Morre José Maria Marin, 93, político-cartola e presidente
da CBF
Governador de São Paulo e presidente da CBF foi jogador
bem-sucedido fora de campo, preso, condenado e banido do futebol
São Paulo Jogador, político, cartola, não
necessariamente nessa ordem.
José Maria Marin, morto na madrugada deste domingo (20) aos
93 anos, chegou a ocupar até o posto de governador do estado mais rico da
Federação, porém sua imagem ficou mais atrelada à sua carreira esportiva, que
quase sempre foi política.
Foi presidente da CBF (Confederação
Brasileira de Futebol) de 2012 a 2014, incluindo durante o período da Copa de
2014, do infame 7 a 1, realizada no Brasil. Em maio 2015, pouco após deixar a
federação nacional, foi acusado
de corrupção pela Justiça americana no escândalo conhecido como Fifagate —ele
era vice-presidente da Fifa. Acabou condenado, preso e banido
do futebol.
Em 2017, foi sentenciado a 48 meses de prisão nos EUA pelos
crimes de integrar organização criminosa, cometer fraude bancária (três vezes)
e lavar dinheiro (duas vezes). Foi solto
em março de 2020 da penitenciária de Allentown, na Pensilvânia, devido
à pandemia de Covid.
Nascido a 6 de maio de 1932, Marin estava internado no
Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Seu velório acontece nesta tarde, na
capital paulista. A CBF publicou nota lamentando o falecimento de seu
ex-dirigente. A Federação Paulista de Futebol, a qual Marin chefiou de 1982 a
1988, também manifestou pesar, em comunicado.
Tido como um dos pioneiros do boxe no país, Marin deu os
primeiros passos no futebol com
a camisa do São Paulo,
clube de seu coração com o qual manteve boas relações durante toda a vida.
Disputou apenas 20 jogos pela equipe tricolor entre 1950 e
1952 e, mesmo não sendo mais do que um regular ponta-direita que amargou a
reserva por muito tempo, marcou cinco gols pelo time. Segundo o "Almanaque
do São Paulo", ele obteve 12 vitórias, quatro empates e quatro derrotas
pelo clube.
Seguindo até os conselhos do experiente Vicente Feola,
treinador campeão com a seleção brasileira na Copa de 1958, Marin conciliou os
estudos com as atividades futebolísticas. Era uma forma de garantir seu futuro
fora do futebol, uma vez que ele não dispunha de talento suficiente para jogar
nem mesmo em equipes de menor expressão, como o Jabaquara, de Santos, e o São
Bento, de Marília, clubes que ele também defendeu.
Cursou a tradicional Faculdade de Direito do Largo de São
Francisco e virou advogado ainda em 1955, o que se tornou um importante passo
para o seu início na carreira política.
Tendo como reduto eleitoral o bairro paulistano de Santo
Amaro, ele foi lançado como candidato a vereador com a ajuda de alguns amigos,
notadamente Armando da Silva Prado Netto, proprietário da Gazeta de Santo Amaro
e que ajudou a financiar a campanha de Marin.
Eleito vereador em 1963, o então ex-jogador conseguiu a
presidência da Câmara Municipal de São Paulo em 1969, quando a ditadura
militar se impunha no país. Viraria deputado
estadual pela Arena (Aliança Renovadora Nacional) nos anos 70 e
ganharia um certo destaque com discursos vorazes contra a esquerda. Teve
ligação com a ala mais radical do governo militar e conexões com órgãos de
vigilância e de repressão.
A morte do jornalista e comunista Vladimir
Herzog, preso e assassinado pelo DOI-Codi apenas 16 dias depois de dois
discursos ácidos de Marin contra a TV Cultura em outubro de 1975, virou uma
grande marca na trajetória política do dirigente, que dizia que os programas da
TV Cultura causavam "intranquilidade" nos lares de São Paulo.
Ainda em meio à ditadura militar,
Marin assumiu a presidência da Federação Paulista em 1982, ficando no posto até
1988. Foi por causa dessa posição que ele chegou a atuar como chefe da
delegação que representou o Brasil na Copa de 1986, no México.
Se na política Marin se aproveitou da condição de vice
de Paulo
Maluf no governo paulista para chegar ao poder (ficou dez meses à
frente do estado de São Paulo), na Confederação Brasileira de Futebol o cartola
lucrou ao ser o vice mais velho de Ricardo Teixeira. Faltavam menos de dois
meses para ele completar 80 anos quando tomou o controle do futebol nacional.
E ele assumiu
em 2012 não só a CBF mas como também o Comitê Organizador da Copa do
Mundo de 2014. Deixava assim o ostracismo de muitos anos para ocupar de novo um
posto de destaque no esporte e na política nacional.
Fez uma protocolar passagem de bastão entre seus aliados
Teixeira e Marco Polo Del Nero, que, na condição de presidente da Federação
Paulista de Futebol e cartola bem relacionado na Fifa e na
Conmebol, deu total sustentação a Marin.
