Trump impôs seu jogo, viu os danos causados à economia
americana e agora começa a recuar, comenta um diplomata brasileiro
Na pose captada pelo fotógrafo oficial da Presidência,
Ricardo Stuckert, a diferença de mais de 20 centímetros de altura, disfarçada
pelas poltronas, aparece e é acentuada pelo lendário topete louro do presidente
americano, que o deixa ainda mais alto. A altura não é o único atributo que
sobressai em Donald Trump. O sorriso do presidente americano na pele bronzeada
artificialmente deixa à mostra todos os dentes, enquanto o do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva os deixa escapar mais discretamente. É ainda a mão do
presidente americano que envolve a do colega brasileiro.
Naquela reproduzida pela Casa Branca o sorriso de Trump é
ainda mais largo e os poucos dentes mostrados por Lula somem numa atitude mais
apreensiva. A postura do presidente americano se traduz na frase usada para
sintetizar o encontro nas suas redes oficiais: “Foi uma grande honra estar com
o presidente do Brasil... Acho que seremos capazes de fazer bons acordos para
nossos países... sempre tivemos uma boa relação - e acredito que isso deve
continuar”.
As fotos foram produzidas depois da reunião
que, ao longo dos dez primeiros minutos, foi aberta à imprensa. Enquanto Lula,
recostado na poltrona, confortavelmente, olha para a câmera, Trump se mantém
inclinado em sua direção. Foi assim, de fato, que permaneceram a maior parte do
tempo em que durou a maior parte pública do encontro. Lula só se moveu para
abrir os braços, como quem diz “não acredito”, quanto a jornalista Raquel
Krahenbul, da TV Globo, perguntou se o ex-presidente Jair Bolsonaro seria tema
da reunião (“Não é da sua conta”, respondeu Trump). E, por fim, Lula adotaria a
mesma inclinação de Trump para reclamar com os jornalistas do tempo que lhes
estavam roubando da reunião.
Foram nove meses, desde a posse de Trump, e quase quatro
meses desde o tarifaço de 50%, para que essa imagem fosse produzida. Não
surpreenderá se for repetida à exaustão. Ao longo desse período, o bolsonarismo
deitou e rolou na interlocução com o governo americano. A ponte entre Brasil e
EUA ficou por conta do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e do influenciador
Paulo Figueiredo, que, além das tarifas, arrancaram a aplicação da Lei
Magnitsky e a revogação de vistos de autoridades brasileiras, colocando o país
ante uma hostilidade inédita dos americanos.
Era, sobretudo, essa imagem que o governo brasileiro estava
a perseguir. Se pretendesse avançar nos temas técnicos, até mesmo no encontro
entre ministros que se seguiu àquele com a presença dos dois presidentes, o
Itamaraty teria levado seus secretários mais técnicos do Itamaraty, da Fazenda
e da Indústria e Comércio. Tanto o chanceler Mauro Vieira quanto o
secretário-executivo do MDIC, Marcio Rosa, ressaltaram o tom de uma aproximação
eminentemente política - do interesse de Trump sobre o período em que Lula
ficou preso à disposição do presidente brasileiro em se colocar como mediador
dos conflitos entre os EUA e a América Latina. Essa descompressão era o que o
segundo escalão precisava para marcar os encontros que devem acontecer ao longo
do mês de novembro para discutir os contenciosos.
O encontro se produziu num momento em que Trump viajou para
a Ásia aparentemente disposto a rever a impulsividade com a qual tem se
conduzido na sua política tarifária. Sinalizou que se encontrará com o
presidente chinês, Xi Jinping, provavelmente na próxima quinta, durante o
encontro de cooperação econômica dos países asiáticos, na Coreia do Sul. Na
definição de um embaixador brasileiro, Trump impôs seu jogo, viu os danos
causados aos produtores americanos de soja, à indústria dependente dos minerais
raros, à inflação afetada pelo tarifaço sobre produtos como carne e café, e às
cadeias produtivas de uma maneira geral, e, agora, começa a recuar. É quase tão
simples assim.

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