O mundo está há cem dias sob os mandos e desmandos de
Trump: cenário de retrocesso, insegurança e ameaça à democracia
O governo de Donald Trump tem
sido um tormento. Diário, continuado. Seus disparos sequenciais de tarifas
contra países parceiros, suas idas e vindas em decisões econômicas e políticas,
e suas declarações sobre tomar territórios de outros países levaram o mundo a
um retrocesso de um século pelo menos. Trump desrespeitou direitos humanos na
pressão contra imigrantes, fechou agências governamentais importantes, colocou
um agente privado dentro do governo com poderes demais e nenhum controle,
chantageou universidades e intimidou a Justiça. A distopia parece não encontrar
limites.
Faltam 1.348 dias de Donald Trump no
poder. E o projeto está claro. Ele quer demolir o Estado, e a democracia
americana. Nos 100 dias está encontrando um primeiro problema, a opinião
pública. Tem a menor aprovação de qualquer governante americano em 80 anos, a
maioria desaprova a maneira como ele conduz seu governo. Mas há outras
barreiras que podem ser erguidas. Uma delas é a eleição de meio de mandato que
pode enfraquecê-lo no Congresso, o que tiraria um pouco do seu poder. Se isso é
uma esperança, por outro lado é um alerta de que ele tentará tudo o que puder
até as eleições legislativas do final do ano que vem.
Trump, em cem dias, atravessou fronteiras
que pareciam protegidas pela institucionalidade americana. As grandes
universidades da Ivy League, conhecidas pela sua independência, qualidade do
ensino, e o patrimônio dos seus fundos foram encurraladas e, até agora, apenas
uma, Harvard,
disse não. Até quando? Uma juíza foi presa pelo FBI. Um americano foi deportado
como se fosse imigrante ilegal. Garantias e direitos individuais começam a ser
corroídos internamente.
A democracia americana sempre teve defeitos, mas não estes.
Havia uma fortaleza institucional respeitada por qualquer que fosse o governo.
Basta lembrar que o uso do aparelho de Estado para espionar o Partido Democrata
levou o republicano Richard Nixon à renúncia, para evitar o último passo do
impeachment que seria a deposição.
A guerra das tarifas está provocando efeitos na economia
mundial. Haverá uma desaceleração global como foi previsto pelo FMI.
Novas previsões podem ser ainda mais sombrias. Os juros americanos vão demorar
mais a cair. Há risco inflacionário. As bolsas dos EUA tiveram o pior
desempenho de um início de governo desde 1970. O peso das super tarifas contra
as importações do mundo inteiro foram suspensas por apenas 90 dias. Trump já
disse que não renovará a suspensão. Na guerra tarifária contra a China, além de
tarifas em percentuais exorbitantes, há o constrangedor desencontro de versões
sobre a conversa entre os líderes dos dois países. A China desmentiu Donald Trump e
disse que Xi Jinping não
conversou com ele recentemente. Não teria havido a ligação que Trump disse que
houve em entrevista à Time.
Os desaforos ditos a aliados tradicionais chocaram. A visita
do vice JD Vance à Europa produziu efeitos imediatos, como o aumento dos
orçamentos de defesa de países como a Alemanha. Afinal, ele estava lá para
dizer “virem-se”. A ofensa ao Canadá tem sido repetida, quando Trump o coloca
como o 51º estado americano. Pior tem sido a escalada contra a Groenlândia, que
Trump diz que é fundamental para a segurança americana. Segundo o presidente,
os Estados Unidos “precisam ter” a Groenlândia.
O pior de toda essa sucessão de agressões, mentiras e
videotapes é que o mundo está em estado de completa insegurança. Tudo pode
acontecer a qualquer momento. A incerteza é um pesadelo para o mundo dos
negócios, porque trava investimentos e decisões de compra, venda e
contratações. É um gás paralisante na atividade econômica.
O perigo maior, contudo, é institucional. Aberrações, como a
presença de Elon Musk dentro
do governo sem ter cargo formal nem a quem prestar contas, mostram que os
Estados Unidos estão quebrando paradigmas que sustentaram a democracia
americana por dois séculos. O mundo viu recentemente o desmonte institucional
interno em vários países. No Brasil, houve um ensaio desse processo. Mas é
inconcebível tal perigo acontecer nos Estados Unidos. No primeiro governo, ele
tentou e encontrou resistências. Esse segundo mandato, como já ocorreu em
outros países, ele veio com maior força demolidora. O povo americano que o
levou de volta ao Salão Oval é o único que pode estabelecer uma barreira eficaz
a esse desatino.

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