Socióloga que investigou 2013 vê possibilidade de direita
voltar às ruas
Angela Alonso desmonta o mito de protestos espontâneos e
explica por que a conjuntura atual pode reacender mobilizações da direita.
Professora de Sociologia da USP e pesquisadora do Centro
Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Angela Alonso dedicou anos a
investigar o maior ciclo de manifestações da democracia brasileira,
tema do seu livro Treze - A política de rua de Lula a Dilma.
Em entrevista ao Congresso em Foco, ela refuta a ideia de que as
manifestações de junho de 2013 tenham sido meramente explosões de indignação
popular e alerta: a direita pode voltar a ocupar as ruas em breve, caso
encontre um novo motivo mobilizador.
Angela aponta que a direita construiu ao longo dos últimos
anos redes sólidas, conectadas e persistentes, que continuam ativas e podem ser
rapidamente reativadas. Ela explica que, historicamente, a direita só recorre à
política de rua quando está fora do poder, mas tem estrutura para se
reorganizar e protestar contra governos de esquerda. Questões sensíveis, como a
reforma fiscal e mudanças na política de impostos, podem reacender essa
mobilização conservadora.
"A direita não precisa ir à rua toda hora", resume
a socióloga. "Ela vai à rua quando não está no governo. A política
institucional e a política de rua estão umbilicalmente ligadas." Segundo
ela, basta um estopim como uma pauta tributária impopular ou um fato inesperado
para reunir novamente multidões.
Angela desmonta a visão de que junho de 2013 tenha sido
apenas resultado de indignação espontânea. Para ela, protestos de grande porte
não surgem do nada, mas dependem de redes organizacionais amplas, coalizões
diversas e capacidade de articulação. Naquele momento, convergiram nas ruas
grupos de esquerda autonomista e neossocialista, além de setores conservadores
e liberais, compondo um leque de reivindicações que extrapolava a narrativa
dominante de movimento progressista.
Ela localiza ainda as raízes dessa mobilização na
reconfiguração política iniciada em 2003, quando a esquerda chegou ao Executivo
e afastou parte de seus movimentos sociais das ruas. Essa ausência abriu espaço
para novas oposições crescerem e testarem sua capacidade de articulação
popular.
Bolsonaro e a moralização da política
Angela também explica como Jair Bolsonaro soube explorar o
ambiente de descrédito político que se aprofundou após a Lava Jato. Ao adotar
posições extremas em temas como violência, moralidade pública e redistribuição,
Bolsonaro construiu uma persona capaz de dialogar com grupos conservadores,
insatisfeitos com a chamada "velha política".
Para a socióloga, a base social que se formou nesse processo
redes cívicas, laços de afinidade, grupos de convívio presencial e virtual não
desapareceu e pode se reorganizar em torno de novas lideranças ou novas causas,
caso Bolsonaro perca protagonismo.
As ruas seguem centrais
Mesmo com o avanço do ativismo digital, Angela reforça que a
rua continua sendo espaço fundamental para disputas políticas no Brasil. A
internet ampliou o alcance e acelerou o recrutamento, mas não substituiu a
presença física nas manifestações. E quem domina melhor essas ferramentas hoje,
a direita sai na frente para futuras mobilizações.
"Para encher as ruas, não basta indignação. É preciso
organização", alerta a socióloga.
Leia a íntegra da entrevista com Angela Alonso:
Congresso em Foco - A maioria dos analistas e acadêmicos
dizia que era necessário esperar alguns anos para se compreender o que foi o
movimento de junho de 2013 no Brasil. A senhora mergulhou fundo na investigação
e escreveu um livro sobre o assunto. O que levou àquela onda de manifestações?
Angela Alonso Junho de 2013 é resultado de um
processo. Na época se falou muito de uma explosão espontânea, uma espécie de
bomba antipolítica, que de repente tivesse explodido, um conjunto de
frustrações. Mas nenhum processo político de monta, de volume, de relevância,
acontece do dia para noite. Desde o começo da pesquisa, eu tive em mente dois
objetivos. Um era entender a dinâmica do que aconteceu em junho. Logo se
estabeleceu uma narrativa e ela ficou predominante na mídia, nas
interpretações, a interpretação de que era um grande movimento de esquerda. E a
outra coisa foi fazer o que você me perguntou, entender de onde que isso veio.
