piauí em janeiro. “Achei ofensivo.”
Em 2004, quando Skaf chegou ao comando da Fiesp, Lula concluía o segundo ano do seu primeiro mandato. O presidente da República ainda lutava contra desconfianças no meio empresarial e enfrentava críticas no próprio partido por ter adotado a política econômica ortodoxa implementada pelo PSDB no governo Fernando Henrique Cardoso. Para ajudar a eleger Skaf, petistas até cabalaram votos de delegados suscetíveis a pressões de Brasília. Lula o prestigiou levando dez ministros à festa que celebrou sua vitória, num palco armado na frente do Museu do Ipiranga, em São Paulo.
Skaf começou a se distanciar de Lula em 2007, quando patrocinou uma campanha pela derrubada da CPMF, o imposto que na época incidia sobre as movimentações financeiras. Realinhou-se com os petistas no primeiro mandato de Dilma Rousseff, que concedeu desonerações e outros benefícios às indústrias. Mas afastou-se outra vez quando percebeu que a direção do vento estava mudando. Passou a atacar a política econômica da presidente e usou a máquina da Fiesp para engrossar as manifestações pelo impeachment, em 2016.
Um símbolo grotesco desses tempos nasceu em 2015, quando Dilma cogitou recriar a CPMF para tapar buracos no orçamento e a Fiesp voltou a abrir fogo contra o imposto. Em meio a uma ofensiva publicitária que incluiu anúncios de tevê estrelados pelo próprio Skaf, a federação pôs nas ruas um imenso boneco de borracha inflado, com 12 metros de altura. Era um pato amarelo com cruzes no lugar dos olhos e o mote da campanha inscrito na barriga: “Não vou pagar o pato.” O bicho passou um dia na frente do Congresso Nacional antes de ser levado embora. Dilma jamais conseguiu apoio para ressuscitar a CPMF.
Em março de 2016, três semanas antes da abertura do processo de impeachment de Dilma, uma nova versão do boneco foi inflada no gramado central da Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Tinha 20 metros de altura e uma variante do lema original: “Chega de pagar o pato.” Uma réplica menor, mas ainda assim chamativa, de 5 metros de altura, ficou exposta na frente da Fiesp por meses e acabou se tornando um símbolo para os que protestavam de verde e amarelo na Avenida Paulista, pedindo o afastamento da presidente. Alguns manifestantes chegaram a acampar por vários meses em torno do pato, aguardando a votação do impeachment, e milhares de réplicas foram distribuídas pela Fiesp nos protestos. A última aparição do bicho ocorreu em 2017, no governo Michel Temer, quando ele foi inflado outra vez na sede da federação, em protesto contra um aumento dos impostos sobre os combustíveis.
Skaf nunca fez segredo de suas aspirações políticas. Ele se licenciou da presidência da Fiesp três vezes para disputar o governo do estado de São Paulo, mas perdeu todas. Na primeira tentativa, em 2010, concorreu pelo PSB e terminou em quarto lugar. Perdeu para o então governador Geraldo Alckmin, que estava no PSDB e já tinha exercido o cargo por dois mandatos. Em 2014, o empresário tentou de novo, agora filiado ao mdb de Michel Temer. Ficou em segundo lugar, derrotado outra vez por Alckmin, que foi reeleito no primeiro turno. Na terceira tentativa, em 2018, Skaf acabou em terceiro lugar. Ele percebeu que dificilmente teria outra chance na política se não buscasse aproximação com a nova direita e apoiou o governo Bolsonaro com entusiasmo, mas não conseguiu viabilizar uma nova candidatura e ficou fora das eleições de 2022.
Gomes logo mostrou que seu estilo era outro. Antes de assumir a Fiesp, desligou-se do MDB, sigla pela qual concorreu uma vez ao Senado por Minas Gerais, sem sucesso. Num café da manhã com jornalistas após a posse na federação paulista, afirmou que ficaria longe das disputas partidárias na campanha presidencial, mas cutucou Bolsonaro, dizendo que ele seria lembrado para sempre pelos ataques às instituições democráticas e pela atuação desastrosa durante a pandemia de Covid. Em julho passado, reuniu banqueiros e outros figurões para um almoço com Lula na sede da federação, a portas fechadas, e não convidou nenhum dirigente patronal para sentar à mesa. Depois, explicou a um diretor da entidade que o almoço fora restrito a poucos convidados porque tivera caráter pessoal, e acrescentou que havia reembolsado a Fiesp de todas as despesas.
