A momentânea crise entre Brasil e EUA colocou a soberania no
topo da agenda. É o tema central do discurso do governo, deve se tornar slogan
e, possivelmente, ocupar um espaço de destaque na campanha presidencial. Mesmo
sem subestimar a importância simbólica da soberania com seus discursos e bonés,
é preciso aproveitar a oportunidade para um exame objetivo da real
independência de um país. De nada adianta apenas cantar: “Ou ficar a pátria
livre ou morrer pelo Brasil”. É preciso examinar, serenamente, os caminhos da
soberania, e isso inspira um bom debate para o ano eleitoral que se aproxima.
Um dos temas que me parecem não resolvidos na nossa
soberania é o controle efetivo do território. Importantes cidades como o Rio de
Janeiro são parcialmente dominadas por grupos armados que impõem suas próprias
leis. Uma orientação soberana seria reconquistar essas áreas e liberar milhões
de pessoas do jugo do crime organizado. Mesmo o controle efetivo das fronteiras
e um pacto de defesa com países amazônicos é essencial porque a Amazônia,
principalmente, também tem importantes bolsões dominados pelo tráfico de
drogas, animais e contrabando.
Para ser soberano, é também necessário ter uma capacidade de
defesa própria, com uma indústria bélica nacional, inteligência estratégica e
capacidade de dissuasão. O Congresso tem se omitido na discussão desse tema.
Durante a pandemia, constatamos num momento de grande dramaticidade que não
tínhamos insumos médicos nem equipamentos para enfrentar a tragédia. Já que o
tema é soberania, as eleições de 2026 deveriam fazer um balanço em nossa
vulnerabilidade: é menor hoje, quais são os passos para reduzi-la?
No campo tecnológico e digital temos enfatizado o controle
das big techs, submetendo-as às leis nacionais. É um importante
aspecto da soberania. Mas precisamos desenvolver a capacidade de produzir
alguma tecnologia própria (semicondutores, IA, satélites). Nesse caso,
estaríamos mais protegidos diante da possibilidade de boicote. Tenho escrito
sobre isso e talvez a campanha presidencial possa ser um espaço de discussão do
tema.
Outro tema que pode suscitar algum debate é o controle sobre
os recursos naturais. O Brasil caminha para uma transição energética. Pode ter
energia abundante e barata. Mas é preciso ter um controle maior de seus
recursos: água, florestas e minerais estratégicos. Estes estão na ordem do dia.
O Brasil precisa ter um levantamento completo dos minerais estratégicos. E uma
política de exploração. Dificilmente, será algo estreitamente nacional. Como já
não é a esta altura embrionária. Em Goiás, a Serra Verde Mining, que explora
terras raras, é de capital norte-americano. Recentemente, o The New
York Times revelou que o Brasil e os EUA estudavam um projeto conjunto
de mapeamento e exploração desses minérios. Não só o tarifaço, como a
hostilidade e a desconfiança entre os governos dificultaram a continuidade
dessas conversações.
A ideia de soberania não é contraditória com o
multilateralismo. Na verdade, eles podem se reforçar mutuamente. Neste momento
de recomposição internacional, quase todos os atores nacionais estão em
movimento, se reajustando. São as chances de o Brasil avaliar sua soberania no
novo quadro. No caso militar, por exemplo, a dependência dos EUA precisará ser
superada com abertura para a Europa, embora o momento não seja bom: os europeus
estão se rearmando. Enfim, como a soberania subiu ao topo da agenda, fica a esperança
de um bom debate em 2026. Essa esperança existe sempre, mas sempre se frustra.
Agora, pelo menos, temos um fio condutor: soberania, quero uma para votar. É
possível discutir o tema sem um antiamericanismo estéril. Da mesma forma, não é
preciso, como diz o governador Tarcísio, dar uma vitória a Trump. Ele é de um
narcisismo sem fim. Basta dizer que se interessa pelas guerras do mundo porque
gostaria de ter um Prêmio Nobel da Paz.
As sanções políticas como a Lei Magnitsky também podem nos
levar a uma reflexão sobre nosso sistema financeiro. Até que ponto pode se
tornar relativamente autônomo, sem uma dependência excessiva de moedas ou
bancos estrangeiros?
A verdade é que o tema soberania abre uma avenida para
grandes debates e seria uma pena que se limitasse apenas ao lado simbólico das
manifestações de afeto pelo Brasil. Se assim acontecer, de uma certa forma
vamos ver a passagem de Trump como algo que nos estimulou a avançar, ao invés
de ficarmos apenas estupefatos com suas loucuras.
Ele nos colocou num dilema: voltar ao velho discurso
nacionalista ou afirmar um projeto soberano que é, na verdade, um antídoto ao
isolamento e um passo a mais na maturidade democrática?
Não se trata de um projeto apenas de esquerda ou apenas do
tipo Yankees, go home do passado. Na verdade, por mais que tenhamos
a tendência de acionar mecanismos passados, eles simplesmente ignoram que o
passado passou. Não estamos na revolução industrial, com estradas de ferro e
fábricas: hoje as big techs dominam e analisam nossos dados –
o que vale uma discussão sobre como trazer isso ao espaço público.
Um projeto de soberania significa também um alto nível de
unidade nacional, uma oportunidade de superação de uma atmosfera polarizada.
Vê-lo como um simples ativo eleitoral envolto numa superfície politicamente
mercadológica é uma forma de reduzir nosso futuro.
Artigo publicado no jornal Estadão em 29 / 08 / 2025

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