A senhora suspeitava do que era?
Eu estudo movimentos sociais há décadas, o que me permitiu,
na hora em que a coisa estourou, ver naquilo um ar de família com movimentos
parecidos, em outras partes do mundo e tal. Mas me levantou uma suspeita
imediata de que aquilo tinha que estar fermentando a partir de diferentes
grupos, porque quando você tem uma manifestação muito grande, ela não é
organizada por um único movimento. Sobretudo num país do tamanho do Brasil,
levar gente à rua, lotar a rua, isso demanda uma rede organizacional muito grande.
Ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, protesto não uma atividade
espontânea, protesto dá muito trabalho. Um trabalho de organização muito
intenso e que envolve muita gente.
Quem organizava?
Na pesquisa, eu primeiro tentei entender quem estava
organizando para daí ir atrás dessas raízes. E aí, à medida que eu fui indo
para trás, eu vi que eu tinha que ir muito mais para trás do que supunha. A
gente teve no Brasil protestos variados, grandes, com muita gente na rua, no
impeachment do Collor, em 92, nas Diretas Já e em 1964, esta última parte as
pessoas um pouco esquecem, mas também foram grandes protestos de rua. Eu olhei
para esses três parâmetros, o que essas coisas tinham em comum.
No caso das Diretas Já e do impeachment do Collor, você
tinha uma agenda comum e em junho de 2013, não tinha.Eu olhei mais pra trás,
para o pré-64, para ver o que tinha ali. Você tinha, na verdade, grupos
diferentes disputando a rua. E o que tinha em 64 e tinha em 2013? Um governo de
esquerda.
Então o meu ponto de partida foi o que aconteceu com a rua,
com a política de rua, a partir da hora em que um governo de esquerda voltou a
ocupar o Executivo no Brasil, o que não acontecia desde 64.
Eu voltei em 2003 e, a partir daí, eu comecei a reconstruir
como que a rua foi sendo reocupada ou reconfigurada a partir da ocupação do
governo pelo PT. Isso significou, na minha interpretação, uma desmobilização
dos movimentos socialistas, redistributivistas, que vinham desde a
redemocratização, porque ou eles foram para o governo ou eles passaram a fazer
negociações, lobby, usar outras táticas para levar os seus pleitos, em vez de
usar a mobilização de rua. E aí, a rua vazia foi sendo ocupada por outros tipos
de oposição.
Quais tipos?
Um tipo de oposição para qual a literatura, os jornalistas e
tal olharam com lupa, em 2013, foi a esquerda autonomista. Essa esquerda retoma
os valores da contracultura, de crítica aos padrões de sexualidade, família, em
favor de uma abertura para novos padrões de comportamento, novos estilos de
vida, mas traz junto demandas de justiça social. Outro tipo foi uma esquerda
neossocialista, porque também redistributivista, como a que estava no governo,
mas um pouco mais moderninha do ponto de vista dos costumes.
A esquerda foi construindo essas duas oposições. Uma mais em
torno dessas pautas, digamos, emergentes com a nova geração e uma outra
neo-redistributivista, não satisfeita com a eficácia da maneira pela qual o
governo vinha gerindo o problema redistributivo. Mas o mais importante, como
fenômeno novo, foi a emergência de movimentos à direita do governo.
De que maneira?
Movimentos que vão desde os que se chamam libertários, que
têm uma agenda muito próxima dos autonomistas em termos de costumes, mas que
são a favor das liberdades econômicas, que são, na verdade, anti-Estado, de
modo mais geral. E depois, movimentos mais conservadores, do ponto de vista
moral e mesmo econômico, até movimentos francamente reacionários.
Ao longo dos dois governos Lula, foram se constituindo e
crescendo e fazendo pequenos protestos esses três campos de ativismo:
autonomistas, neossocialistas e este terceiro campo à direita, que se
autodenominou de patriota. Em junho de 2013, eles chegaram, pela primeira e
única vez, simultaneamente às ruas. Isso deu o volume e a variedade.
Quando se deu a cisão entre esses grupos? Foi na Lava
Jato que esse grupo se desfez?
Acho que pra falar da Lava Jato, precisa voltar a todo o
episódio petrolão. Tem uma característica sui generis em todo
esse processo, que é o foco na corrupção.
