São Paulo se destacava por combate ao crime com baixa
letalidade policial. Atual governo marca uma inflexão
Questionado sobre a crise na polícia do estado, o governador
de São Paulo, Tarcísio
de Freitas (Republicanos), respondeu: “Olhe os números”. Não se
poderia esperar conselho mais oportuno. Tarcísio terá muito a ganhar quando
seguir o próprio conselho e reconhecer os erros da política de segurança
pública que ele e seu secretário Guilherme
Derrite têm adotado. De janeiro a dezembro, a PM paulista matou 712
pessoas, segundo dados do Ministério Público — o dobro do registrado no mesmo
período de 2022. Diversos episódios recentes formam um quadro preocupante.
É preciso reconhecer que, durante mais de duas décadas, São
Paulo se destacou pelos melhores índices brasileiros na segurança pública.
Sucessivos governos reduziram a criminalidade, ao mesmo tempo que baixavam a
letalidade policial. Estrutura de comando e profissionalismo estiveram sempre
entre as metas da polícia. E a maioria dos policiais do estado continua a
desempenhar trabalho competente, preocupado com a segurança dos cidadãos. Mas a
chegada de Tarcísio e Derrite marcou uma inflexão.
Desde o início, Tarcísio foi ambivalente sobre o uso de
câmeras corporais, equipamento que, como revelou reportagem do Fantástico,
protege não apenas o cidadão de agressões, mas os próprios policiais de
acusações indevidas. A influência de Derrite, presente nas forças táticas, tem
sido nefasta. Quando o comando é leniente com a truculência, os policiais mais
violentos se sentem livres para agir sem freios.
No mês passado, um menino de 4 anos morreu
em Santos, alvejado por projétil da polícia. Um estudante de medicina desarmado
foi morto após dar tapa no retrovisor de uma viatura. Um homem de 26 anos levou
11 tiros nas costas depois de furtar sabão em pó num mercado. No ano passado, a
polícia promoveu na Baixada Santista a operação que resultou em mais mortos
desde o massacre do Carandiru: 36, incluindo vários inocentes. No caso mais
recente, um policial jogou um homem de uma ponte (ele sobreviveu). Em todos esses
casos, quando fardados, as câmeras estavam desligadas. Abusos só vieram a
público por denúncias, imagens de terceiros ou de vigilância.
Olhando para os números, não há relação entre a polícia
matar mais e o crime diminuir. As polícias mais letais são as de Amapá e Bahia,
estados com as maiores taxas de homicídios. Apesar disso, a linha dura tem sido
a política de Tarcísio e Derrite. O governo paulista destaca que os homicídios
caíram no estado em 2023 e continuam em queda. Mas essa é uma tendência
nacional há anos. Em cidades do interior do estado, houve aumento nos
assassinatos. Roubos e furtos de celular caíram menos que em Tocantins, Rondônia
ou Mato Grosso. Lesões corporais dolosas e estupros não pararam de subir.
A tolerância com a letalidade policial não é apenas
ineficaz. É contraditória, pois os responsáveis por fazer cumprir a lei se
tornam suspeitos de crimes. Além de moralmente inaceitável, uma polícia sem
respeito por protocolos é a semente de milícias e da corrupção. A suspeita de
envolvimento de policiais na execução de um delator no aeroporto de Guarulhos é
estarrecedora.
Forças policiais precisam estar preparadas para embates
violentos contra criminosos sempre que necessário. Mas é um engano concluir que
abusos ajudem. Tarcísio tem na segurança pública o ponto mais fraco de seu
projeto político. Deveria acordar para isso.

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