Ex-presidente já deu inúmeras provas de que seu maior
objetivo é salvar a própria pele
Está dentro do regramento legal brasileiro a Justiça tomar
medidas preventivas contra Jair
Bolsonaro. Em sua petição, a Procuradoria-Geral da República (PGR)
solicitou “novas medidas cautelares que possam assegurar a aplicação da lei
penal e evitar a fuga do réu”. O ministro Alexandre
de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), decretou que Bolsonaro
terá de usar tornozeleira eletrônica, não poderá falar com diplomatas nem com
seu filho Eduardo
Bolsonaro, não poderá usar redes sociais e será obrigado a ficar em
casa à noite e aos fins de semana.
A decisão de Moraes está baseada no que ele considera
“claros e expressos atos executórios e flagrantes confissões da prática de atos
criminosos” com o objetivo de obstruir as investigações e atentar contra a
soberania nacional. Está implícita, porém, a tentativa de evitar que ele busque
asilo político numa embaixada ou saia do país ilegalmente antes do fim do
julgamento em que é acusado de tentar dar um golpe de Estado. Seria uma
desmoralização para o Judiciário e um mau exemplo para o futuro se ele conseguisse
driblar decisão de tamanha relevância para a democracia brasileira.
Em qualquer tempo ou circunstância, seriam
necessários cuidados extras. No caso específico de Bolsonaro, não faltam razões
para desconfiar de suas intenções. Em 2024, quatro dias depois que seu
passaporte foi confiscado, ele foi à embaixada da Hungria, país governado pelo
aliado ideológico Viktor Orbán, e lá ficou por dois dias. Na época nem era réu.
Em março deste ano, seu filho Eduardo transferiu-se para os Estados Unidos,
onde tem feito campanha intensa para convencer as autoridades americanas a pressionar
o Judiciário brasileiro. Não escapou ao STF Bolsonaro ter enviado R$ 2 milhões
para ajudar o filho. “As postagens realizadas e a vultosa contribuição
financeira encaminhada são fortes indícios do alinhamento [de Bolsonaro e
Eduardo]”, escreveu Moraes.
Com Donald Trump na Casa Branca, o uso do asilo político
para livrar Bolsonaro é uma possibilidade concreta. Trump começa a carta em que
ameaça impor 50% de sobretaxa a importações do Brasil chamando o julgamento de
“caça às bruxas” e exigindo seu fim. Em nova carta a Bolsonaro, afirmou: “Tenho
visto o tratamento terrível que você está recebendo nas mãos de um sistema
injusto”.
Em nenhuma das ocasiões, Bolsonaro denunciou a intromissão
na soberania nacional. Pelo contrário. Agradeceu e registrou seu “respeito e
admiração pelo governo dos Estados Unidos”. Eduardo também agradeceu a Trump e
exaltou seu papel. Nesta semana, foi além: reiterou seu apoio às tarifas e
afirmou ser “mais fácil um porta-aviões chegar ao Lago Paranoá” que as
lideranças brasileiras serem recebidas para negociar o tarifaço. Ora, é um
absurdo celebrar tarifas impostas ao país ou fazer esse tipo de ameaça velada.
O Planalto faz bem em manter a serenidade e tentar negociar, afinal as tarifas
são prejudiciais aos próprios americanos.
Um dos denunciados pela trama golpista revelou, ao lado de
Eduardo, que a Casa Branca consultou ambos sobre a possibilidade de asilo nos
Estados Unidos, mas a hipótese foi descartada. Dada a fuga recente da deputada
bolsonarista Carla Zambelli, as autoridades brasileiras fazem bem em se
precaver. Bolsonaro deu inúmeras demonstrações de que seu maior objetivo é
salvar a própria pele. Por isso mesmo deve cumprir as determinações da Justiça.

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