Havia dois campos de oposição de rua à esquerda do governo e
um grande campo à direita do governo, mas todos esses campos estavam
fracionados em vários pequenos movimentos, com agendas muito particulares. Eram
três grandes guarda-chuvas.
O grande eixo de junção de cada um dos guarda-chuvas foram
três grandes temas que eu chamei de zonas de conflito, que são temas nos quais
as diferenças entre esses grandes grupos, esses feixes de movimentos, eram
inegociáveis.
Quais eram?
Violência, o uso da força, a pena de morte, dividia os
grupos que eram mais favoráveis ou contrários a isso. Redistribuição, dividia
os que eram a favor ou contra políticas de redistribuição de rendas, de
oportunidades sociais escassas, como acesso à educação superior, políticas
afirmativas, essas coisas. E encontrei um terceiro campo, que eu acho que esse
que foi menos analisado, que era o da moralidade. E a moralidade tem duas
facetas.
Quais facetas?
Essa privada, que eu mencionei: os movimentos doe campo
autonomista trazem muito a ideia de uma nova sexualidade, de novos padrões de
família, etc. Mas tem também grupos que se organizam contrários a isso. Um dos
primeiros grandes movimentos do período Lula foi o movimento pelo direito à
vida, contrário ao aborto.
Mas tem também a moralidade pública, um campo de nascença da
direita. O tópico da corrupção é uma constante em discursos de direita e
populistas ao longo da história. E, no entanto, esse tópico foi abraçado pela
esquerda desde o mensalão, em uma ruptura que levou à formação do Psol a partir
do PT. Cresceu dos dois lados do espectro político a ideia de que era preciso
sanear moralmente o Estado e a política. Essa ideia de uma política moralizada
se tornou transversal.
Isso pegou tanto a esquerda quanto a direita?
Ela pega um pedaço grande da esquerda e pega a direita. Isso
realmente é algo que unifica. Assim, a Lava Jato ganhou muito apoio porque essa
ideia da moralização tinha se tornado uma ideia hegemônica entre os diferentes
campos, a direita e a esquerda. Aí eles confluíam.
Junho de 2013 pavimentou a eleição do Bolsonaro ou o
avanço da extrema-direita?
Primeiro, são duas coisas, a direita e o Bolsonaro. São duas
coisas que precisam ser separadas. A direita não chegou anteontem. Olhando a
história brasileira, temos uma grande força dos movimentos conservadores na
política. Na ocupação de governos, na gestão de políticas. Na sociedade, a
gente teve, durante muito tempo, uma igreja conservadora que controlou a
educação pública. Quando a gente vê surveys de atitudes, de preferências, a
gente tem uma sociedade conservadora em vários itens.
Mas há uma nova direita?
Eu sou dos que se opõem a essa ideia de uma nova direita. Eu
acho que a gente tem uma direita. E ela está aí, faz muito tempo. Agora,
obviamente, a cada geração, você tem novas pessoas que abraçam esses valores,
você tem novos meios de comunicar, mas isso acontece em todas as gerações. Por
exemplo, quando o Jânio Quadros foi presidente, o "Varre, Varre,
Vassourinha" também era uma coqueluche.
Na ditadura tinha o "Eu Te Amo, Meu Brasil". O que
eu acho que acontece agora é que a gente tem tudo isso mais visível. A internet
tornou tudo isso imediato, visível e de grande escala. Democratizou a exibição
dessas coisas que aconteciam em pequena escala. Antes não dava para você saber
que as pessoas estavam lá no interior do Brasil fazendo manifestações
patrióticas. Agora você pode, imediatamente.
Acho que também se confunde muito a visibilidade com o
aumento da relevância. A visibilidade aumentou. Não necessariamente a
relevância. São duas coisas diferentes. E eu acho que tem uma confusão grande
nesse campo.
Qual confusão?
A gente sempre teve direita. Agora, quando é que a direita
vai à rua? Ela vai à rua quando ela não está no governo. Ela não precisa ir à
rua toda hora. Se ela está governando na maior parte do tempo, ela usa as
instituições. A política institucional e a política de rua estão umbilicalmente
ligadas. Uma se alimenta da outra. Se quem está no governo é a direita, quem
ocupa a rua é a esquerda. Se quem está no governo é a esquerda, a direita vai
para a rua. Ela vai fazer oposição, aí a direita vai sair se manifestando.
