Tarifas são usadas como uma alavanca para atingir
objetivos políticos
À espera de um provável recrudescimento das relações entre
Brasil e Estados Unidos, pode ser útil a leitura de um discurso feito
recentemente pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, durante jantar
de gala no “think tank” conservador American Compass. Ocorrida em junho, a fala
não repercutiu no Brasil. Mas joga luz sobre a estratégia do governo Donald
Trump, suas origens e potenciais consequências. É o novo estilo de vida
americano.
Rubio se mostra convencido de que uma das razões pelas quais
a história se repete é porque a natureza humana não muda. E uma das
características do ser humano é o desejo de pertencimento, o qual evoluiu e se
vê representado no conceito de Estado-nação. Isso molda cada vez mais como as
decisões geopolíticas são tomadas, argumenta.
Criticando o fato de que o fim da Guerra
Fria levou muitos a imaginar que o mundo inteiro iria virar uma democracia de
livre mercado e que o conceito de nação já não importava mais para a economia,
disparou contra a globalização. Chamou de irrealista e destrutiva a ideia de
que perder uma fábrica não seria prejudicial, uma vez que os trabalhadores
poderiam aprender a programar códigos e ganhar mais dinheiro. Responsabilizou-a
por fechar empregos, destruir comunidades inteiras e minar a capacidade industrial
americana. Capacidade essa, frisou, que sempre foi uma questão de segurança
nacional.
Para ele, depois de décadas de negligência, os EUA vivem uma
situação em que não apenas têm uma economia mais debilitada como também
apresentam uma posição mais fraca no mundo. Como exemplo, mencionou a
dependência de matérias-primas e da indústria de países que podem ser
adversários, sobretudo a China. “Isso virou vulnerabilidade geopolítica”,
sublinhou, acrescentando que exatamente por isso uma prioridade do governo
Trump é reorientar as políticas doméstica e externa para assegurar que os EUA
não se tornem reféns em questões essenciais, como alimentos e indústrias
estratégicas.
Segundo o chefe da diplomacia americana, no passado os EUA
às vezes aceitaram desvantagens comerciais para fortalecer aliados contra o
comunismo. Mas isso tornou-se um padrão até mesmo com países desenvolvidos, que
agora será corrigido.
Portanto, assim como fazem outras nações, a política externa
deve priorizar sempre o interesse nacional dos EUA. “Isso não é isolacionismo.
É bom senso”, disse, acrescentando que, quando os interesses dos EUA não se
alinharem com os de outros países, que cada um siga seu caminho - de
preferência de forma pacífica. “Esse é o trabalho da diplomacia.”
Essas palavras abrem caminho para algumas conclusões.
Sim, como pontuou nessa terça-feira (26) o chanceler Mauro
Vieira, a ordem mundial está sendo desmontada pelos EUA. E é isso o que eles
querem. Não é porque formularam e sustentaram até agora a ordem vigente que
isso significa que o governo Trump se comprometerá a mantê-la. Ele elegeu-se
com um discurso contrário a ela, cercando-se de pessoas comprometidas a
executar essa plataforma. Já demonstrou disposição de utilizar todos os meios
possíveis para moldar a máquina pública a fim de atingir seu objetivo, seja
demitindo servidores públicos ou intervindo em órgãos federais.
É um fato que a pressão empresarial, em articulação com a
diplomacia brasileira, obteve sucesso ao assegurar a exclusão de quase 700
itens da lista de produtos que passaram a pagar 50% de taxa. Mas não adianta o
Brasil argumentar que o tarifaço irá gerar mais inflação nos EUA: o que está
sendo perseguido por Washington é um conjunto de resultados de longo prazo,
mesmo que surjam durante esse percurso efeitos negativos, como uma alta
temporária dos preços. Tudo indica que tentar dar aula de economia à Casa Branca
não irá funcionar.
Com uma decisão centralizada no próprio presidente, as
tarifas são usadas por Trump como uma alavanca para atingir objetivos
políticos. Ele não dá sinais de que irá recuar e, diante da iminência do
julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a expectativa é que as
relações bilaterais se deteriorem ainda mais.
A esquerda menosprezou a capacidade da direita se articular
no exterior e não está encontrando espaço para emplacar uma narrativa
alternativa que comova a opinião pública. Diante disso, o próprio ministro do
Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes fez suas investidas ao dar
entrevistas, mas a eficácia dessa tática ainda precisará ser observada na
prática.
Nesse contexto, é estratégia de quem anuncia sanções fazê-lo
de forma genérica. Como era de se esperar, bancos e empresas brasileiros não
sabem exatamente o que fazer para cumprir a Lei Magnitsky, aplicada, por
enquanto, contra Moraes. E não receberão um manual. Interessa a quem aplica uma
sanção que as partes interessadas façam um esforço máximo de “compliance” logo
de saída, até porque monitorar mundo afora todos os sancionados demanda tempo e
recursos humanos.
Retratação
Na semana passada, esta coluna asseverou que o vento
começava favorável para o governo na CPMI do INSS. Como se soube depois,
enquanto aquele texto era escrito, uma silenciosa e bem-sucedida articulação
era feita pela oposição para tomar o controle da comissão.
Brasília tem enfrentado vendavais capazes de surpreender
qualquer meteorologista. Até mesmo a célebre frase do ex-presidente da Câmara
dos Deputados Ulysses Guimarães, segundo a qual “CPI a gente sabe como começa,
mas não sabe como termina”, tem enfrentado dificuldades para sobreviver às
intempéries. Não se sabe mais nem como uma CPI irá começar.

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