Ocaldo de insatisfação que vinha borbulhando na federação desde a posse de Gomes transbordou quando ele aderiu à campanha da sociedade civil em defesa da democracia. Três dos primeiros articuladores do movimento – o professor de direito Oscar Vilhena Vieira, da Fundação Getulio Vargas, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga e a socióloga Maria Alice Setubal, herdeira do Itaú Unibanco – foram à Fiesp em junho de 2022 para conversar com Gomes sobre a ofensiva de Bolsonaro contra o processo eleitoral e os tribunais superiores, e defenderam a necessidade de os empresários se posicionarem contra os ataques. “Ele se mostrou muito afinado com nossas preocupações”, contou Vilhena à piauí.
Surgiu então a ideia de escrever um manifesto, a ser submetido a outras entidades depois. O presidente da Fiesp promoveu uma consulta sobre a iniciativa numa das reuniões semanais de sua diretoria, apresentando-a de forma genérica. Ninguém se opôs. Quando o manifesto ficou pronto, no fim de julho, Gomes fez o texto circular entre os filiados para que indicassem se gostariam de subscrevê-lo. Somente 18 dos 131 sindicatos concordaram. As centrais sindicais dos trabalhadores, a Federação Brasileira de Bancos e outras organizações com força na sociedade assinaram o manifesto, mas a rejeição dentro de casa mostrou que a insatisfação dos sindicatos patronais com Gomes vinha tomando uma dimensão maior do que ele imaginava.
Bolsonaro desqualificou o documento, chamando-o de “cartinha”, disse que Gomes estava trabalhando pela candidatura de Lula e cancelou sua participação num evento organizado pela Fiesp. O texto foi publicado nos principais jornais e lido pelo advogado José Carlos Dias num ato público na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo no dia 11 de agosto, quando se celebra a criação dos cursos de direito no Brasil. Gomes participou com discrição. Entrou mudo, sentou-se longe da mesa principal e saiu calado. O único representante do setor industrial que discursou no evento foi Horácio Lafer Piva, acionista da Klabin, ex-presidente da Fiesp e crítico da gestão de Skaf. Outro manifesto, articulado por ex-alunos da faculdade e reforçado pela adesão de 1 milhão de pessoas na internet, foi lido no mesmo dia no pátio da escola.
Dois dias antes dos atos públicos em defesa da democracia, Lula foi recebido uma segunda vez na sede da Fiesp, agora para um debate com a diretoria. Lamentou o encolhimento da indústria brasileira, disse ter ficado assustado com o avanço da China nos últimos anos e prometeu aos empresários reerguer o setor. “Perdemos muito espaço”, disse. “Os chineses ganharam, se não tudo, quase tudo.” Ele bateu com a mão na mesa ao lembrar José Alencar, o pai do anfitrião: “O único empresário que falava grosso para mim: ‘Eu não tenho medo da China.’” Gomes, que cogitou abrir uma fábrica na China após a fusão com a Springs e acabou abandonando o projeto, murmurou ao lado do petista: “As coisas mudam.”
Nas últimas décadas, a indústria brasileira sofreu um declínio muito intenso e difícil de reverter. De 1985 a 2022, a fatia que a produção nas fábricas representa no Produto Interno Bruto (PIB), o valor total dos bens e serviços produzidos no país, caiu de 36% para 13%. A derrocada da indústria foi acompanhada pela ascensão do setor de serviços, formado por bancos, escolas, hospitais e outras atividades que hoje representam 68% do PIB. A situação da indústria preocupa porque ela tende a ser um motor mais potente que os demais setores para puxar o crescimento econômico, com maior capacidade para estimular inovações tecnológicas e arrastar outras áreas.