E quando e onde Bolsonaro entra nessa história?
Outra coisa é o Bolsonaro. O Bolsonaro é uma conjunção de
oportunidades, de um processo que não foi ele que construiu. Mas ele teve uma
capacidade de se apropriar da oportunidade. Porque, veja só, esses movimentos
de rua estão se constituindo, estão crescendo, não só como manifestação
contrária ao governo petista, mas contra uma série de coisas que eles atribuem
ao governo. Uma coisa é a dimensão do que o governo está fazendo; outra é a
dimensão do perigo que eles associam ao governo. Por exemplo, essa fantasia do
Brasil vai virar Venezuela, essas coisas.
Além disso, voltando à Lava Jato, eu acho que teve um
momento de grande confluência entre a imprensa, a esquerda e a direita de rua,
em relação à centralidade da corrupção e dessa necessidade de moralização da
política. A gente tinha capas da Veja, uma atrás da outra, mas, na verdade,
toda a grande imprensa adotou esse discurso. Tanto que, se você, antes dessa
mobilização midiática, olha para as pesquisas de opinião, as pessoas estão
falando que elas querem saúde, educação, etc.
A corrupção não liderava as preocupações?
Aí vem essa avalanche midiática; e a corrupção sobe lá no
topo das preocupações nacionais. Tem um impacto do modo pelo qual a mídia
tratou isso. E aí, depois disso, veio essa verdadeira caça aos marajás, como
chamava o Collor lá atrás, que transformou o Sergio Moro num grande herói
nacional. O processo da Lava Jato levou a uma destruição de lideranças, não só
das que foram presas, mas também à descredibilização dos políticos de modo
geral, dos partidos de modo geral. A Lava Jato fez um serviço, desse ponto de
vista da percepção da política, de terra arrasada. Tanto que, durante o auge da
Lava Jato, as figuras que foram cogitadas como lideranças nacionais eram os
juízes, não eram os políticos. Isso abriu campo para que alguém que vinha
correndo por fora, um político secundário, terciário, que vinha correndo por
fora, e que conseguiu se apresentar como não político, pudesse ascender à
posição que o Bolsonaro ascendeu.
Como Bolsonaro conseguiu ocupar esse espaço?
O Bolsonaro estava sempre no lugar certo em toda essa
controvérsia, durante todos esses dez anos, entre o início do governo petista e
as manifestações de 2013, e vai continuar estando no lugar certo até a eleição
dele. Na discussão sobre redistribuição, ele foi o único, por exemplo, já no
governo da Dilma, que votou contra os direitos das empregadas domésticas. Ele
foi quem saiu falando do kit gay. Quando o Fernando Haddad era ministro da
Educação, foi ele que atacou um programa para adolescentes na escola, que
acabou gerando depois a Escola Sem Partido, falando que era uma cartilha gay.
Ele entrou na redistribuição, ele entrou na moralidade privada, ele entrou na
moralidade pública, e ele veio na violência, o terreno preferido dele. Ele
esteve, entre as lideranças, no plebiscito do desarmamento que o Lula propôs e
perdeu, ele foi uma das lideranças contrárias e vencedoras do plebiscito, pelo
direito de portar armas. E depois, na Comissão Nacional da Verdade, ele
defendeu diretamente a ditadura.
Ele tomou posições nas três zonas de conflito definidas
pela senhora?
Sim, ele tomou posições extremas, que são posições sempre
difíceis de tomar, porque elas não costumam ser muito populares. Mas, na hora
em que se fez terra arrasada das outras lideranças, falando que os políticos
são todos iguais, tudo farinha do mesmo saco, ele cresceu. Acho que ele teve
também a sagacidade de usar essas posições extremas dele para construir uma
figura, uma persona, como uma espécie de personificação desse movimento de
moralização da política.
E a senhora acha que, hoje ainda, ele está sabendo se
posicionar?
