sábado, 27 de maio de 2023

INCERTEZA CRIADA NA HORA ERRADA

Alvaro Gribel, O Globo

O pacote automotivo anunciado pela metade e às pressas pelo governo Lula na quinta-feira criou uma incerteza fiscal no momento errado. Coube ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ontem, enfatizar em entrevista à GloboNews que o programa é temporário e terá duração de “poucos meses”. Ainda assim, a medida é inoportuna. As falas de Roberto Campos Neto esta semana e o dado positivo do IPCA-15 de abril foram vistos pelo mercado financeiro como a abertura de uma enorme fresta para o início do corte de juros na reunião do Copom de agosto. Isso se refletiu na curva de juros, ou seja, na compra e venda de papéis pelos investidores nas mesas de negociação dos bancos. O mercado passou a “precificar” em mais de 50% a chance de o BC iniciar a redução da Selic daqui a três meses. Tudo que a autoridade monetária não precisava era de uma conta em aberto de gastos para incentivar o setor automotivo.

Os economistas Felipe Salto, da Warren Rena, e Gabriel de Barros, da Ryo Asset, especialistas em contas públicas, foram taxativos quando questionados sobre o impacto fiscal do programa de incentivo aos carros. Por ora, é impossível fazer os cálculos, porque ninguém sabe os detalhes da medida, como os percentuais de queda de cada tributo, os prazos de duração e tipos de veículos que serão contemplados. Haddad, por sua vez, quando questionado se custaria R$ 8 bilhões, disse que não seria “um quarto desse valor”. Em economia, o nome disso é incerteza, uma das palavras que os empresários e investidores menos gostam de ouvir.

O programa é equivocado pelo impacto ambiental de se estimular a compra de veículos que consomem combustíveis fósseis, quando o mundo tenta reduzir as emissões de gases de efeito estufa, e o governo poderia utilizar os mesmos recursos para estimular o transporte público nas grandes cidades. Além disso, ainda que os automóveis tenham redução de 11% nos preços, como prometeu o vice-presidente Geraldo Alckmin, nem de longe eles se tornarão “populares”, já que o veículo mais barato ficaria acima de R$ 50 mil, valor impensável para caber no bolso das famílias de baixa renda ou até mesmo de renda média.

Haddad disse que a melhor política para a venda de carros é a redução dos juros. Ele está certo, o que torna o programa ainda mais sem sentido por parte do governo federal. A próxima reunião do Copom será nos dias 20 e 21 de junho, ou seja, em menos de 30 dias. O melhor cenário para o país é o Banco Central, nesse encontro, manter a Selic, mas indicar o início de queda da Selic em agosto. É de se espantar que logo a pasta do vice-presidente e ministro Geraldo Alckmin elabore projetos para criar ruídos na economia.

Volta à normalidade

O gráfico foi extraído do site do Fed de Nova York e mostra que as cadeias de suprimento globais já estão normalizadas, após a disrupção provocada pela pandemia. Isso deve ajudar a reduzir a inflação de bens de consumo. Essa melhora já tem feito vários bancos revisarem para baixo as projeções de inflação no mundo e também no Brasil. Por aqui, quem está na ponta mais otimista do mercado é o banco UBS BB, que revisou para 5% a estimativa para o IPCA deste ano e manteve em 3,5% a do ano que vem. Para se ter uma ideia, o Focus prevê números bem mais altos, de 5,8% e 4,13%, nos dois anos.

Dois riscos a menos

O economista-chefe do UBS BB, Alexandre de Ázara, diz que, além da melhora das cadeias de suprimento, o Brasil tirou da frente dois grandes riscos para a inflação que estavam incomodando o mercado. Primeiro, o governo Lula parou de falar em subir a meta de inflação. Segundo, a aprovação do arcabouço fiscal eliminou o risco de descontrole da dívida pública. “Acredito que outras casas também vão começar a reduzir as projeções de inflação do Brasil nas próximas semanas ”, afirmou. Ainda assim, ele aposta em queda da Taxa Selic somente na reunião de setembro.

Bookmark and Share

Nenhum comentário:

Postar um comentário