Bolsonaro não governou nem um dia em quatro anos; estava
ocupado preparando o golpe
Nelson Rodrigues gostava de contar esta história. Otto Lara Resende, morador da Gávea, ia todos os dias
pelo Aterro do Flamengo para o jornal em que trabalhava, no centro da cidade.
Um dia, ao passar pelo Morro da Viúva, olhou casualmente à direita e viu um
corpo estranho na enseada: uma pedra gigante com uma casinha no cocuruto. Era o
Pão de Açúcar. Embora morasse no Rio desde 1945 e todos os empregos que tivera
o obrigassem a passar em frente a ele, Otto nunca se dera conta de sua
existência. Atônito, meteu o pé no freio. Os pneus faiscaram e obrigaram os
motoristas atrás dele a fazer o mesmo.
Para espanto de todos, Otto saiu do carro e começou a zanzar entre eles,
apontando mudo, de boca aberta, para o Pão de Açúcar. Assustadas, as pessoas
também desceram, para acudi-lo. Asmático, veio-lhe a falta de ar e ele puxou a
bombinha. Uma senhora, abanando-o, dizia: "Calma, meu senhor,
calma!". E, sempre apontando para o Pão de Açúcar, só então Otto balbuciou: "Ontem não
estava ali! Ontem!". E Nelson completou: "Foi um momento para a
eternidade —o grande confronto entre Otto Lara Resende e o óbvio
ululante".
Foi a primeira vez que Nelson usou a expressão "óbvio
ululante", para dizer que o óbvio ulula à nossa frente, implorando para
ser percebido. Mas não o vemos. "Só os profetas enxergam o óbvio",
concluiu Nelson. Por isso, Otto nunca enxergara o Pão de Açúcar —ele era o
óbvio ululante.
Tudo o que aconteceu durante Bolsonaro e
só agora está vindo à tona do pântano era óbvio desde o começo. Bolsonaro não
dedicou um único dia de seu suposto governo a governar. A educação, a
saúde, a segurança, nem mesmo a economia, nunca lhe disseram nada. A partir do
primeiro dia, empenhou-se em sua recondução ao poder em 2022, precavendo-se de
que, se isso não acontecesse pelas urnas, viria na forma de um golpe.
Uma consulta aos arquivos mostrará que, com as mesmas
palavras, isso foi dito várias vezes neste espaço naqueles quatro anos. Nenhuma
vantagem —era o óbvio. E tão óbvio que o próprio Bolsonaro o ladrava nos
palanques, caçambas e motociatas, na certeza de que ninguém o enxergaria.

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