Essa janela de oportunidade parcialmente fechou, porque os
partidos de direita se reorganizaram, tem outros candidatos, inclusive, que ele
mesmo produziu, mas eu não sou cientista política para ficar dando palpite
sobre eleição. O que eu acho é que, independentemente de quem se candidatar no
campo dele, ele ainda expressa uma força política. Essa mobilização toda de
direita que a gente teve ao longo dos últimos anos, ela tem ossatura. O que eu
dizia no começo da nossa conversa, não é uma coisa espontânea. São muitas
redes, não só digitais. Tem muitos grupos que funcionam porque as pessoas que
estão neles convivem nessas redes de sociabilidade, que eu venho chamando de
redes cívicas, são pessoas que compartilham o mesmo estilo de vida, são pessoas
semelhantes, são pessoas que são amigas, não são laços fracos. E isso tudo,
essas redes cívicas, pode convergir para o candidato da direita. Não precisa
ser o Bolsonaro.
Estamos de volta a um governo petista. O PT aprendeu a
lição de 2013?
Não sei. Em 2013, o PT não entendeu o que estava
acontecendo. O PT não entendeu e os intelectuais petistas, muito vinculados ao
PT, deram a interpretação que o partido adotou, de que era uma manifestação de
esquerda.
Só depois, quando o negócio ficou muito grande, eles
começaram a falar de um rebote da direita tomando a rua da esquerda. Eu tenho
um banco de dados com todas as manifestações de junho. Desde o começo, você tem
grupos desses três campos que eu mencionei se manifestando no país inteiro. Não
é que a esquerda começou o protesto e a direita tomou. Você tinha vários
protestos pequenos de direita e de esquerda. Uma hora eles foram crescendo.
Mas esse campo da direita continuou nas ruas...
Do ponto de vista numérico, quem cresceu mais foi esse campo
patriota, porque depois eles voltaram para a rua em 2015, sozinhos, e eles
levaram mais gente do que em 2013. Tem um volume muito grande desse campo desde
o começo dos governos petistas. Isso foi crescendo. O PT demorou muito a lidar
com isso. Primeiro, em 2013, a Dilma fez um pronunciamento no qual ela reagia
aos pontos da esquerda. Ela chamou a reunião com quem o governo identificou
como sendo as lideranças da rua. Só chamou gente de esquerda. Por exemplo, a
Carla Zambelli, que era uma liderança muito importante na rua naquela hora, não
foi chamada. Nenhum dos ativistas que estavam lá desse campo patriota foi
considerado. Isso significa que o governo não abriu interlocução. Não que o
governo fosse atender a todas as demandas, mas havia demandas, como no caso da
corrupção, que eram demandas comuns à esquerda e à direita. Poderia ter aberto
canais de negociação, sobretudo com grupos que eram mais de centro. Mas o
governo não viu isso.
Essa é uma preocupação hoje do governo Lula?
Acho que o governo Lula começou com uma percepção da rua
como se ela fosse uma rua igual à que subiu a rampa com ele. Aquela cena da
subida da rampa dele, na última posse, é uma cena na qual estão ali todos os
movimentos do campo neossocialista e do campo autonomista. Estão todas as
diversidades e toda a redistribuição. É uma simbologia muito forte, de que este
é um governo de duas esquerdas. Não é mais o governo que subiu a rampa em 2003,
que era o governo redistributivo, o governo dos trabalhadores. Mas, também é um
governo que governa sitiado, tanto no Congresso quanto na sociedade. Ele chegou
com pouca força.
Não há margem para enfrentar isso?
Ele não tem latitude para fazer grandes políticas. E o que
aconteceu nos governos anteriores do Lula, que vem acontecendo agora, é que as
políticas que vão sendo prejudicadas são aquelas que têm justamente menos
apoio. As políticas que dizem respeito a minorias não encontram apoio na parte
direita do parlamento.Elas são as candidatas a dançar mais rapidamente. A gente
está vendo que o governo está governando com grande dificuldade em todas as
áreas. Não por acaso, o Lula se lançou para a política internacional, que é um
campo no qual ele consegue brilhar, porque na política nacional realmente está
difícil.
A esquerda e o governo podem conseguir botar gente na
rua?
Acho que o governo tem pouca latitude para agir. Tem pouco
espaço de ação. Difícil até dizer se aprendeu ou não aprendeu as lições de
2013, porque não está tendo espaço para fazer esse tipo de negociação com a
sociedade, porque está tendo que lidar com o Congresso, com os partidos, e
enfrentou uma tentativa de golpe. Lula subiu a rampa com as duas esquerdas.
