Congresso faz chantagem, governo se vira para driblar
decisão do STF, também uma gambiarra
Congresso,
Supremo e governo organizam um acordão de Natal que deve nos dar de
presente outro pacote de apodrecimento da República. Isto é, outro passo na
institucionalização progressiva de espécie de feudalismo orçamentário, parte
daquilo que por vezes se chama de "semiparlamentarismo", um exagero
para uma degradação para a qual ainda não temos nome melhor. É também mais um
aspecto da deterioração fiscal que vai nos levar a alguma crise econômica,
social e política.
O Supremo
definiu umas regras razoáveis para a elaboração de emendas parlamentares ao
Orçamento federal. Muito melhores do que as regras definidas pelo Congresso faz
pouco, que apenas passam um óleo de peroba na cara de pau da farra
antirrepublicana e antieconômica com dinheiros públicos. É aquela lei para
inglês ver, que fingia atender a exigências do STF, do ministro Flávio Dino.
O "projeto de lei" do Supremo é
melhor, mas é ruim. Além de tratar de inconstitucionalidades, função do
tribunal, o STF define, por exemplo, critérios de reajuste anual do pacotão de
emendas. Assim, o STF, como em tanto mais, legisla, para nem mencionar que se
dá a negociações e debates políticos. A
separação de Poderes vai para o vinagre.
O pau nasce torto no Congresso. Lá se havia estabelecido,
faz tempo, que o valor total de duas categorias gordas de emendas seria
vinculado ao crescimento da receita do governo. Era um modo de
institucionalizar mais um dos feudos que dividem dinheiros públicos entre
interessados poderosos (há benefícios tributários para empresas, setores,
regiões, categorias profissionais ricas, reserva de verbas para currais
eleitorais etc.).
Não há racionalidade econômica em vinculação orçamentária
quase alguma, ainda menos para emendas parlamentares. As emendas levam cerca de
um terço do todos os dinheiros ainda livres (e minguantes) do Orçamento —a
depender da conta, de 92% a 95% da despesa do governo federal é obrigatória e
crescente de modo inviável (Previdência, salários, educação, saúde etc.).
Para piorar, para dizer o óbvio já muito sabido, as emendas
são destinações de dinheiro para fins definidos sem projeto e sem prioridade,
criadas de resto de modo a esconder a sua autoria, sem controle de qualidade e
aplicação do gasto. Não é bandalheira criminosa em geral, embora bandalheira
exista, como se suspeita a cada operação da polícia. Muita vez, é desordem
orçamentária, apropriação do poder de definir despesas sem responsabilidade
pelo gasto. É dinheiro para o campo de futebol society, picotagem de impostos
em projetos sem impacto econômico ou social maior, para o qual não há dinheiro.
O governo Lula precisa aprovar ao menos esse remendo fiscal
que acaba de propor. Sem o remendo, o caldo do futuro econômico vai entornar
ainda mais (inflação a 6% ao ano? Taxa básica de juros a 14%?). Para tanto,
pretende inventar gambiarras legais a fim de driblar a decisão do Supremo sobre
emendas parlamentares, ela mesma uma gambiarra. Sem a gambiarra nova, o governo
não consegue convencer nem a alta burocracia federal a assinar documentos que
liberem os dinheiros para os parlamentares —os servidores temem processos. A
lei, para não dizer a Constituição, é uma gelatina que vão ajeitando em uns
potinhos de formato fantasia.
A elite empurra o Brasil com a barriga, na ladeira.

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