O problema não é exclusivo do Brasil. Os economistas chamam o fenômeno de desindustrialização e o descrevem como uma etapa esperada do processo de desenvolvimento. À medida que os países se desenvolvem e as pessoas alcançam maior poder aquisitivo, elas passam a usufruir de diversos serviços aos quais não tinham acesso, e com isso o peso desse setor aumenta. Cálculos feitos pelo economista turco Dani Rodrik, professor da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, indicam que nos países mais bem-sucedidos a virada ocorreu depois que atingiram uma renda anual equivalente a 20 mil dólares por habitante, cerca de 100 mil reais, ou 8 mil reais por mês. Nos países em que esse processo se inicia de maneira prematura, antes que as indústrias se desenvolvam plenamente, as vantagens proporcionadas por uma fase econômica anterior capitaneada pelas fábricas se perdem e fica mais difícil alcançar níveis elevados de renda e bem-estar.
É o caso do Brasil, onde o declínio da indústria começou muito antes que a renda atingisse o patamar sugerido por Rodrik. Hoje, a renda por habitante no Brasil equivale a 1,4 mil dólares por mês, ou quase 7 mil reais, em valores ajustados pelo método de paridade do poder de compra, que permite comparações internacionais. Além disso, a indústria perdeu espaço mais rapidamente aqui do que em outros lugares. Nos Estados Unidos, por exemplo, ela acompanhou o ritmo de crescimento da economia e manteve por décadas seu peso no PIB, o que ajudou o país a diversificar suas atividades e alcançar níveis de desenvolvimento mais elevados. A renda por habitante nos Estados Unidos equivale hoje a quase 6 mil dólares por mês, ou 30 mil reais.
A indústria foi a principal alavanca do crescimento no Brasil na década de 1950, quando montadoras de automóveis e fabricantes de máquinas e eletrodomésticos começaram a produzir no país. Ela continuou em expansão até o fim dos anos 1970, com o estímulo dado pelos governos militares ao desenvolvimento de usinas siderúrgicas e polos petroquímicos. A decadência começou na década de 1980, época em que o descontrole dos gastos públicos, a aceleração da inflação e o endividamento crescente começaram a travar o desenvolvimento do Brasil.
Em 1980, o parque industrial brasileiro era maior do que os da China, da Coreia do Sul e da Índia, somados. Hoje, esses três países têm indústrias maiores do que a brasileira, individualmente. Em 2010, a China ultrapassou os Estados Unidos e se tornou a maior potência industrial do mundo. Uma análise comparativa do desempenho de trinta nações mostra que a indústria brasileira foi largamente ultrapassada por seus concorrentes desde então. O Brasil tinha o sexto maior parque industrial do mundo em 1980 e hoje ocupa a nona posição, segundo os economistas Paulo César Morceiro e Milene Simone Tessarin, pesquisadores da USP.
A indústria nacional paga o preço de uma estratégia equivocada, na visão do economista Francisco Vidal Luna, coautor de vários livros sobre a história econômica do Brasil e do estado de São Paulo com o historiador norte-americano Herbert Klein, da Universidade Columbia. “As indústrias tinham proteção excessiva, a abertura comercial dos anos 1990 quebrou muitas empresas e poucas sobreviventes souberam agarrar a oportunidade para se modernizar e se tornar mais competitivas”, disse Luna à piauí. “Foi o contrário do que aconteceu com o agronegócio, que aproveitou as condições criadas pela abertura para aumentar sua produtividade e crescer no mercado internacional.”
As dificuldades econômicas dos últimos anos contribuíram para agravar o quadro, provocando queda acentuada de investimentos em inovação. “As transformações que a economia mundial tem sofrido exigem de todas as empresas uma capacitação maior hoje, num ambiente de muita pressão competitiva”, disse o sociólogo Glauco Arbix, que presidiu a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, no governo Dilma. “Do ponto de vista tecnológico, nossas fraquezas são grandes demais para pensar numa recuperação rápida.” Basta um exemplo para entender. Segundo a Federação Internacional de Robótica, o Brasil tinha 16 robôs industriais para cada 10 mil empregados nas fábricas em 2021. A Coreia do Sul tinha 1 mil.
Na campanha eleitoral, Lula prometeu reerguer a indústria de olho no futuro, mobilizando recursos para apoiar o desenvolvimento de novas fontes de energia renováveis e a digitalização da economia, mas falou também em ressuscitar a construção de navios e outros projetos que fracassaram no passado. Há entre os petistas quem sonhe com políticas industriais audaciosas, como a que o governo Joe Biden começou a implementar nos Estados Unidos, que prevê trilhões de dólares para investimentos em infraestrutura, semicondutores e energia limpa. Até agora, o único passo dado por Lula para viabilizar a aspiração foi reativar o Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial, que deixou de se reunir nos governos Temer e Bolsonaro e agora será novamente encarregado de formular propostas para o presidente. O conselho será composto por 21 membros do governo e 21 representantes da sociedade civil.
