‘Agora todos querem beijar minha bunda.’ A frase atribuída a
Trump, depois da decretação do tarifaço, não me surpreende. Sua biografia
revela um homem mundano, circulando nas altas-rodas de Nova York. O que pode
surpreender um pouco é como ele, e também Jair
Bolsonaro, pode ser tão admirado pelos evangélicos, que os veem como
predestinados a governá-los. Uma das grandes decisões de Trump foi transferir a
embaixada americana para Jerusalém, algo
que estava também nos planos de Bolsonaro.
Creio que ambos perceberam que a proximidade com os
evangélicos seria maior se transformassem suas profecias em política de
governo. Os evangélicos acreditam na volta de Cristo, desde que sejam
preenchidas algumas condições, certos eventos previstos na Bíblia. O retorno
dos judeus à Terra Prometida, a reconstrução do templo em Jerusalém, conflitos
envolvendo nações contra Israel e a existência de um governo mundial
anticristo.
Algumas dessas profecias foram elaboradas no século XIX por
teólogos como John Nelson Darby. São interpretações que leem textos proféticos
como previsões e eventos históricos que estão por vir. Essa concepção,
conhecida entre os evangélicos como Bíblia Scofield, previa que, antes da volta
de Cristo, os crentes serão levados ao céu (arrebatamento da igreja), um
período de tribulação global, e a volta de Cristo para reinar a partir de
Jerusalém.
Portanto um dos passos importantes para Trump foi
precisamente fundir sua política com as profecias, como se estivesse
deliberadamente abrindo caminho para a volta de Cristo. Interessante como um
homem de negócios, materialista e frequentador das altas-rodas nova-iorquinas,
passa a defender essas teses e se volta furiosamente contra gays e pessoas
trans.
Mark Lilla — cujo livro sobre a primeira vitória de Trump já
mencionei aqui — concedeu uma entrevista recentemente afirmando que a alma
americana está doente. Mas será necessário um estudo mais profundo. A alma
alemã também estava doente na ascensão do nazismo. Judeus, homossexuais e
ciganos eram os bodes expiatórios. Agora são os estrangeiros.
Uma grande pressão pré-tarifaço foi feita para que Canadá, México e China detivessem
a entrada de fentanil, droga que ameaça o país. A Alemanha se
posicionava contra inimigos, mas os Estados Unidos de
hoje estão preocupados com a própria decomposição interna. O inimigo, nesse
caso, está dentro das pessoas. A Alemanha tinha um projeto de futuro em busca
de espaço vital. Trump se volta para a conquista da Groenlândia, talvez do
Canadá, mas seu foco mesmo é a volta aos bons tempos em que a indústria era
forte na América.
Será preciso um grande trabalho de pesquisa para definir
essa “doença” na alma americana. É algo inédito, específico desse estágio do
capitalismo e do avanço tecnológico. Uma tarefa gigantesca. Aqui do Sul,
podemos contribuir apenas lembrando como Trump e seus auxiliares diretos se
referem a nós. Quando decretou o tarifaço, Trump disse que os países
sul-americanos não tinham nenhuma importância, pois os Estados Unidos não
precisam deles. Semanas depois, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou
que a América Latina é um quintal dos Estados Unidos que precisa ser liberado
da influência chinesa.
Depois de tantos anos de intercâmbio, com forte presença
latina nos Estados Unidos, inclusive no universo artístico, ainda nos olham de
cima para baixo. Aliás, como olham os chineses. O vice-presidente J.D. Vance
declarou numa entrevista:
— Nós pegamos dinheiro emprestado de camponeses chineses
para comprar as coisas que esses camponeses chineses fabricam.
São olhares típicos do período colonial, que, embora deem
impressão de superioridade, podem ser resultado de insegurança. Como dizia
nosso poeta Cazuza, suas ideias não correspondem aos fatos. É o
mínimo com que podemos contribuir para o diagnóstico da “alma”americana.
Artigo publicado em 21 / 04 / 2025

Nenhum comentário:
Postar um comentário