Dali uma semana a extrema-direita tentou derrubar o governo. Não é simples a
situação deste governo.
A senhora vê espaço para um novo junho de 2013, uma onda
de manifestações nas ruas?
A gente sempre tem movimentos sociais de pequena escala, com
protestos. A cidade de São Paulo tem protestos todos os dias. O difícil é fazer
protestos volumosos, com dezenas ou centenas de milhares de pessoas. Esses
protestos de médio porte, com vinte mil pessoas, são geralmente organizados por
três movimentos. Para um protesto maior, de 100 mil, 200 mil pessoas, você
precisa de uma grande rede de movimentos. É preciso que você tenha uma grande
coalizão para poder organizar uma coisa dessas.
Antes de 2013, a gente teve o impeachment do Collor, as
Direta Já, e lá em 64, quando a direita e a esquerda ocuparam as ruas
separadamente A gente não tem grandes manifestações toda hora. E a gente pode
pensar que, do mesmo jeito que as diretas e o impeachment têm uma certa
continuidade, 2013 e o impeachment de Dilma, em 2016, também têm um uso intenso
da rua. Depois, isso refluiu. Eu acho muito difícil ter uma manifestação de
mesma magnitude. Agora, depende sempre do contexto. A gente não sabe o que vai
acontecer. Se você tem coisas como, por exemplo, o que aconteceu no 8 de
janeiro, se tem um golpe, se tem o assassinato de um político importante, se
tem eventos que podem produzir grande mobilização. Mas no contexto político,
digamos, regular, não me parece provável.
Em 2013, as redes já tinham força. Agora, muito mais.
Isso pode dificultar ou fomentar a ocupação das ruas por manifestantes?
Desde os anos 90 e a virada do século, quando começou o uso
de internet com mais intensidade, abriu-se uma discussão na literatura de
movimentos sociais sobre isso.
E uma parte dos autores começou a declarar que a gente
estaria na transição para o ciberativismo e que a rua tinha acabado como espaço
de protesto e que agora os protestos seriam todos virtuais. Não foi o que
aconteceu. O uso da internet tem sido, como as outras tecnologias, um
facilitador, tem sido utilizado nas manifestações, mas não substituiu as
manifestações.
Durante a pandemia, mesmo quando não deveriam ir, muita
gente foi para as ruas pelo movimento antivacina, por exemplo. Não foram
manifestações de grande vulto, mas o Black Lives Matter (Vidas negras
importam), nos Estados Unidos, aconteceu ainda durante a pandemia, já com
vulto. Não houve essa substituição.
Qual foi a mudança mais significativa nesse sentido?
Tinha uma expectativa de alguns autores que haveria uma
substituição da rua pela arena digital. Agora, mudou a forma pela qual o
recrutamento é feito. O recrutamento para o protesto, para essas redes cívicas,
para os movimentos e tal, era um recrutamento que tinha que ser feito face a
face, diretamente, e agora é ele feito de maneira mais difusa e com maior
alcance. Isso vem em uso já há bastante tempo. Quem começou a usar isso
primeiro e bem foi a direita. No caso de 2013, a Carla Zambelli criou uma série
de páginas estaduais de Facebook. Isso criou uma possibilidade de adesão, de
crescimento, que presencialmente um líder não teria. A direita vem fazendo
sistematicamente há muito tempo e o faz muito bem, inclusive porque tem muita
gente de tecnologia da informação nesses movimentos.
A esquerda ficou para atrás?
