As datas marcam acontecimentos e os acontecimentos são as
estruturas em movimento. Ou os fatos em seu contexto. Daí a utilidade de cruzar
alguns momentos significativos da trajetória brasileira, mais exatamente no
período compreendido entre os anos 20 e 40 do século passado. Isso, com o
objetivo de entender um pouco mais a respeito da natureza dessa fase tão
conturbada e decisiva da vida nacional. Semana de 22, fundação do Partido
Comunista, Revolta do Forte de Copacabana, Coluna Prestes, Revolução de 30, criação
da ANL, Levante de 35, Estado Novo são alguns momentos cruciais dessa
época.
Vamos examinar isso de perto.
Em dezembro de 1927, Astrojildo Pereira, então
secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), fundado em 1922, vai à
Bolívia conversar com Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança. Seu
objetivo é muito claro: atrair Prestes para as hostes do Partido Comunista. Em
seguida, Astrojildo Pereira parte para Moscou, já que integrava o Secretariado
da Internacional Comunista (IC). Composto por 56 membros, o Secretariado da IC
era a instância máxima da revolução mundial. Astrojildo permanece em Moscou até
1929, quando retorna ao Brasil.
Em 1928, Palmiro Togliatti, representante
do Partido Comunista Italiano (PCI) junto à Internacional Comunista, igualmente
membro do Secretariado da IC, troca correspondência com Astrojildo Pereira a
respeito da situação da classe trabalhadora no Brasil. Há uma documentação
nesse sentido nos arquivos de Astrojildo Pereira catalogados no Centro de
Documentação e Memória da UNESP, e agradeço a historiadora Renata Cotrim por
ter me indicado essa correspondência. Nesse mesmo ano de 1928, segundo me
relatou Giuseppe Vacca no Rio de Janeiro, há cerca de 15 anos, Togliatti
escreveu duas cartas a Luiz Carlos Prestes. Naturalmente, somos levados a crer
que essas cartas têm que ver com a passagem de Astrojildo Pereira por Moscou e
seu encontro com Luiz Carlos Prestes no ano anterior, na Bolívia. De qualquer
forma, já em 1931, Prestes tomava o rumo da então capital soviética, onde
trabalhava como engenheiro e aprofundava seus estudos de marxismo. Em tempo:
Giuseppe Vacca era o responsável pelos arquivos do Instituto Gramsci na Itália.
Na ocasião, conversamos com Francisco Inácio de Almeida, ex-secretário político
de Luiz Carlos Prestes na União Soviética nos anos 70, que nos relatou nada
saber a respeito dessa correspondência de Togliatti com Prestes. Fiz a mesma
pergunta a Luiz Carlos Prestes Filho, que também desconhecia o fato.
Cai o pano. Em janeiro de 1933, Adolf Hitler assumiu o poder
na Alemanha, sob os destroços da República de Weimar. Tem início uma repressão
brutal aos comunistas. O operário e dirigente comunista búlgaro Georgi Dimitrov
é preso na Alemanha. Seu comportamento diante do Tribunal nazista de Leipzig
entrou para a História, não só pela coragem pessoal e política demonstrada,
como também pela inteligência em desmascarar que os hitleristas não tinham
“razão, apenas força”, conforme escreveu Bertolt Brecht em belo poema dedicado
ao próprio Dimitrov. Uma vez solto, Dimitrov ganha imediatamente a
União Soviética, defendendo junto à Internacional Comunista,
da qual se tornaria o secretário-geral, a necessidade de uma ampla frente para
derrotar o nazismo no mundo. Já no segundo semestre de 1934, começa a se formar
a Aliança Nacional Libertadora no Brasil. Em agosto, Prestes adere oficialmente
ao PCB, ainda residindo em Moscou. O PCB se recusou, em um primeiro momento, a
integrar a ANL: foi preciso que Luiz Carlos Prestes se empenhasse pessoalmente
nesse sentido. A historiadora Marly Vianna se debruçou com propriedade sobre
essa questão. Em janeiro de 1935, é divulgado o primeiro manifesto da ANL.
