Trump recuou em relação ao México e ao Canadá. Falta a
China. Se cumprir as ameaças, os EUA serão afetados
A suspensão por um mês das tarifas de 25% impostas por Donald Trump ao México e
ao Canadá foi
um momento de lucidez no comportamento belicoso e caótico do novo presidente
americano. Ele fez a mesma ameaça contra a China. Esse aumento
unilateral de tarifas, caso aconteça, em algum momento, afetará principalmente
a economia americana. A tarifa incide sobre a exportação para os Estados Unidos,
mas quem a recolhe é o importador, que repassará o custo aos preços, elevando a
inflação. A queda do crescimento também será primeiramente sentida na economia
dos EUA. Uma tarifa de 10% não reduzirá a competitividade da China.
As principais bolsas amanheceram ontem em
queda no mundo todo diante do anúncio no fim de semana de que Donald Trump
elevaria hoje as tarifas contra México, Canadá e China. O
susto começou a passar quando a presidente do México, Claudia Sheinbaum,
anunciou que depois de uma “boa conversa” com Trump houve o acordo
para suspender por um mês a vigência do tarifaço de 25% contra o México. No fim
da tarde, o primeiro-ministro
do Canadá, Justin Trudeau, também disse que teve “boa conversa” e que a medida
foi suspensa por 30 dias. Mas o que ocorreria se a ameaça fosse
cumprida? O embaixador José Alfredo Graça Lima, do Cebri, com 40 anos de
experiência em política comercial, explica.
— A elevação unilateral de tarifas é violação flagrante dos
artigos 1 e 2 do GATT ( Acordo Geral de Tarifas e Comércio). O GATT continua
sendo a constituição da Organização Mundial do Comércio. Além disso, os
contratos entre importadores e exportadores estão em vigor. Se valesse para
todo o comércio agora, seria violação desses contratos. E quem deposita a taxa
é o importador e não o exportador, ou seja, as empresas americanas. É
violatório em todos os sentidos, não só em relação à OMC, mas com relação aos próprios
contratos.
A presidente mexicana foi hábil, dando ao presidente Trump
um argumento para os seus eleitores com o aumento dos efetivos da Guarda
Nacional na fronteira. A economia mexicana é muito dependente dos Estados
Unidos. No Canadá, as ameaças americanas estão alimentando uma onda de
nacionalismo econômico. Nesse momento há uma grande campanha, não apenas
governamental, de substituição de produtos americanos por canadenses e de
mudança de destino das próximas férias para ficar no país, segundo uma
reportagem publicada ontem no Financial Times. Sobre a China, o projetado
aumento de 10% não faz cócegas na competitividade do produto chinês.
— A tarifa de 10% para a China não tem o menor efeito. A
China tem uma folga para exportar que deve ser de 30%.
O comércio americano é estruturalmente deficitário, o que
sempre foi uma das alavancas da economia americana, como explica o embaixador
Graça Lima.
— O déficit comercial americano é plenamente compensado
pelos investimentos, por outros itens que incorrem no balanço de pagamentos e
que fazem os Estados Unidos mais ricos. Os Estados Unidos continuam sendo a
maior economia do mundo em grande parte graças a esse déficit comercial. O que
Trump está ameaçando fazer tem apelo eleitoral, mas a economia fica obviamente
prejudicada.
Há um terrível precedente histórico. No crash da Bolsa de
Nova York, os Estados Unidos elevaram as tarifas comerciais, e isso aprofundou
a depressão e expandiu as fronteiras da crise. Portanto, um caminho perigoso
para todos.
O Brasil tem déficit com os EUA, mas em um cenário de guerra
comercial não há local seguro nem situação confortável para país algum. Ainda
mais porque o Brasil tem um nível muito alto de tarifas no comércio
internacional.
Graça Lima, com quem falei antes da decisão anunciada pela
presidente do México, disse que não acredita no cenário de guerra comercial e
já apostava que haveria negociação entre os países. De qualquer maneira, Trump
tem colocado em prática as propostas mais extremadas e seu poder de
desorganizar a economia mundial e americana é enorme.
O dia no Brasil começou com o dólar subindo, por causa de
todo o ruído, mas depois da decisão sobre o México, fechou em queda pelo décimo
primeiro dia consecutivo. Isso é fundamental para o país. Em janeiro, o real
foi a moeda que mais recuperou valor em relação ao dólar, 5,6%, o que derrubou
os preços por atacado. O IGP-M de produtos agropecuários teve uma queda forte
em janeiro. Isso pode reduzir a inflação ao consumidor.

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