Nova direita que tensiona as salvaguardas das democracias
liberais tem levado cientistas sociais a buscar explicações para sua ascensão
A emergência de uma nova direita que tensiona as
salvaguardas das democracias liberais tem levado cientistas sociais a buscar
explicações para sua ascensão. Há muitas hipóteses em circulação. Duas delas —
muito diferentes, quase opostas — foram debatidas nos últimos dias a partir de
duas reportagens na imprensa inglesa: uma no Financial Times, outra no
Guardian. Ambas comentam pesquisas empíricas que tentam entender o que levou à
centralidade política da direita radical: a grande presença da agenda de direita
no debate público ou a ausência de alternativas de direita no sistema político.
A primeira pesquisa foi realizada por um pesquisador da
Universidade de Toulouse, Laurenz Guenther. Ele argumenta que as votações
expressivas de partidos de extrema direita na Europa devem-se ao fato de serem
os únicos que oferecem respostas a preocupações dos eleitores em temas como
imigração.
A Alemanha de 2013 é um bom exemplo. Naquele ano, ainda não
havia um partido populista de direita relevante. O Alternativa para a Alemanha
(AfD) já existia, mas ainda não era nem populista nem fortemente
anti-imigração. Ao mesmo tempo, crescia enormemente o número de imigrantes e
refugiados que chegavam ao país. Muitos alemães queriam reduzir a imigração,
mas nenhum dos principais partidos políticos oferecia propostas para isso.
Havia, assim, grande descompasso entre os eleitores e os parlamentares. Para medir
essa discordância, os pesquisadores perguntaram, em 2013, a amostras
representativas de parlamentares e cidadãos comuns:
— Deveria ser mais fácil ou mais difícil para estrangeiros
imigrar?
As respostas (no gráfico acima) variavam de 0 (“muito mais
fácil”) a 10 (“muito mais difícil”). Enquanto parcelas grandes de eleitores
(barras azuis) queriam que a imigração se tornasse mais difícil, os
parlamentares dos quatro principais partidos (traços coloridos) queriam
torná-la mais fácil — um desalinhamento notável. Guenther argumenta que, como
os partidos tradicionais não ofereciam respostas à inquietação da população, os
eleitores terminaram nos braços dos radicais de direita, os únicos a oferecê-las.
A segunda pesquisa foi conduzida por dois
pesquisadores do Centro de Pesquisas Sociais de Berlim, Daniel Gonzatti e
Teresa Völker. O estudo analisa como a extrema direita influenciou a agenda
política dos partidos tradicionais na Alemanha entre 1994 e 2021, examinando
mais de meio milhão de artigos de jornal. Os pesquisadores descobriram que, ao
longo do tempo, os temas tratados pela extrema direita — como imigração,
islamismo, integração e racismo — passaram a aparecer com mais frequência
também no discurso dos partidos convencionais. De acordo com eles, ao responder
às pautas da extrema direita, mesmo que para criticá-las, os partidos
tradicionais reforçaram a importância desses temas e contribuíram, ainda que
involuntariamente, para sua legitimação no debate político alemão.
Os dois artigos trazem sugestões opostas. O primeiro sugere
que os partidos convencionais deveriam responder às preocupações do público,
oferecendo políticas razoáveis para reduzir a imigração, para que os eleitores
não se tornem reféns dos radicais. O segundo sugere o contrário: que os
partidos deveriam ignorar as questões trazidas pela extrema direita para não
legitimar sua agenda no debate público respeitável.
Uma parcela expressiva do eleitorado, em diferentes países,
abriga posições mais à direita em temas como imigração ou segurança. Quando
partidos de esquerda e de centro (inclusive centro-direita) se recusam a
discutir essas inquietações, não negam legitimidade a elas — na prática, abrem
espaço a que apenas os radicais as explorem. O resultado é o oposto do
pretendido: ao evitar o debate, transfere-se aos extremos o monopólio da
representação dessas demandas e, com isso, confere-se legitimidade política justamente
ao radicalismo que se buscava conter.

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