O governo, enfim, reage à afronta do Congresso. Em certas
situações, fogo se combate com fogo
Escorreu mais rápido pelas redes sociais do que pela
garganta aquela talagada na boquinha da garrafa de uísque do presidente da
Câmara, Hugo Motta, registrada em vídeo durante os festejos juninos em Patos,
Paraíba, terra natal do deputado. Naquele instante de puro malte e
descontração, imaginemos, Motta provavelmente arquitetava os detalhes da maior
fogueira acesa no Congresso desde que assumiu o lugar de Arthur Lira como tutor
do parlamentarismo, ou semipresidencialismo, à brasileira. De volta à mesa diretora,
ainda embalado pelas sanfonas do “arraiá”, o parlamentar empilhou a lenha das
traições, dos ressentimentos, da chantagem, dos interesses explícitos e
escusos, dos lobbies, da antecipação da campanha eleitoral e da desarticulação
do governo para colocar fogo no País, enquanto convidava os pares a dançar a
quadrilha no plenário da Casa sobre o cadáver do decreto do Palácio do
Planalto. “Olha o IOF. É mentiiiraaaa”, gritaram quase 400 excelências. O
governo Lula saiu chamuscado, mas quem ardeu na brasa foram os 99% de
brasileiros a quem, historicamente, são oferecidas as cinzas no fim da festa.
Motta traiu o acordo negociado com o
ministro Fernando Haddad, mas se achou no direito de ensaiar uma indignação de
pai da noiva grávida no casório caipira. Diante das críticas ao atropelo das
prerrogativas do Executivo e da constatação de que o Congresso só verte
lágrimas quando alguém propõe mexer no intocável bolso dos donos do dinheiro e
do poder, o deputado reclamou da “polarização social” supostamente promovida
pelo governo. Típico. No Brasil, os defensores da “pacificação” são os
primeiros a atiçar o ódio e a divisão, agressores “denunciam” a violência
quando o agredido reage e aqueles que se dizem cansados da “polarização” só
querem impor a sua vontade sem o aborrecimento do debate público. Bom cabrito
não berra, decreta o senso comum.
Pois o cabrito, enfim, berrou. A decisão de recorrer ao
Supremo Tribunal Federal contra a inconstitucional derrubada
do decreto do IOF parece indicar uma inflexão de Lula e uma
compreensão do Palácio do Planalto do que está em jogo a pouco mais de um ano
das eleições presidenciais. Antes tarde. O presidente iniciou o terceiro
mandato com a mesma disposição conciliatória dos dois governos anteriores, mas
as circunstâncias mudaram radicalmente desde o impeachment de Dilma Rousseff.
Michel Temer, o fraco, e Jair Bolsonaro, o inepto, produziram um tal vácuo de
poder que o Congresso viu a oportunidade de substituir o presidencialismo de
coalizão nascido no fim da ditadura por um parlamentarismo de conchavo,
financiado pelo orçamento secreto, no qual deputados e senadores colhem o bônus
e se livram do ônus das decisões. Seria imprudente manter certas ilusões quanto
aos compromissos democráticos e republicanos de quem manda no País e de quem os
representa em Brasília, por mais que o presidente da República se orgulhe de
suas habilidades de negociador.
Lula tem a oportunidade de tomar as rédeas da
iniciativa política. A campanha de 2026 está nas ruas
As peças da oposição estão distribuídas no tabuleiro. O
espírito do lacerdismo tomou o corpo da oposição, que semeia agora para colher
em 2026. Adapta-se a famosa frase de Carlos Lacerda: “O senhor Lula não deve
ser candidato, se for candidato não deve ser eleito, se for eleito, não deve
tomar posse, se tomar posse, não deve governar”. De quebra, a associação entre
o Centrão e o bolsonarismo planeja a vingança contra o STF, último dique contra
a barbárie política, econômica e social. Dois convescotes recentes patrocinados
por empresários em São Paulo não foram mera coincidência. Em um, Motta celebrou
o Parlamento “aguerrido, pronto para fazer um enfrentamento a favor do País”
(leia-se, em prol da turma da bufunfa). Em outro, o governador Tarcísio de
Freitas, ungido pela Faria Lima como o anti-Lula da vez, prometeu o indulto a
Bolsonaro (e aos demais golpistas) caso vença as eleições presidenciais do
próximo ano. Atento aos movimentos nas penumbras, um ex-ministro petista sugere
que o governo pare de jogar palitinhos, enquanto o Centrão e a extrema-direita
manejam peões, cavalos, torres e o rei.
Terá Lula entendido que o mais grave problema do governo não
é a comunicação, mas a política? Ou a falta dela? Os petistas podem até
considerar injustas, e, dados os avanços, elas realmente são, mas diferentes
pesquisas realizadas em diferentes momentos mostram que, aos olhos dos
eleitores, a acusação de uma administração perdulária, ávida por impostos e
“ultrapassada” supera, ao menos por ora, os inegáveis resultados na geração de
emprego e renda, na reorganização do Estado e na recuperação da imagem internacional
do País. Há tempo, dizem alguns, embora o tempo continue a escorrer pelos
dedos.
A prepotência do Centrão e do bolsonarismo, reafirmada por
Motta e por Davi Alcolumbre, comandante do Senado, criaram, no entanto, as
condições para o presidente da República tomar as rédeas. As mesmas pesquisas
que trazem más notícias também apontam caminhos possíveis. Uma expressiva
maioria dos brasileiros é a favor de uma tributação mais justa, que reduza a
carga dos mais pobres e expulse os endinheirados do paraíso fiscal criado por
eles mesmos ao longo de décadas de captura dos poderes da República. O fim da
jornada 6 por 1 é outra bandeira de enorme apelo popular e só um governo
progressista teria disposição e legitimidade para empunhá-la. Às vezes, mais
importante do que uma vitória é a disposição com a qual se luta. E em
determinadas situações, só se combate fogo com fogo. •
Publicado na edição n° 1369 de CartaCapital, em 09
de julho de 2025.

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