Essa guerra que te mandaram lutar não tem vencedores.
Todos perdem. Enquanto as regras injustas ficam intactas, a propriedade está
salva
Fala, soldado!
Tu, que foste programado para ser sentimento, sem dor, agora
viraste mais um caso isolado, que se repete dia após dia em todos os lugares. E
os superiores se limitam a dizer que a instituição não compactua e que você
será afastado, e vida que segue.
Tu, que vives de executar ordem, que se formou num
treinamento tipo fundamentalista, cheio de humilhações e exploração. E, ao
mesmo tempo, jurou defender a sociedade com a própria vida, sabendo que, na
selva, a ética é violentada pela sobrevivência. E ensinado somente a morder,
esse cão de guarda não ia distribuir flores.
O telefone toca, milhões precisam de ti, um misto de
desconfiança, necessidade e sossego. Tipo capitão do mato, caçador de preto, de
pobre, palanque fértil no horário nobre pra política.
No teu time, muitos entraram por poder, por dinheiro, por
privilégio, uns honestamente sonhando em proteger a sociedade. Uns em áreas
ricas que protegem, dizem que “tu é machão na periferia; na área nobre, tu é
nada!”. Mas, já que teu superior orientou que as abordagens eram diferentes
dependendo do público e da área — pobre ou até nobre —, segue o baile!
Se der bônus, é crédito da corporação; deu
merda, tu te vira. Deve ser uma sensação que não sei explicar: oprimir gente
igual a ti e proteger quem te oprime. Sabes que muitos querem um Capitão
Nascimento, mas para os filhos dos outros. Sabes que, igual ao pobre sem
posses, ninguém vai amparar tua família num velório. Essa guerra que te
mandaram lutar não tem vencedores. Todos perdem. Enquanto as regras injustas
ficam intactas, a propriedade está salva.
Quem é mais culpado? Quem é mais covarde? Eu, você ou quem
criou esse apartheid? Eu só sei que policial que tomba, um civil morto, parecem
ser apenas números, votos a menos. Corpos!
Tu vais ser xingado e elogiado de acordo com a conveniência.
Democracia é só fachada, tu és humano sem direito nesse jogo. Pior que agora tu
vais precisar deles. Pois tu estás só, tu estás pirando, estás matando, estás
morrendo. Estás sem forças, sem moral, sem psicológico.
Pouca gente sabe que, do outro lado da farda, a vida é
assim. E, quando o fone tocar, tu vais lá, pra morrer, pra matar, sem saber se
volta pra casa com vida.
Desde tua origem, “sem última forma”, tu nasceste pra isso,
PM: pra vigiar e punir a falha do sistema, limpar a sujeira do campo de
batalha. Mas, pro Estado, tu és apenas um cão de guarda. Do outro lado da
farda, é assim.

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