Pouco antes, mais exatamente em outubro de 1934, tem início a Longa Marcha na
China. Otto Braun, um comunista alemão, vai assessorar o dirigente chinês Mao Tsé-Toung
nessa empreitada. A comunista alemã Olga Benário, que fora casada com Otto
Braun, vai prestar, por seu turno, assessoria a Luiz Carlos Prestes no Brasil.
Detalhe importantíssimo: a Coluna Prestes influenciou Mao Tsé-Toung e os
comunistas chineses em sua Longa Marcha. É possível concluir, com base nesses
dados, que Brasil e China entraram decididamente na mira da Internacional
Comunista, após o fracasso das experiências e levantes operários na Itália,
Alemanha, Hungria e Bulgária, países ocidentais. Em outras palavras, a IC
passava a depositar suas fichas no Oriente e no extremo-Ocidente, isto é, no
Brasil.
Com a perseguição à ANL, colocada na ilegalidade em julho de
1935 pelo governo Vargas, alguns setores aliancistas se precipitaram,
considerando que os canais legais estavam definitivamente fechados. Confundiram
assim canais legais com canais políticos. Ou seja, optaram pela luta armada,
mordendo a isca de Getúlio Vargas, já então em marcha batida para o
autoritarismo.
A rigor, o que importava para a Internacional Comunista,
naquela quadra, era o combate ao fascismo, em clara ascensão no mundo, fosse do
jeito que fosse. O fato de o programa da ANL ser correto não significa que não
tenham ocorrido graves equívocos em sua condução, os quais se traduziram no
Levante de Novembro de 1935. A palavra de ordem da ANL já se revelava
contraditória, mesclando a ideia da Frente Ampla com a experiência dos sovietes
– Todo poder à Aliança Nacional Libertadora.
É preciso constatar que a situação dominante nas Forças
Armadas, profundamente desajustadas em matéria de disciplina naquele momento,
facilitou de certa forma a opção pela luta armada. Conforme escreveu mais tarde
Giocondo Dias, era mais fácil agitar os quartéis do que organizar o Partido nas
fábricas. Seja como for, muitas lideranças de peso – de Luiz Carlos Prestes a
Giocondo Dias e deste a Agliberto Vieira de Azevedo, Dinarco Reis e Gregório
Bezerra – fizeram autocrítica de sua participação no levante aliancista. Posso
dar, em relação a isso, um testemunho pessoal, pois convivi, em menor ou maior
grau, com todos eles. Porém, é preciso reconhecer que esses homens pagaram um
preço muito alto por seu engajamento, ficando encarcerados por anos a fio nas
masmorras de Getúlio Vargas. Mais: nem todos os aliancistas eram comunistas: em
Natal, por exemplo, os chamados cafeístas, os partidários de Café Filho, eram a
principal força presente no levante de novembro. Em 1946, em discurso na
Assembleia Legislativa da Bahia, Giocondo Dias enalteceu a “coragem” dos
combatentes dos dois lados em disputa em 1935. Era preciso grandeza.
O caráter insurrecional do Levante de 35 foi atribuído à
origem militar de alguns dos participantes, sobretudo comunistas. Curiosamente,
esses mesmos comunistas originários das Forças Armadas não tomaram o
caminho da luta armada, após o Golpe de 64. Teriam assimilado os erros do
passado, evitando repeti-los quase três décadas mais tarde? Seja como for, os
principais dirigentes da guerrilha pós-64 eram todos de origem civil, com raras
exceções.
Fundada há 90 anos, é fundamental examinar a Aliança
Nacional Libertadora com o máximo de rigor possível, no caminho traçado pelos
estudos de Marly Vianna, por exemplo. O que não exclui que a paixão seja
deixada de lado. Por uma razão simples: a subjetividade é peça fundamental do
processo de conhecimento – e esse conhecimento implica o cruzamento de alguns
dados.
*Historiador

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