No rastro do esdrúxulo conceito de Escola Sem Partido,
pais conservadores buscam interferir no conteúdo didático
Nos últimos meses, escrevo um livro sobre a censura na época
do regime militar: um show de horrores, felizmente dinamitado pela volta da
democracia. Além de centenas de canções, cerca de 500 títulos foram proibidos
de chegar ao público — como o romance “Zero”, de Ignácio de Loyola Brandão, e
os contos de “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca. Em geral, o argumento, quando
havia, era ferir “a moral e os bons costumes”.
Na São Paulo de 2025, 40 anos depois do final da ditadura, a
Prefeitura da cidade reinstituiu a censura ao arrepio da lei. São vários os
casos. Cinco dias antes de seu início, a 7ª Flipei (Feira Literária Pirata das
Editoras Independentes) recebeu comunicado da Fundação Theatro Municipal de que
o evento fora cancelado. O diretor Abraão Mafra não dourou a pílula: a
proibição ocorria “em razão do uso político por parte dos organizadores”.
Diante da proibição, os produtores levaram
a feira para outros espaços. Participaram cerca de 180 editoras, e estavam
previstos 40 encontros com temas como “África vermelha e a luta
pan-africanista”, “Combatendo o realismo capitalista” e “Sugados pelo algoritmo:
a luta de classes na Era Digital”. Nos bastidores, afirmava-se que o motivo da
censura se encontrava na presença do professor e historiador israelense Ilan
Pappé na mesa “Genocídio sionista e resistência na Palestina”. Pappé, quando
esteve dias atrás na Flip, contou que diferentes lobbies tentaram impedir sua
participação. De novo, em São Paulo, não conseguiram calá-lo. Ele acusa o
governo de Benjamin Netanyahu de cometer genocídio na Faixa de Gaza.
A censura se tornou recorrente, e a questão palestina
incomoda a Prefeitura paulistana. Há pouco, na Semana do Rock na Praça do
Patriarca, centro antigo de São Paulo, a apresentação da banda Sophia Chablau e
Uma Enorme Perda de Tempo foi bruscamente interrompida. Na cara de pau, a
Secretaria de Cultura do município confessou: o painel de LED foi desligado e o
som reduzido preventivamente, após falas e projeções que feriram cláusulas
contratuais com ofensas direcionadas a terceiros.
O incômodo dos barnabés ocorreu pelo desfraldar de bandeiras
palestinas no palco durante as canções. Poucos dias depois, manifestação
bolsonarista na Avenida Paulista, com parcos 36 mil quintas-colunas, incensava
Donald Trump e ameaçava o Xandão. O rega-bofe, apesar de palavrões contra o
ministro, ocorreu sem ser admoestado.
O atual prefeito, Ricardo Nunes, ganhou a eleição no ano
passado apoiado pelo governador bolsonarista Tarcísio de Freitas, em cuja
administração a polícia ficou conhecida pelo aumento na letalidade —
principalmente contra jovens e pretos. Tarcísio e Ronaldo Caiado disputam o
título de “Rambo da extrema direita”. Nunes, autodeclarado adepto de
harmonização facial, traz a São Paulo a prática da censura cultural comum aos
seguidores do capitão.
Entre eles, como ocorreu com os nazistas, há um problema
ligado aos livros. No rastro do esdrúxulo conceito de Escola Sem Partido, pais
conservadores buscam interferir no conteúdo didático. Títulos diversos são
perseguidos, quase sempre sob uma alegada indisposição diante de questões de
diversidade e gênero. Em Porto Alegre, cidade de Mário Quintana, “Diário de
Anne Frank” foi considerado inadequado para a leitura dos alunos. O problema se
relacionava à descoberta da sexualidade pela garota judia durante o Holocausto.
Por sorte, a Prefeitura não cedeu ao atraso. Menor sorte teve “O avesso da
pele”, de Jeferson Tenório, banido de escola estadual de Brusque, em Santa
Catarina (durante a guerra, identificada pelos simpatizantes do Eixo como
“Alemanha Austral”), após uma denúncia anônima: o personagem negro fala da
morte do pai assassinado pela polícia.
Existem outras aberrações de censura praticadas por bolsões
bolsonaristas Brasil afora, até então restritas ao trinômio classe, gênero e
raça. A questão palestina, embora a extrema direita aprove qualquer ato de
Netanyahu, traz nova tintura às proibições. Ela se dá diante do público, com
plateia presente e sem prurido dos algozes. Escapa à política e entra no
terreno da ignorância ao desconsiderar que a literatura sempre será política —
seja o Antigo Testamento com seus parricídios e incestos, seja Madame Bovary ao
descrever o desejo sexual da entediada Emma.
A Constituição de 1988 não permite a censura, defende a
liberdade de expressão. Quando um banal barnabé proíbe uma feira ou uma mesa de
debates, comete crime e usa o poder do Estado contra o cidadão que o paga para
receber proteção. Não à toa, o capitão sente saudade da ditadura militar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário