O Brasil perdeu, nesta segunda-feira (7), uma de suas maiores atrizes: Aracy Balabanian.
Como descobrir se uma paixão de criança pode ser definitiva? Para Aracy Balabanian não foi difícil. A certeza surgiu na primeira vez em que foi ao teatro, e ela veio em forma de lágrimas, de emoção.
“Eu estava emocionada, porque era aquilo que eu queria. É muito difícil para uma criança de 12 anos, ainda mais naquela época, querer ser atriz e já saber que era aquilo, e já perceber que ia ter muitas dificuldades”, disse a atriz ao Memória Globo.
E o preconceito começava dentro de casa. O pai não aceitava a escolha da filha.
“Ele me desafiou com Sérgio Cardoso. Se você tivesse o talento desse ator, mas você nunca chega lá. Antes dele falecer ele, ele me viu chegar lá”, contou Aracy.
Ela contracenou com o ídolo do pai, o ator Sérgio Cardoso, na novela “Antônio Maria”, da TV Tupi. Desde o início, nunca faltou beleza ao seu ofício de atuar. Na primeira peça, aos 14 anos, já recebeu elogios da crítica.
“Eles fizeram uma crítica 'ontem tinha nascido uma estrela', que terminava dizendo: ‘Aracy Balabanian: guardem esse nome’. Eu fiquei possuída”, lembrou a atriz ao Memória Globo.
A partir dali, Aracy, nascida em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, nos brindava todos os dias com sua facilidade em ser atriz. A estreia na TV Globo foi em "O Primeiro Amor". Aracy Balabanian atuou no programa infantil "Vila Sésamo", que marcou uma geração inteira. Em quase sete décadas de atuação, se firmou como uma das maiores atrizes do país.
A desbocada trocadora de ônibus Maria-faz-favor, de “Coração Alado” (1980), de Janete Clair, foi a primeira personagem a dar a Aracy a chance de exercitar a veia cômica.
“Acho que ela é uma mulher que deveríamos ser todas. Ela não deve nada a ninguém e ninguém tem direito de cobrar nada. Não leva desaforo para casa, não leva”, disse Aracy.
Filha de armênios, Aracy Balabanian repetia o sotaque e alguns costumes da terra dos seus pais com uma das personagens mais marcantes foi Dona Armênia, em "Rainha da Sucata". Mãe de três filhos, Dona Armênia se referia assim aos homens da família: “Minhas filhinhas só quer ver mamãe feliz”. E o bordão criado por ela jamais foi esquecido.
“Um casal se aproximou, o homem chegou para mim e disse: ‘Você muito ignorante, não sabe falar direito armênio, não se mete, não mete. E aí foi muito engraçado. Uma dessas coisas que aconteceram muito na minha vida, o público reagindo, a catarse, eu tive muito isso na minha vida”, afirmou durante participação no programa Conversa com Bial.
O sucesso foi tão grande que, dois anos depois, o diretor Silvio de Abreu convidou a atriz para viver a mesma personagem em "Deus nos Acuda".
Aracy interpretou também a matriarca Filomena Ferreto na novela "A Próxima Vítima". Um dos maiores sucessos foi com a personagem Cassandra, uma socialite decadente no humorístico "Sai de Baixo", exibido entre 1996 e 2002. O improviso era constante. E Aracy tentou, muitas vezes, controlar o riso.
“Eu pedi para o Daniel para sair. Ele ainda estava dirigindo: ‘Daniel, eu tenho que sair, não estou correspondendo’. O outro começava a falar, o Miguel fazia coisa, eu não conseguia me controlar, chegava a me unhar toda. Aí ele falou: ‘Ri. Está com vontade de rir, ri’”, contou Aracy Balabanian.
Ao longo da carreira, atuou em dois filmes e nove peças, entre elas "Clarice, Coração Selvagem", quando interpretou a escritora Clarice Lispector. Ao todo, foram 39 novelas.
“Uma novela que eu jamais vou me esquecer é ‘Casarão’, a Violeta de ‘Casarão’”, disse a atriz.
O último trabalho na TV foi em 2019, no especial “Juntos a Magia Acontece”.
As imagens mais recentes de Aracy Balabanian são de há menos de um mês, quando ela recebeu em casa a atriz Claudia Raia e o filho Luca.
Aracy Balabanian morreu na manhã desta segunda-feira (7) na Clínica São Vicente, na Zona Sul do Rio. Desde o fim de 2022, ela se tratava de um câncer. A caçula de sete irmãos se despediu aos 83 anos de idade e a toda família, aos amigos, e aos fãs, ela deixa uma certeza: nunca deixou de amar e de se orgulhar da profissão que escolheu ainda criança.
“Eu comecei em teatro mesmo e minha relação é mesmo com pessoas. Eu gosto muito de gente. Acho que resolvi ser atriz por causa disso, eu gosto das pessoas muito. Eu acho que o tom da minha vida, a força da minha vida, minha mola propulsora é a paixão pelo meu ofício”, afirmou.
Repercussão
“Acho que eu estou dividindo com todo o Brasil que aplaude e agradece por tudo que essa mulher nos deu. A arte brasileira reverencia Aracy Balabanian merecidamente. E hoje, todas as luzes do teatro vão se apagar em homenagem a ela”, diz o ator Miguel Falabella.
“Uma grande atriz, uma das maiores. Como essa mulher fez o Brasil chorar, rir, se emocionar, pensar”, afirma a atriz Marisa Orth.
“Você que amava atuar. Você que abraçou essa profissão de atriz e que saltava aos olhos a sua dedicação. Esses exemplos ficam aqui, comigo, de referência. Obrigado por tantos momentos felizes que nós vivemos”, lembra o ator e comediante Tom Cavalcante.
“Que pessoa incrível, que amiga incrível e, principalmente, que ética, que pessoa corajosa, perseverante, determinada, que sempre foi s grande Aracy”, diz o ator Tony Ramos.
“Estar ao lado dela não só era uma aula artística, como uma aula pessoal, porque ela era uma das melhores pessoas que eu já conheci na vida”, afirma a atriz Claudia Raia.
“Ela sempre foi um exemplo de uma profissional impecável, com um talento brilhante. Fez personagens que eu tive a sorte de escrever para ela”, diz o autor e diretor Sílvio de Abreu.
“O país perdeu uma de suas maiores atrizes, uma das pessoas mais importantes para nossa classe. Aracy Balabanian vai deixar muitas saudades e vai fazer muita falta”, afirma o ator Ney Latorraca.
“Uma atriz séria, estudiosa, preparada, uma mulher inteligente. Perdi uma amiga, uma amiga que até a semana passada se despedia de mim assim: ‘Eu te amo’. Não vou mais ouvir esse eu te amo. Beijo, Aracy. Que Deus te receba aí com amor, com muito amor e muita luz, querida”, lamenta a atriz Arlete Salles.

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