Um amigo editor de uma revista portuguesa pediu um artigo
sobre o Brasil. Escrevi a respeito da crise, mostrando o que o país tem de bom
para garantir sua soberania: florestas, água, minerais estratégicos, alimentos,
uma lista invejável.
Depois de enviar o artigo, me dei conta de que não abordei
como deveria o que me parece a grande novidade na situação política nacional.
Parece que ela mudou completamente. Estávamos acostumados com a polarização
entre o governo e a oposição bolsonarista. De repente, entrou em cena um ator
gigantesco: o governo americano de Donald Trump.
A oposição bolsonarista deixou sua condição de protagonista e se tornou
coadjuvante. Ela celebra ações americanas e se dedica a anunciar novas
incursões punitivas. Tarifaço, supressão de vistos, Lei Magnitsky, e alguns
deliram com a possibilidade de fechamento de bancos e desligamento do Waze.
Parecem meninos que se agarram na perna do irmão mais velho que vai brigar por
eles.
O resultado disso é que o problema da soberania nacional se
tornou decisivo e deverá influenciar fortemente as próximas eleições. Isso
fortalece o favoritismo de Lula. A intromissão americana no Brasil é rejeitada
pela maioria, ao contrário da Venezuela, onde há uma ditadura, e a eleição foi
roubada.
Se o risco de o governo perder as eleições se tornou menor,
outros riscos se apresentam no horizonte. Um deles é fantasiar a China como
aliado solidário, esquecendo que se trata de uma potência com seus interesses
estratégicos bem definidos. No momento, a China negocia com os Estados Unidos a
compra de soja americana, o que seria uma perda para os exportadores
brasileiros. O ideal para o Brasil é diversificar, fechando o acordo
Mercosul-Europa e ajustando sua posição ainda meio ambivalente sobre a guerra
na Ucrânia.
Outro perigo é confundir governo Trump com os Estados Unidos
e se perder num antiamericanismo estéril. Nem todos concordam com a política
para imigrantes, universidades, cientistas, nem com como Trump atropela o
sistema legal do país. A verdade é que a resposta ainda é tímida, houve alguma
capitulação, mas há uma lenta tomada de consciência.
Um terceiro perigo é entender a questão da autonomia
nacional como algo principalmente retórico, subestimando os passos objetivos
para que ela possa se afirmar. Há muito o que fazer em infraestrutura digital,
redes de alta velocidade, satélites, data centers. O cargo de ministro das
Comunicações não pode ser mais algo que se barganhe com o Centrão, como se não
tivesse nenhuma importância estratégica.
Finalmente, uma vez que o tema é muito vasto, é preciso
tomar consciência da dimensão do adversário que entrou em cena. É simplesmente
o mais poderoso do mundo. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos derrubaram
70 governos, em operações abertas ou clandestinas. Trump assinou um decreto
autorizando o Exército a fazer operações contra o tráfico nos países
latino-americanos, independentemente da autorização de governos. Logo teremos
problemas na fronteira norte, com a Venezuela.
Artigo publicado no jornal O Globo em 19 / 08 / 2025

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