Daqui a pouco, chega dezembro, o mês que carrega um largo
espaço para reflexão. Um tempo que nos convida a pensar sobre as nossas vidas,
a partir da insensatez desses tempos turbulentos. Tempo de recauchutar o
espírito. Aproveito para sugerir uma pauta temática, pinçando fatos,
historinhas e um apólogo, escolhidos para iniciar uma breve leitura do
cotidiano.
Há dias, um empresário foi assassinado no aeroporto de
Cumbica, em São Paulo, ao voltar com a namorada de uma a viagem a Alagoas.
Fuzilado, a mando, dizem, do PCC. Pretendia fazer de sua delação premiada
passaporte para continuar a viver a vida na festança. Dispensou, incrível, a
cobertura do programa de “proteção à testemunha”. Arriscou-se, assim, ao
fuzilamento, achando que policiais contratados para proteger seus passos lhe
garantiriam plena segurança. A investigação levanta suspeitas sobre seus seguranças.
O segundo episódio é o de um motoqueiro que
fazia muito barulho com sua moto. Em um semáforo, em São Paulo, policiais o
pararam. E o castigaram de modo inusitado. Colocaram o motoqueiro com os
ouvidos na boca do escapamento da moto e baixaram o pé no acelerador. Um ronco
infernal. O rapaz não conseguia tapar os ouvidos, eis que suas mãos estavam
contidas pelos policiais. Punição que lembra tempos imemoriais.
Insensatez, loucura, banalização da criminalidade, frieza ou
simplesmente um fragmento da brutalidade infernal desses tempos ditos de
globalização? O assassinato do empresário mostra o poder informal, as forças da
violência, suplantando o poder formal do Estado.
Os dois fatos têm mais significados que a simples fotografia
do cenário de terror que estamos vendo. Expressam o estado ilógico, antinômico
e alienado de um mundo em que os princípios da eficiência (e aí, Elon Musk?), a
meta da competitividade a qualquer custo, da concorrência e aética, estão
tornando as pessoas infelizes, solitárias e menos solidárias.
Domenico de Masi, sociólogo italiano, autor de O
Futuro do Trabalho, pinça o apólogo do leão e da gazela para mostrar a que
ponto chega a esquizofrenia bárbara das ruas e dos ambientes de trabalho, que
se transformam em campos de guerras da modernidade.
A historinha é emblemática: “Toda manhã, na África, uma
gazela desperta. Sabe que deverá correr mais depressa do que o leão para não
ser devorada. Toda manhã, na África, um leão desperta. Sabe que deverá correr
mais que a gazela para não morrer de fome. Quando o sol surge, não importa se
você é um leão ou uma gazela: é melhor que comece a correr”.
Esse lembrete é exibido em ambientes de trabalho como
profissão de fé de executivos e dirigentes empresariais. À primeira vista,
parece um bom conselho para quem quer vencer na vida. Trata-se, porém, de uma
exaltação à barbárie. Basta intuir que, pelo conselho, “leões humanos” (aspas
nossas) são autorizados a agarrar “gazelas humanas” (aspas nossas), que,
apavoradas, devem se desdobrar para realizar suas tarefas ou se esconder para
fugir das intempéries das ruas e do trabalho (ou dos ataques dos leões). É evidente
o estímulo ao instinto da violência, ao cultivo dos perfis agressivos, às lutas
por espaço e poder, às táticas aéticas e aos golpes traiçoeiros, tudo
justificado pela necessidade da competitividade.
Nessa arena de “leões e gazelas”, a alternativa que se
apresenta é única: correr ou matar. Escapar ou morrer. E é isso que se vê nos
corredores da morte, nos ambientes de trabalho competitivos, no chão das
fábricas, nos palácios e nas ruas. Afinal de contas, ladrões que surripiam
calmamente celulares (roubam e se afastam da vítima andando calmamente pela
calçada), eles mesmos um “leão faminto” (dinheiro, drogas, satisfação
psicológica), são produtos de um meio cada vez mais degradado. A estética de
medo, subordinação e culto à tecnologia dos teatros de competição, montados nos
ambientes de trabalho, soma-se à estética de banalização da violência nas ruas,
cuja multiplicidade é assombrosa: as cidades têm seus serviços deteriorados, um
tormento que torna a vida massacrante; a violência da miséria absoluta, que
exclui milhões de pessoas, principalmente contingentes marginalizados das
periferias urbanas; a violência contra o menor e pelo adolescente infrator; a
violência contra mulheres (o feminicídio), muito discriminadas; a violência
étnica; a violência da falta de oportunidades e assim por diante.
Eis o paradoxo da modernidade. Esse caldeirão, que deveria
ser quente, pela alta temperatura das situações, está transfigurando a
sociedade em um ente frio, compartimentalizado em grupos e feudos, recortado
por imensos apartheids econômicos e sociais. De outro lado, a organodemocracia,
a “democracia” dos departamentos criados nos ambientes hierarquizados do
trabalho privado, está amortecendo o conceito da sociedade convivial, sociedade
voltada para os cidadãos e não para a produção. Os burocratas não sentem o
cheiro das ruas e os dirigentes empresariais só têm olhos para a produtividade,
não raro procurando fórmulas para atenuar os golpes furiosos do tacape de
impostos e tributos governamentais. Sob esse desenho, não há tempo, interesse
ou motivação para se tratar de outras questões e das coisas do espírito.
Onde estão os valores da solidariedade, do companheirismo,
da doçura nas relações do trabalho, da amizade, da comunhão, do jogo em equipe?
Estão se despedindo da humanidade. Em seu lugar, surge uma modelagem tétrica,
um aparato desordeiro, um jogo maléfico, altamente competitivo, que convive com
golpes, morte, assassinatos, traições, desprezo à vida. Fechando a galeria da
insensatez, aparecem bandidos nas ruas usando camisetas com Cristo, Gandhi ou
santos de sua veneração.
Eis o mundo alienado. Que Deus nos proteja do apocalipse.
Antes que mísseis intercontinentais (esses que a Rússia começa a usar na guerra
contra a Ucrânia) caiam sobre nossas cabeças.
*Gaudêncio Torquato, escritor, jornalista,
professor titular da USP e consultor político.

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