Lula voltou de sua recente viagem à China, em abril, com quinze acordos diplomáticos assinados e promessas de cooperação em várias áreas. Uma das negociações que parecem mais promissoras envolve a BYD, uma das maiores fabricantes de carros elétricos do mundo. A montadora chinesa discute com o governo da Bahia incentivos para reativar a fábrica construída pela Ford em Camaçari, abandonada desde que a empresa norte-americana decidiu parar de produzir no Brasil, há dois anos. Com pátios cheios de carros que não conseguem vender, outras cinco grandes montadoras deram férias coletivas aos funcionários nos últimos meses. Lula ainda estava em Xangai quando a Mercedes-Benz anunciou uma medida mais drástica, a suspensão dos contratos de 1,2 mil trabalhadores de sua fábrica em São Bernardo do Campo, o berço político do PT e do presidente.
Os dilemas da indústria não estavam no centro das preocupações dos articuladores do levante que quase derrubou Gomes na Fiesp. Eles começaram a se organizar dias após a leitura dos manifestos pela democracia, em agosto, quando faltavam sete semanas para o primeiro turno da eleição presidencial. Um dos primeiros encontros dos revoltosos reuniu trinta pessoas na casa de Paulo Skaf, que se tornara alvo de cobranças dos correligionários por ter sido o fiador da eleição do sucessor. Todos reclamaram do distanciamento de Gomes, do desprezo com que seus interesses eram tratados e da perda de influência em conselhos e departamentos. Ninguém ali falou de desindustrialização.
Duas semanas antes do segundo turno, Skaf publicou nas redes sociais um vídeo em que pedia apoio à reeleição de Bolsonaro. “Ele pode falar o que não deve, mas ele faz o que deve ser feito”, disse o ex-presidente da Fiesp, que ficara de mãos abanando na campanha estadual e mesmo assim continuou abraçado ao bolsonarismo. “Eu prefiro isso do que aquele que fala bonitinho e faz errado, e tapeia a gente a vida toda.” Embora muitos empresários apoiassem Bolsonaro, nenhum outro representante do setor industrial falou tão alto. Poucos dias depois, cerca de oitenta dirigentes insatisfeitos com Gomes se reuniram com Skaf num restaurante em São Paulo e decidiram propor a convocação de uma assembleia extraordinária dos sindicatos para discutir a situação na Fiesp.
O requerimento foi apresentado a Gomes uma semana antes do segundo turno, endossado pelas assinaturas de 78 dirigentes da federação. Segundo eles, o presidente da Fiesp havia se afastado de suas responsabilidades ao promover o seu “desvirtuamento, mediante a defesa de ideias incompatíveis com os interesses dos sindicatos filiados e com os anseios das categorias industriais representadas”. Os três parágrafos do documento pareciam escritos em linguagem cifrada. Nenhum deles dizia com clareza o que justificava a acusação contra Gomes, embora muitos dirigentes expressassem reservadamente desgosto com o manifesto de agosto e as visitas de Lula à federação.
No início de novembro, uma semana depois da vitória de Lula no segundo turno, Gomes se reuniu com a diretoria da Fiesp e disse que não convocaria a assembleia porque o requerimento dos amotinados não incluía motivação detalhada, nos termos exigidos pelos estatutos da entidade. A resposta inflamou os insurretos, que protestaram e bateram boca com os aliados de Gomes por horas, sem chegar a lugar nenhum. A certa altura, o presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos, Synésio Batista da Costa, levantou-se e saiu em defesa do empresário mineiro, citando os estatutos e insistindo para saber, afinal, qual era a razão para a insatisfação dos dissidentes.
Em pé no meio do auditório, Costa resolveu contar uma anedota. “Eu sou um comprador de champanhe de mulher que se separa do marido”, começou. “Eu recebo as cotações e eu compro tudo que eu puder. Porque o preço é a metade, por causa da raiva [que elas sentem dos maridos].” Fez uma pausa e então explicou: “Aí tem uma razão. É uma razão lógica. Foi flagrado o cara com uma outra de 24 HP e então ela se rebelou.” Um vídeo gravado durante a reunião e vazado para o site de notícias Poder360 mostra dirigentes patronais gargalhando na plateia, enquanto Costa contava a história. Três mulheres que viram a cena apresentaram queixa a Gomes, acusando Costa de misoginia.
