Moção sobre imigração para constranger governo Scholz é
aprovada com apoio da AfD, marco do país no pós-guerra
Uma moção que pede fronteiras fechadas na Alemanha foi
aprovada nesta quarta-feira (29) no Parlamento Alemão, em Berlim. A sessão
ganhou contornos históricos, já que a oposição ao governo Olaf Scholz contou
com votos da extrema
direita para aprovar a resolução, proposta após novo episódio de
violência ligado a imigrantes irregulares.
O ato não tem força de lei, é apenas uma orientação a ser
seguida. A votação, porém, mobilizou o debate público no país. De um lado, os
que veem a necessidade de medidas urgentes para coibir a crise imigratória; do
outro, os que temem a naturalização
da AfD, uma legenda populista, nacionalista, que defende a saída da União
Europeia, a volta do marco alemão e tem integrantes investigados por discurso
de ódio e neonazismo.
Friedrich Merz, líder da CDU, autor das
moções e favorito para conquistar o cargo de primeiro-ministro nas eleições de
23 de fevereiro, fez força para desvincular seu ato do apoio da AfD. Sem os
votos da legenda extremista, porém, sua proposta não passaria. Ao propô-la,
portanto, ele já estaria contando com o apoio e derrubando o Brandmauer, o
firewall, a distância regulamentar que todos os partidos democráticos mantêm da
AfD. Ou, segundo os críticos, que mantinha.
Os números da votação mostram como a estratégia de Merz era
mesmo ter o apoio da extrema direita. O chamado Plano de 5 Pontos teve 348
votos a favor e 345 contra, além de 10 abstenções. O documento pede que o
governo proíba a entrada de imigrantes sem documentos, controle permanente nas
fronteiras, detenção de solicitantes de asilo rejeitados ou que estão em
situação ilegal no país e deportações diárias.
"Hoje é um dia histórico, no sentido negativo",
declarou Britta Hasselmann, líder dos Verdes, na tribuna do Bundestag.
"Maiorias foram buscadas fora do centro democrático. E você é o
responsável", afirmou a parlamentar, apontando para Merz. É a primeira vez
que algo assim ocorre na política alemã no pós-guerra, com implicações
óbvias.
"Este é verdadeiramente um momento histórico",
declarou, na sequência, Bernd Baumann, da AfD. "Algo novo está
começando", afirmou, também apontando para Merz.
O político conservador, que lidera as pesquisas de opinião,
mas está longe de contar com uma maioria no próximo Bundestag, começou o dia
sob críticas da sociedade civil. Representantes da Igreja Evangélica, dominante
na Alemanha, e da Católica publicaram uma carta pedindo que recuasse, algo
constrangedor para quem lidera a CDU, sigla para União Democrata-Cristã.
No começo da tarde, Merz foi duramente criticado por Scholz,
que abriu a sessão parlamentar. "O direito de asilo faz parte do sistema
jurídico alemão. O senhor quer que violemos a legislação europeia, algo que
só Viktor
Orbán fez até aqui", declarou o primeiro-ministro.
Scholz lembrou que os dois episódios recentes de violência
relacionados a imigrantes ocorreram em estados governados pela oposição. Nos
dois casos, perpetrados por pessoas com histórico de transtornos mentais, ficou
evidente que o aparelho estatal falhou em algum momento.
Em Magdeburgo,
em dezembro, um médico saudita, asilado, atropelou centenas no mercado de Natal
local, matando seis pessoas. Na semana passada, um afegão, que já tinha
concordado com a própria expulsão, esfaqueou
pessoas a esmo em um parque em Aschaffenburg, matando dois, incluindo
uma criança de dois anos.
"Política, em nosso país, não é pôquer", disse
Scholz a Merz, ao criticar sua tolerância com a AfD. O rival respondeu minutos
depois, logo ao assumir a tribuna, tecendo em sua primeira fala uma crítica não
ao rival, mas ao partido de extrema direita.
"Não estamos querendo ferir as leis europeias. Estamos
propondo fazer o que vários países já estão fazendo à nossa volta. É possível
decretar emergência. Quantos mais terão que ser assassinados até que o
primeiro-ministro veja que estamos em uma emergência", perguntou.
Em sua explanação, Alice
Weidel, a candidata a premiê que conta com o controverso
apoio público de Elon Musk,
chamou de "ultrajante" o discurso de Scholz sobre o fato de Merz não
recusar votos de seu partido. "O firewall nada mais é do que um acordo de
cartel antidemocrático para minar a vontade dos eleitores."
Uma segunda moção da CDU, que pedia mudanças no
funcionamento das polícias, foi amplamente rejeitada. Também foi recusada
proposta do FDP, que pedia a demissão da ministra do Interior, responsável pela
política de imigração, e outra, da AfD, que previa o fim da dupla nacionalidade

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