Na sua gestão à frente da máxima entidade do futebol
brasileiro, o cartola paulista reconduziu Luiz Felipe Scolari ao cargo de
treinador da seleção. Também apostou em Carlos Alberto Parreira como
coordenador da comissão técnica que teria a responsabilidade de comandar o time
nacional em casa na Copa de 2014.
Contrariando as opiniões e as evidências de que os técnicos
do tetra e do penta estavam ultrapassados, Marin apostou na experiência deles e
no discurso nacionalista para o Mundial, refutando experiências e inovações,
como a contratação de um treinador estrangeiro (pesquisas apontavam que o
consagrado técnico espanhol Pep Guardiola, disponível e ávido pelo emprego na
seleção brasileira, era o preferido da população).
O título da Copa das Confederações em 2013 deu um ano de
certa tranquilidade para a cúpula do futebol brasileiro, mas o vexame da
seleção na Copa, em especial devido à maior goleada já sofrida pela equipe em
todos os tempos, o 7 a 1 para a Alemanha, escancarou o atraso do futebol
nacional em vários aspectos.
Na mesma assembleia que apontou Del Nero como sucessor de
Marin na CBF, por exemplo, ficou definido que a nova sede da máxima entidade do
futebol brasileiro no Rio de Janeiro levaria justamente o nome de José Maria
Marin.
O cartola assumiu a CBF em março de 2012 menos de dois meses
depois de tomar posse de uma medalha do jogador Mateus, do Corinthians, campeão
da Copa São Paulo júnior. A polêmica cena, flagrada na televisão, foi a
aparição mais célebre de Marin em muito tempo.
Quando Teixeira (em meio à investigação da Fifa de que houve
pagamento de propinas por parte da empresa de marketing suíça ISL ao dirigente)
renunciou ao comando da CBF alegando problemas de saúde, Marin ascendeu na
entidade sem que houvesse uma nova eleição.
Seu passado atrelado à ditadura foi reavivado então pela
mídia, ainda mais porque seu discurso nacionalista e conservador se fez de novo
presente.
Em 2015, foi citado ao lado de outros seis dirigentes da
Fifa em investigação sobre o pagamento de suborno por empresas de marketing
esportivo em torno dos direitos de transmissão e marketing de torneios da
Conmebol, Concacaf e da Copa do Brasil, organizada pela CBF —no julgamento,
Marin se declarou inocente. Preso na Suíça em maio durante um evento da Fifa,
foi extraditado para os EUA em novembro daquele ano.
Na Justiça americana, foi condenado a 48 meses de prisão e
multa de US$ 1,2 milhão (R$ 6,69 milhões atuais), em 2018. Também foi punido
com o pagamento de US$ 137.532,60 (R$ 767 mil na cotação atual) em restituição
à Fifa e à Conmebol, além de outros valores divididos com os demais réus do
Fifagate.
No ano seguinte, foi banido do futebol pela Fifa e condenado
a mais uma multa de 1 milhão de francos suíços (R$ 6,96 milhões na conversão
atual).
Após o fim da ditadura, Marin perdeu muito espaço político,
fracassando de forma estrondosa em eleições para a Prefeitura de São Paulo e
para o Senado. Seu único sucesso político nesse período foi quando ajudou na
coordenação da campanha vitoriosa de Jânio Quadros à prefeitura paulistana em
1985.
Marin esteve filiado a vários partidos de direita e soube se
manter no poder ou perto dele tanto na política quanto no esporte. Com um
aguçado oportunismo, conseguiu ser um jogador bem-sucedido fora de campo.
Frases
"...causa uma estranheza muito grande quando os
órgãos de imprensa do nosso Estado [São Paulo] já de há muito tempo vem
levantando esse problema [ausência da TV Cultura na cobertura de eventos da
Arena e produção de material jornalístico crítico por parte do canal], pedindo
providências aos órgãos competentes com o que está acontecendo no canal 2 [TV
Cultura]."
"Já não se trata nem de divulgar aquilo que é bom e
deixar de divulgar aquilo que é mal, se trata de uma grande intranquilidade que
já está tomando conta de todos em São Paulo."
"Basta um simples exame desse problema para
verificarmos que não só jornalistas vêm pregando apenas fatos negativos, não se
vê nada do aspecto positivo, apresentando miséria, apresentando problemas, e
sem apresentar, inclusive, soluções."
"Eu quero fazer um apelo ao senhor governador. O
jornalista está errado ou então o jornalista está certo, o que não pode
perdurar é esta omissão, tanto por parte do senhor secretário de Cultura do
Estado como também do senhor governador. É preciso mais do que nunca uma
providência a fim de que a tranquilidade volte a reinar não só nesta casa
[Câmara] mas principalmente nos lares paulistanos."
Trechos de discurso do então parlamentar José Maria Marin
proferidos em 1975 apenas 16 dias antes da morte do jornalista Vladimir Herzog,
da TV Cultura

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