Uma semana mais tarde, os opositores de Gomes pediram a convocação de outra assembleia, agora apresentando uma dúzia de questionamentos e prevendo espaço para que o presidente da federação se defendesse, antes que sua destituição fosse discutida. Havia perguntas sobre a nova composição dos conselhos da Fiesp, o processo eleitoral da federação e a atuação de colaboradores recrutados por Gomes para trabalhar na entidade. Algumas das questões pareciam picuinhas, mas também constavam da pauta questionamentos sobre a adesão de Gomes à campanha pela democracia. Como o novo requerimento era apoiado por 86 dirigentes, foi impossível ignorá-lo.
O acirramento do conflito fez outros atores se movimentarem. Em dezembro, quando faltavam duas semanas para a posse no Palácio do Planalto, Lula chamou Gomes para conversar sobre o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O empresário argumentou que não tinha condições de se afastar da direção de suas empresas e recusou o convite para assumir a pasta, mas se dispôs a ajudar o petista a encontrar outro nome. Incentivou Pedro Wongtschowski a conversar com Lula, mas os dois não se entenderam. Sem outra opção, o presidente decidiu nomear Alckmin.
A assembleia proposta pelos opositores de Gomes na Fiesp ficou marcada para 16 de janeiro. O governo ainda lidava com o rescaldo dos ataques bolsonaristas de 8 de janeiro, em Brasília, quando Alckmin foi destacado para socorrer o empresário. A ida do vice-
presidente à Fiesp, no mesmo dia do confronto decisivo do industrial com os adversários, foi a primeira visita de um integrante do novo governo desde a posse de Lula. De nada adiantou. Assim que Alckmin foi embora com os cartões de visita que recolhera, os dirigentes dos sindicatos reiniciaram as hostilidades.Gomes procurou responder a todos os questionamentos apresentados como pretexto para sua destituição. Nas contas de um participante da reunião, ele foi interrompido quinze vezes por questões de ordem, e pelo menos sete dirigentes foram aplaudidos ao pedir que renunciasse ao cargo. Alguns bocejaram e roncaram alto enquanto Gomes falava. Outros puxaram vaias. Quando pediram que colocasse a própria destituição em votação, o empresário se recusou a fazê-lo. “Ninguém mais estava a fim de ser amigo dele”, disse André Sturm à piauí, ao relembrar os acontecimentos daquele dia.
Quando se organizou uma votação para que os dirigentes opinassem sobre as explicações de Gomes, somente 24 deles disseram que eram satisfatórias, e 62 afirmaram que não. Gomes levantou-se e foi embora com um grupo de aliados. Já era noite quando o presidente do Sindicato da Indústria de Especialidades Têxteis do Estado de São Paulo, Paulo Henrique Schoueri, assumiu a direção dos trabalhos e colocou em votação a proposta de destituição. Com o salão esvaziado, contaram-se 47 votos a favor do afastamento, 1 contra e 2 abstenções.
Gomes começou a virar o jogo quando deixou claro que iria resistir. Convocado para reforçar sua defesa, o advogado Miguel Reale Junior disse que a destituição era ilegal, por contrariar os estatutos da federação, e acusou os adversários do empresário de patrocinar “um golpe contra o espírito democrático”. Dos 18 sindicatos que haviam apoiado o manifesto pela democracia articulado por Gomes em agosto, 12 votaram pela sua destituição em janeiro, de acordo com a contabilidade de um empresário que acompanhou as duas votações da assembleia.
Quando Gomes mandou divulgar uma nota dizendo que continuava no exercício de suas funções, seus opositores aproveitaram um momento em que estava ausente e se reuniram na Fiesp para empossar como presidente interino o mais velho dos vice-presidentes da casa, Elias Miguel Haddad, que está com 95 anos de idade. Gomes então ameaçou recorrer à Justiça, abrindo o caminho para negociar um acordo que pacificasse a organização. O industrial sentou-se com Skaf no escritório do advogado Ives Gandra da Silva Martins, e eles fecharam um acordo. “A briga podia se arrastar, e não ia ser bom para nenhum dos dois lados”, disse Schoueri em março. Nem Gomes nem Skaf quiseram dar entrevistas à piauí.
