Emendas parlamentares ao Orçamento deixaram de funcionar
como cola para coalizões e se tornaram ativo eleitoral para incumbentes
É até possível que o acordão entre
Legislativo, Executivo e Judiciário sobre a tramitação de emendas
parlamentares torne o processo mais transparente, o que é desejável,
mas fica muito aquém de transformá-las em algo útil e não contraproducente para
a sociedade.
Ao contrário de quase todo mundo, sempre fui contra a
possibilidade de legisladores interferirem de forma paroquial no Orçamento. É
verdade que, até um passado recente, as emendas ainda tinham uma função
instrumental. Eram a forma pela qual os governos arregimentavam maioria
no Congresso.
O legislador que votasse de acordo com os interesses do Executivo tinha suas
emendas liberadas.
Mudanças na execução do Orçamento, contudo,
acabaram com isso. Não apenas houve a multiplicação dos tipos de emenda e a
substancial ampliação de seus valores como várias delas se tornaram
obrigatórias.
Sem funcionar mais como uma cola para a formação de
coalizões, as emendas viraram essencialmente um ativo
eleitoral. Elas dão a deputados e senadores e seus prefeitos aliados uma
enorme vantagem na disputa por votos.
Vimos isso com nitidez nas eleições municipais deste ano.
Nas cidades mais beneficiadas por emendas, a taxa
de reeleição de prefeitos foi maior. Devemos assistir a fenômeno análogo e
com muito maior intensidade na reeleição para a Câmara e para o Senado em
2026.
Há aí um elemento de desequilíbrio democrático, já que as
emendas reduzem as chances eleitorais de candidatos que desafiem os
incumbentes. E não é só. As emendas também provocam uma atomização dos
investimentos públicos, que perdem eficácia.
Outra consequência desse processo foi o relativo
enfraquecimento do Executivo e fortalecimento do Legislativo. Isso não é algo
que eu veja com maus olhos. O segredo da democracia é que mudanças de maior
envergadura não podem ser impossíveis mas tampouco devem ser muito fáceis. Se
você discorda disso, lembre-se de que é uma questão de tempo até que o grupo
político que você mais despreza conquiste o poder central e tente implementar
seu próprio rol de mudanças.

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