Toda identidade é uma ilusão que produz efeitos reais,
demarcatórios, com eventual papel político num contexto opressivo
Obsessão com marcadores (cor, religião, gênero) é
autodefesa regressiva de vozes minoritárias
Para uma parcela atenta da comunidade afro-brasileira, foi auspiciosa a entrega das
credenciais do diplomata Silvio Albuquerque como novo embaixador brasileiro ao
rei Filipe da Bélgica. Em princípio, uma cerimônia protocolar.
Entretanto, reiteração histórica de meados do século 19,
quando o baiano Francisco Jê Acaiaba Montezuma credenciou-se
como ministro plenipotenciário (embaixador) junto ao Império Britânico. Um
descompasso revelador: foram necessários dois séculos para que um homem negro
voltasse a representar o Brasil num país europeu.
Nesse longo intervalo houve a nomeação de
Raymundo Souza Dantas por Jânio Quadros (1961) para embaixador em Gana.
Não era diplomata de carreira. A amargura pontua seu balanço do périplo
africano: "Procuram criar toda espécie de obstáculos em meu caminho,
dificultando ainda mais o desempenho de funções que já são difíceis por
natureza (...) Sei que não conto com quem quer seja no Brasil, que no Itamarati
não tenho cobertura, que o presidente da República nem se lembra de suas
Missões em África, que ninguém nos atribui importância."
Isso é racismo:
espelhamento social do sonho elitista de uma sociedade com povo uno e depurado
da "mancha da escravidão" (expressão de Ruy Barbosa). Na tradição
"estética" da seleção para a carreira diplomática, a regra interna
era a imagem do Brasil como país de "belos homens brancos", palavras
do Barão do Rio Branco, o patrono. A regra foi depois modulada por raça como
obstáculo à visibilidade aceitável. Deslocou-se feiura para cor da pele.
Nenhum identitarismo nos dois episódios, em que agora o
passado se projeta positivamente no presente. Francisco Jê era homem público de
elevada formação acadêmica, pertencente à elite negra no Segundo Reinado.
Sílvio Albuquerque, intelectual da nova geração, teve desempenho notável à
frente da embaixada do Brasil no Quênia, a maior economia da África Oriental e
Central. Não precisaram de legitimação identitária para o reconhecimento
oficial de suas altas competências.
Isso suscita ponderação. Toda identidade é uma ilusão que produz efeitos reais,
demarcatórios, com eventual papel político num contexto opressivo. Mas a
obsessão com marcadores (cor, religião, gênero, nação) é autodefesa regressiva
de vozes minoritárias, um bunker sem pontes. A fixação num único critério
cultural paralisa o pensamento crítico. Detrás dessa ilusão, entretanto, podem
agitar-se a realidade e o etos de uma justa luta civil, não subsumida à luta de
classes, pois esse conceito não esgota o de relação racial. É quando identidade
funciona como degrau tático.
Dessa movimentação emancipatória surgiram os compromissos
assinados pelo Brasil na Terceira Conferência Mundial contra o Racismo, em
Durban, na África do Sul, em 2001. Igualmente, políticas de ação afirmativa. É
luta necessária porque a dimensão racista do poder se expande no mesmo passo da
política de direita. Daí a relevância dos ventos de diversidade na visibilidade
externa, quando o Brasil mostra a sua cara. Um tapa no pacto machista de
branquitude em torno do STF: é a vez
da mulher!

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