Na nota conjunta em que sacramentaram o acerto, os dois empresários se comprometeram a trabalhar pela “superação de divergências”, reconhecendo a importância dos sindicatos menores e a necessidade de uma “gestão mais ampla e abrangente”. No dia em que Gomes recebeu Fernando Haddad na federação, Skaf compareceu e sentou-se ao lado de um assessor do ministro na mesa principal. Nas semanas seguintes, Gomes anunciou a intenção de mexer novamente nos conselhos da entidade e pediu a todos os sindicatos que indicassem nomes. Os colegiados voltaram a inchar, e o conselho presidido por Pedro Wongtschowski dobrou de tamanho.
Num estudo clássico sobre a industrialização de São Paulo, o historiador norte-americano Warren Dean observou que os empresários do setor sempre buscaram a identificação com o bem comum como parte de uma estratégia útil para acumular força política e defender seus negócios. “É óbvia a existência de uma absoluta correlação entre os fins almejados pelos industriais e os verdadeiros interesses da nação”, disse Francisco Matarazzo em 1928, ao tomar posse como o primeiro presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp). “O aumento da capacidade de consumo da nação representará a abertura de um formidável mercado para os industriais brasileiros. Elevando-se harmoniosamente, o consumo e a produção aumentarão a riqueza, trarão grandeza ao país, bem-estar e tranquilidade à população.”
O Ciesp nasceu de um racha na Associação Comercial de São Paulo, organização patronal em que os pioneiros da indústria paulista viviam às turras com comerciantes que traziam do exterior grande parte das mercadorias que satisfaziam as necessidades de consumo da população. Os industriais paulistas queriam que o governo elevasse as tarifas de importação, para barrar a entrada de produtos estrangeiros mais baratos e evitar que concorrentes nacionais emergissem importando máquinas mais modernas. Os importadores culpavam o protecionismo da indústria pela inflação, e isso fazia com que muitos empresários do setor fossem malvistos pela população.
Nascido na Itália em 1854, numa família de proprietários rurais, Matarazzo migrou para o Brasil em 1881 e se estabeleceu como comerciante em Sorocaba, no interior de São Paulo. Começou a produzir banha de porco e depois de alguns anos se mudou para a capital, onde construiu um império industrial que no início do século XX incluía uma tecelagem, um moinho de trigo, um engenho de arroz e fábricas de óleo e sabão. Matarazzo foi um dos homens mais ricos do mundo no seu tempo e alimentava a própria fama como imigrante que saiu de baixo e venceu. Admirador de Benito Mussolini, foi sepultado de acordo com um ritual fascista, em 1937.
Pouco restou dos seus empreendimentos. Os negócios foram se desfazendo em meio a disputas familiares e dificuldades econômicas. A única indústria em atividade que ainda é dirigida por um Matarazzo é a Metalma, que faz embalagens, tampas e chapas para revestimento interno de refrigeradores. A empresa tem três fábricas, uma em São Carlos, no interior paulista, outra no Paraná, e uma terceira na Zona Franca de Manaus. O ex-ministro Andrea Matarazzo, que chefiou a Secretaria de Comunicação Social no governo Fernando Henrique Cardoso, está à frente da Metalma. Ele é sobrinho-bisneto de Francisco Matarazzo.
Muitas indústrias de São Paulo fizeram o mesmo caminho que a dele nos últimos anos, atraídas pelos generosos incentivos fiscais oferecidos às que se instalam em Manaus. Criada em 1967 com a intenção de estimular o desenvolvimento da região amazônica, a Zona Franca deve custar somente neste ano 20 bilhões de reais em renúncia fiscal para os cofres federais. Críticos da iniciativa apontam danos causados pela ocupação desordenada de Manaus, ineficiências econômicas e outros resultados indesejáveis, mas ninguém consegue mexer na Zona Franca. O distrito industrial emprega mais de 100 mil pessoas e tem sua existência garantida pela Constituição até 2073.