A esquerda é mais retardatária nisso. O campo autonomista
também começou a usar a tecnologia mais cedo, mas o campo mais neossocialista
usa ainda de uma maneira equívoca, porque eles tentam transmitir, ou mesmo
traduzir, o mesmo de estilo de ativismo que eles têm presencialmente para a
rede. Por exemplo, fazer discursos de persuasão, escrever longos artigos de
persuasão. E o que funciona na rede, como a direita viu muito rápido, são os
memes. Uma mensagem rápida, imagética, e que comunica sem explicar. Ela já
comunica um estereótipo, ela não transmite um raciocínio. Tenho acompanhando
esses memes do Trump nos Estados Unidos. Eu acho que a esquerda lá agora está
fazendo um uso mais eficiente disso, inclusive com o uso da inteligência
artificial, que produz cenas que são muito comunicativas e muito rápidas e
também que se produz com muita velocidade. Mas isso só começou a acontecer
agora. Agora, eu não vejo essa mesma velocidade aqui no Brasil. Não vejo o uso
eficiente disso em relação ao Bolsonaro, por exemplo, ou ao Tarcísio de
Freitas. Eu não vejo nada disso acontecendo do lado da esquerda. Ao passo que a
direita continua fazendo isso em relação à sua figura antagônica central, o
Lula. Eles vêm fazendo há muito tempo e continuam fazendo. Continua havendo essa
diferença de uso das mídias. Agora, isso não leva a gente para a rua. Mas isso
pode impactar o voto.
Há margem para a esquerda recuperar o espaço das ruas? Ou
o caminho está mais favorável para a direita?
Acho que tem uma concepção muito disseminada de que as
pessoas vão para as ruas por causa da indignação que um assunto particular
produz. Mas é um encadeamento de fatores que leva as pessoas para a rua. Você
pode ficar muito indignado, mas você posta a sua indignação nas redes ou você
conversa com seus amigos, fala em casa ou no trabalho que você está indignado e
você espera a próxima eleição e vota a sua indignação.
Numa democracia, o incentivo para ir à rua é baixo. Acontece
que, regularmente, quem vai para a manifestação são os ativistas profissionais,
que são as pessoas que realmente vivem da política. São os membros regulares de
movimentos, assessores de partidos, bases de partidos e os estudantes, que são
a base regular de manifestação. Fora isso, as manifestações tendem a ser muito
setoriais. São os professores que querem aumento de salário, os médicos que
querem mudança de condições de trabalho. É muito difícil levar muita gente para
a rua em condições normais de temperatura e pressão.
O que a esquerda faria na rua hoje?
Se a gente ainda tem um governo de esquerda... O fato é que
o que mais incentiva a mobilização é você ter um antagonista. Durante o
Bolsonaro, a gente viu o tamanho que a esquerda de rua tem hoje. É pequeno. Não
houve nenhuma manifestação do tamanho das que houve durante a Dilma. Quando a
esquerda chamou a maior manifestação ali na eleição, o "Ele não", o
outro lado respondeu com "Ele sim", um movimento de envergadura.
Verdade que a pandemia complicou muito, mas não teve nenhuma
grande mobilização das esquerdas contra o Bolsonaro. Agora que tem um governo
de esquerda, a gente vê menos motivo ainda. O que pode acontecer é o contrário,
realmente uma manifestação de direita contra o governo.
E qual seria o mote?
Eu acho que uma questão que bomba é a reforma fiscal. Esse é
um ponto que apareceu sistematicamente em 2013, em 2015, em todas as
manifestações grandes de rua. A ideia que a direita e a esquerda construíram ao
longo do governo Lula é que o Estado não é eficiente para levar a cabo as
tarefas mais importantes da vida social e que a sociedade auto-organizada é que
deve fazer isso. A esquerda defendeu isso por meio da auto-organização, de
cooperativas, casas compartilhadas, várias coisas desse tipo; e a direita por
meio da ideia da autogestão, dos co-workers e do empreendedorismo. A ideia de
que é a sociedade que organiza melhor os assuntos econômicos.
O argumento muito usado era de que os impostos são muito
altos e o seu uso muito pouco transparente, o que nem é verdade, mas é um
argumento muito frequente desse campo patriota. Este é um ponto sempre muito
delicado no Brasil: a correção da desigualdade quando ela afeta os grupos
altos.
Eu acho que tem uma diferença também importante entre
correção de pobreza e correção de desigualdade. Quando você olha para a
correção da pobreza, ninguém fala contra. A direita não fala contra políticas
que vão minorar a pobreza. O problema é quando você mexe na hierarquia social.
E quando você mexe na estrutura de taxação, você impacta a estrutura social. Aí
você pode ter algum tipo de reação. Exatamente porque a política fiscal é muito
importante para corrigir a desigualdade, ela pode sofrer muita reação. Está
sofrendo no Congresso, pode vir a sofrer também como movimento de rua.

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