Volatilidade aponta que há espaços para aprimoramentos;
permitir contas em dólares no país daria mais estabilidade ao câmbio e ganhos
ao fisco
O ponto principal deste artigo é que a cotação da divisa
norte americana é um problemão —e continuará a ser se não mudarem a política
cambial. Apesar do nome de câmbio flexível,
o regime cambial brasileiro é de câmbio
volátil.
O câmbio flutuante é um regime em que a taxa de câmbio se
ajusta automaticamente às condições da economia. As
variações da produtividade do setor não financeiro em relação ao resto do mundo
são compensadas com variações na taxa de câmbio. Há ajustes também em função da
variação do diferencial entre as taxas de juros internas
e as internacionais.
Neste ano, a taxa de câmbio oscilou 19,6%
e, no último mês, 6,4%. Portanto, muito mais do que as variações da
produtividade do setor não financeiro e do diferencial das taxas de juros. As
oscilações dessa magnitude causam estragos consideráveis na economia.
Como as empresas estão abertas ao exterior, onde compram
insumos, vendem produtos e concorrem com empresas de outros países, seu
desempenho depende mais da taxa de câmbio do que das condições de produção.
Agravando o quadro, a volatilidade da taxa cambial gera incertezas para
empresários, que postergam decisões de investir e produzir.
Outro efeito é na credibilidade da equipe de governo. Como o
preço do dólar é
um termômetro imperfeito do desempenho da gestão econômica, a exacerbação da
volatilidade alimenta inseguranças sobre os rumos na condução do país.
O Banco Central do
Brasil é o responsável pela execução
da política cambial, incluindo a gestão das reservas internacionais. As
diretrizes são estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional. A volatilidade
do câmbio aponta que há espaços para aprimoramentos na sua atuação. Além do
problema da volatilidade, o custo da política cambial é elevado.
Desde 2011, o estoque de reservas internacionais está num
patamar de US$ 360 bilhões, que correspondem a 23,5% da dívida bruta do
governo. O custo de carregar as reservas é dado pela diferença entre a taxa de
captação do Banco Central em reais e de aplicação em dólares. É superior a R$
100 bilhões.
O balanço do Banco Central apontou um prejuízo de R$ 298
bilhões em 2022, superior ao déficit primário naquele ano e de R$ 114 bilhões
em 2023, correspondente a 46% do déficit primário. Embora não seja incluído no
cálculo do déficit, aumenta a dívida pública. Leia-se mais juros e menos
recursos para investimentos.
Não há uma política cambial explícita. O Banco Central atua
esporadicamente no mercado à vista de câmbio e no mercado futuro, com swaps
cambiais [operação financeira que envolve a troca de variação cambial
por uma taxa de juros previamente estabelecida], mantendo as reservas no mesmo
patamar. A concepção é de que um volume elevado daria segurança ao investidor
estrangeiro. O valor é considerado exagerado por analistas. Em 2011, o déficit
em transações correntes era de U$ 83,6 bilhões e, no último ano, foi de U$ 21,7
bilhões.
A questão é o que fazer. Este articulista tem três
propostas. A primeira, a mais urgente e a mais importante é mudar o paradigma
cambial. Acabar com a cegueira cambial. A visão neomercantilista de gestão do
câmbio apavora analistas preocupados com o futuro do Brasil.
A segunda é permitir contas em dólares para pessoas físicas
e jurídicas em bancos no país. Daria mais estabilidade ao câmbio, ganhos ao
fisco e mais eficiência ao mercado de divisas.
A existência
de contas em divisas em bancos locais não vai dolarizar a economia.
Muitos países permitem contas em outras divisas e nem por isso têm que
abandonar a moeda nacional. Para o governo, cada dólar em uma conta de um
cidadão ou empresa significa uma redução da dívida bruta no mesmo montante.
A terceira medida é que o BC estabilize o câmbio
explicitamente, fixando diariamente uma banda de, digamos, 0,2% (para cima e
para baixo), operando no mercado à vista. Dessa forma, conseguirá resultados
mais palpáveis utilizando menos recursos.
As mudanças propostas só dependem do Conselho Monetário
Nacional e podem ser implantadas de imediato. É só querer.

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