O Ciesp do tempo de Matarazzo também não existe mais. Em 1931, transformou-se na Fiesp, para se enquadrar na estrutura sindical criada por Getúlio Vargas. Os industriais paulistas resistiram ao modelo no início, porque não queriam interferência do governo em suas organizações, mas logo perceberam as vantagens. O novo sistema submetia os sindicatos dos trabalhadores a controles rígidos e concedia mais autonomia às entidades patronais, que podiam nomear representantes para conselhos e outros órgãos governamentais de caráter consultivo. Em 1942, o Ciesp foi recriado como uma associação de caráter civil, com escritórios espalhados pelo interior, que promovem eventos e oferecem serviços a milhares de empresários filiados.
A história dessas entidades ensina que, em quase um século, pouca coisa mudou ali. “Nas origens desse sistema, foi estabelecido um pacto entre os empresários e o Estado, para garantir que as decisões do governo seriam compartilhadas com os representantes do setor privado, especialmente na definição da política tarifária no caso da indústria”, explica a cientista política Maria Antonieta Leopoldi, da Universidade Federal Fluminense, autora de uma tese de doutorado sobre as associações da indústria. “A representação desses interesses se fragmentou com o tempo e essas entidades se enfraqueceram, mas a lógica que preside suas relações com o governo se mantém.”
Nos últimos meses, o governo tomou algumas medidas pontuais para atender reivindicações de setores da indústria. Em março, como os fabricantes de pneus haviam solicitado a Alckmin, foi restabelecida a tarifa imposta aos pneus importados, que Bolsonaro tinha zerado. O mesmo ocorreu com as tarifas de resinas plásticas, expondo interesses contraditórios dentro da própria indústria. As tarifas tinham sido zeradas no governo Bolsonaro, a pedido de empresas que buscavam insumos mais baratos para produzir, e agora foram restabelecidas, para proteger os produtores nacionais de resinas da competição externa. As montadoras de automóveis também já voltaram ao guichê, em busca de incentivos para reativar o setor e produzir carros populares como em outros tempos.
Se não falta boa vontade em Brasília para os pleitos da indústria, é evidente que não existe um plano consistente para reerguê-la. “O governo tem indicado a reindustrialização do país como uma prioridade, mas ainda não há uma estratégia para alcançar esse objetivo”, disse o empresário Pedro Passos, um dos fundadores da fabricante de cosméticos Natura e atualmente copresidente do Conselho de Administração da empresa, numa conversa em março. “Será preciso fazer escolhas difíceis para que a indústria volte a progredir, porque nenhum país tem como ser competitivo em tudo”, acrescentou. “Entidades como a Fiesp não contribuem com esse debate porque têm uma visão muito conservadora e encontram dificuldades para conciliar os vários interesses dos associados.”
Com a reforma tributária, o principal objetivo do governo é criar um novo imposto sobre o consumo de bens e serviços para substituir cinco tributos que hoje são cobrados pela União, pelos estados e pelos municípios. A simplificação tende a beneficiar as indústrias, que são especialmente punidas pelo complexo sistema atual, mas o setor de serviços e a agropecuária temem prejuízos e começaram a se mobilizar contra as mudanças. O debate sobre o novo arcabouço fiscal proposto por Fernando Haddad também poderá provocar reavaliações dos benefícios que muitas indústrias recebem, porque o governo está em busca de receitas que ajudem a colocar o plano em pé.
Em abril, no dia em que exibiu o bilhete com os compromissos assumidos pelo ministro, Gomes recebeu na Fiesp membros da comissão que conduzirá a discussão da reforma tributária na Câmara dos Deputados. Ao defender as mudanças, ele parecia ecoar o discurso de Francisco Matarazzo. “A indústria está abraçada a esta causa, mas não porque acredita que ela é boa para a indústria”, disse aos parlamentares. “Ela é boa para a indústria porque é boa para todo mundo, é boa para o país.” Gomes reconheceu a necessidade de abrir exceções para alguns setores, como a produção de alimentos básicos e os serviços de saúde, mas fez questão de traçar uma risca no chão: “A Fiesp não pode admitir que a alíquota [do novo imposto] suba para os bens da indústria de transformação de maneira a compensar as exceções.”
Soou como se o velho pato amarelo de borracha estivesse pronto para entrar em ação novamente, a qualquer momento.
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_200 com o título “O baile da Fiesp”.

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