Andrea Jubé, Valor Econômico
Passado bate à porta provocando reflexão sobre o presente
e o futuro
Uma entre tantas mazelas do país é que os brasileiros não
aprendem com a história. Após vencer as eleições presidenciais em outubro de
1955, Juscelino Kubitschek foi vítima de duas tentativas de golpe de Estado: a
primeira antes de tomar posse, e outra, na reta final de seu mandato. No
primeiro caso, em articulação liderada pela UDN e por militares, o objetivo era
impedi-lo de assumir o poder, mas uma reação liderada pelo ministro da Guerra,
marechal Henrique Lott, barrou os insurgentes.
Da segunda vez, o levante em dezembro de 1959, penúltimo ano
do governo, planejado pelo “Comando Aéreo Revolucionário”, queria derrubar JK,
Lott e instituir um governo militar. O movimento envolveu, até mesmo, o
sequestro de um avião da Panair, com 38 passageiros.
No primeiro caso, Juscelino surpreendeu o país ao conceder
anistia aos golpistas. Ele justificou na ocasião: “Vamos virar a página, passar
uma esponja em todos os acontecimentos e começar vida nova, porque o país
deseja paz para trabalhar”.
O gesto foi elogiado por aliados que
consideraram uma grande jogada política, com exceção de Lott, que o reprovou. A
avaliação da maioria era de que o perdão teria força para “desarmar os
espíritos”, construir uma boa relação com os militares e dar provas de seu
espírito conciliador. O cálculo político, contudo, revelou-se equivocado.
Em menos de um mês, oficiais militares já buscavam a
imprensa para criticar e atacar Lott e JK. E o mais grave: três anos depois,
eclodiu a segunda tentativa de golpe. Contudo, escaldado pelos fatos
anteriores, Juscelino recusou-se a discutir o perdão aos rebelados: “O problema
está confiado à Justiça e eu não tomarei nenhuma medida para obstaculizar seus
passos”.
É justamente essa postura que o Supremo Tribunal Federal
(STF) espera do Congresso Nacional: que mantenha o problema confiado à Justiça.
Ou seja, em meio à pressão do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seu partido, o
PL, pela aprovação do projeto de lei de anistia aos envolvidos nos atos
golpistas de 8 de janeiro de 2023, o que se espera das instituições da
República é que deixem com os magistrados da Corte Constitucional o julgamento
de quem tentou a abolição violenta do Estado Democrático e dar um golpe de
Estado.
Com efeito, não se pode dar as costas à manifestação da
vontade da maioria da Câmara dos Deputados, que aprovou o regime de urgência -
espécie de atalho para a votação - da proposta de anistia. Por isso, a palavra
de ordem nos bastidores dos três Poderes é ganhar tempo.
Dessa forma, pressionado por Bolsonaro de um lado, e pelo
STF e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva do outro, o presidente da
Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) declarou, nessa quinta-feira, que não
levaria à pauta o requerimento de urgência. Para isso, garantiu ao seu lado o
colégio de líderes.
Motta, entretanto, fez uma ressalva: a decisão não significa
uma concordância com as "penas exageradas" que alguns condenados
receberam. A imputação de uma pena de 14 anos de prisão a Débora Rodrigues, que
além dos crimes maiores, pichou a estátua “A Justiça”, do artista plástico
Alfredo Ceschiatti, fez barulho nas redes sociais e pressionou o STF. Pesquisa
Datafolha divulgada em 7 de abril mostrou que 56% dos brasileiros rejeitam a
anistia. Porém, 36% dos entrevistados gostaria de ver as penas reduzidas.
Um influente dirigente partidário traçou para a coluna o
roteiro da anistia, caso não haja um acordo de bastidores, reunindo os três
Poderes, em busca de um denominador comum. Por enquanto, Motta não pautará o
projeto da anistia para não afrontar o STF e Lula. Mas quando a situação se
tornar insustentável, a matéria será pautada, e aprovada com mais de 300 votos.
O placar expressivo obrigará o presidente do Senado, Davi
Alcolumbre (União-AP), a também pautar a matéria, onde a maioria dos senadores
deverá chancelá-la. Lula deverá vetar o projeto, mas o veto será derrubado pelo
Congresso. A palavra final caberá ao STF, que não quer o peso de declarar a
inconstitucionalidade da matéria, a fim de evitar mais desgaste de sua imagem.
Lula já ouviu de mais de um auxiliar que deveria seguir o
exemplo de Juscelino em 1955, e preparar-se para conceder indulto a uma parte
dos envolvidos na tentativa de golpe de Estado que tenham recebido penas leves.
O objetivo seria esvaziar o discurso da oposição e “desarmar os espíritos”.
Lula não gostou da ideia, mas há tempo para repensar, porque o indulto
presidencial é concedido somente em dezembro.
Balanço recente do gabinete do ministro Alexandre de Moraes,
que é relator das ações, mostra que há 1.039 pessoas respondendo pela tentativa
de golpe de Estado. A maioria dos réus, ou seja, 542 pessoas, recebeu penas
leves, como prestação de serviços ou multa, enquanto 249 pessoas foram
condenadas de 1 a 3 anos de reclusão. Com isso, resta uma parcela menor, 248
pessoas, que receberam penas mais graves, que variam de 11 anos a 17 anos.
A história já ensinou que a anistia pode ser um tiro no pé,
como se deu com JK. Nem a Lei da Anistia da ditadura militar acalmou os
espíritos, senão, não teria havido o 8 de janeiro. Até hoje o STF analisa, por
exemplo, se a lei da anistia de 1979 alcançou os crimes de ocultação de cadáver
cometidos durante o regime de exceção, que permanecem até hoje sem
solução. Nessun dorma.

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