Governo Lula será reconhecido por ter evitado o risco à
democracia, mas isso não abona os erros da administração diária do país
O que mais se diz sobre o governo Lula é
que ele não tem marca. Se fosse outro o resultado da eleição, a democracia
brasileira estaria em extremo perigo. E mais, se o presidente Lula, no dia 8 de
janeiro de 2023, tivesse caído na armadilha de decretar uma GLO, o que teria
acontecido? No dia 20 de janeiro, ele foi visitar os Yanomami com oito
ministros. Eles viviam um ataque sistemático, incentivado pelo governo
anterior. O desmatamento caiu nos dois últimos anos. A pauta da educação era
o homescholling. A saúde era anticiência. No futuro, quando se olhar para
esse período, essa será a marca, a de ter confrontado essa tragédia. Mas o que
as pessoas querem, naturalmente, é um governo que tenha melhor desempenho, e
isso não se consegue com truques de marketing.
Há uma diferença muito forte entre o que teria sido a
continuidade do governo Bolsonaro, com o projeto de destruição da democracia, e
o governo Lula. Isso não dá a Lula indulgência plenária, mas é preciso ter isso
em mente. Até porque muito teve que ser reconstruído. Houve um deliberado
desmonte da máquina.
Na economia, havia o discurso liberal, mas
a prática estava longe disso. Para citar um exemplo, o grande objetivo na área
tributária era recriar uma espécie de CPMF, e o ministro Fernando
Haddad conduziu um processo difícil e árduo que levou à aprovação da
Reforma Tributária.
Na quinta-feira, foi anunciado o desemprego do trimestre
terminado em janeiro. É
o menor para o período em dez anos. Ainda há 7,2 milhões de
desempregados, mas 103 milhões de brasileiros têm trabalho. A taxa de
subutilização da mão de obra, pessoas que trabalham menos do que gostariam,
está em 15%. Alta. Mas estava em 23,9% em 2022, o melhor ano do governo
passado.
É preciso considerar em qualquer análise que o governo
Bolsonaro enfrentou a pior crise sanitária em um século. Mas tudo foi pior
pelas escolhas que ele fez de combater medidas de proteção à vida, de propagar
o negacionismo, de debochar do sofrimento, de confrontar o Supremo, os
governadores e os prefeitos. Houve um momento em que a imprensa teve que fazer
um consórcio entre grupos concorrentes para que o país soubesse o número diário
de mortes. Vivemos uma tragédia na saúde sem ter do presidente da República uma
palavra de conforto. Nós nos confortamos, num tempo sem abraços e sem ritual do
luto.
Nunca esquecer o passado, mas também não ser indulgente com
o presente. O presidente Lula demitiu a ministra Nísia Trindade de uma forma
revoltante. Ele tem o direito de escolher seus ministros, mas não pode
submetê-los ao processo de fritura, porque isso é humilhante. Sendo com uma
mulher, é ainda pior, porque elas têm pouco espaço de poder. Repete-se aqui o
mesmo método de demissão que atingiu Ana Moser.
Nísia sempre terá o respeito de quem a viu, em pleno governo negacionista,
blindando a Fiocruz,
de onde saíram vacinas para os brasileiros. O ministro Alexandre
Padilha fez uma boa gestão na Saúde e pode voltar a ter sucesso, mas
como ministro das Relações Institucionais, ele não teve a habilidade
necessária. Houve momentos em que outros tiveram que ser escalados para algumas
das suas funções, porque o presidente da Câmara dos Deputados não falava com
ele. Se é por falta de “entrega” houve dois pesos e duas medidas.
A ida de Padilha para a Saúde e de Gleisi
Hoffmann para
as Relações Institucionais torna o governo mais petista e cada vez
mais distante da frente de que ele precisa, dado que o principal adversário
continua sendo o risco à democracia. As forças de centro precisam se sentir
representadas no caminho para 2026.
As pesquisas estão todas desastrosas para o governo, e esse
é o momento em que, em qualquer administração, bate o desespero e o governo
erra mais. A opinião pública tem a percepção de que o governo vai mal em muitas
áreas, e por isso é preciso trabalhar mais e melhor. O ovo está caro porque
houve um surto de gripe aviária e o calor excessivo tem reduzido a produção.
Não adianta explicar isso. Cada vez que o consumidor e a consumidora forem
comprar ovos, ficarão bravos com o governo.
Mas não devemos perder de vista uma questão fundamental.
Neste mês de março, vamos comemorar 40 anos de democracia. E só poderemos
celebrar porque aqueles planos tramados no Palácio do Planalto no governo
Bolsonaro foram derrotados. Esta é a marca que ficará do governo e isso não é o
marketing que faz. São os fatos.

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