O episódio do ataque à tornozeleira deixa o ex-presidente
ainda mais enfraquecido politicamente
Preso e inelegível, o ex-presidente Jair
Bolsonaro está duplamente fora do jogo político. Está muito próximo o
fim do prazo dos embargos e o início do cumprimento da longa pena a que foi
condenado. “Os prazos conduzem a isso”, disse uma fonte sobre a perspectiva de
Bolsonaro seguir da prisão preventiva para o cumprimento da pena, sem voltar à
prisão domiciliar. O episódio revela um personagem que lembra o realismo
fantástico latino-americano. Um ex-presidente que imaginava estar acima da lei,
com uma solda na mão, insone, no meio da noite, tortura uma tornozeleira para
que ela confesse ter uma escuta embutida. Preso, alega delírio persecutório.
Ainda não foi batido o martelo de onde ele
cumprirá a sua pena. Pela lei, teria que ser num estabelecimento penal, no
caso, a Papuda. Mas há quem avalie no Supremo que isso tem um simbolismo
grande, e pode parecer perseguição. Os militares não querem que o cumprimento
da pena seja num quartel. “Aceitam os seus, ou seja a Marinha e o Exército,
concordam que os generais e o almirante cumpram a pena em estabelecimento das
forças, mas não Bolsonaro”, explicou uma fonte. A Polícia Federal ficaria sendo
o local, por eliminação.
O cumprimento da pena leva Bolsonaro ao ostracismo, mas a
força política que ele galvanizou permanece com uma fatia relevante do
eleitorado. O ex-presidente levou a direita brasileira a assumir um pensamento
golpista do qual ela ainda não soube, ou não quis, se afastar. A direita tem
muitos pré-candidatos e nenhum ungido para ser o herdeiro do movimento que Jair
Bolsonaro representa. Uma herança que é em parte tóxica. Vem com votos dos
seguidores do ex-mandatário, mas ao mesmo tempo com uma alta rejeição. Os
candidatos mais competitivos, como o governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas, hesitam em se afastar das ideias golpistas do ex-presidente. O
problema é que a condenação de Bolsonaro é por crime de atentar contra as
instituições democráticas. Em nenhum momento, o governador paulista deu aos
eleitores de centro, que gostariam de vê-lo na corrida presidencial, um motivo
para achar que ele condena esse atentado à ordem democrática praticado pelo seu
mentor Jair Bolsonaro.
O episódio do ataque à tornozeleira, com uma solda,
evidentemente deixa o ex-presidente mais enfraquecido. E isso o seu partido já
sente. Compromete também a estratégia de tentar uma anistia via Congresso. Uma
pessoa que não tem o mínimo respeito à lei a esse ponto fica mais difícil de
defender. No voto em favor da manutenção da prisão preventiva, o ministro Flávio Dino lembra
ter sido o relator da lei que estabeleceu as tornozeleiras eletrônicas.
“Assisti a tal lei nascer, tendo tido a honra de relatá-la na Câmara dos
Deputados e acompanhei subsequentemente a sua grande evolução, chegando
atualmente a aproximadamente 120 mil tornozeleiras eletrônicas ativas, não
sendo aceitável que justamente um ex-presidente da República com a sua grande
projeção pública, tente violar e desmoralizar tão exitoso sistema”, escreveu
Dino em seu voto.
O ministro Alexandre
de Moraes, no seu voto de ontem, pela manutenção da prisão preventiva — que
foi seguido pelos outros ministros — disse que havia risco de fuga, diante da
iminência do trânsito em julgado e com a rejeição unânime dos embargos. Esse
entendimento reduz a possibilidade de volta do réu para casa. Jair Bolsonaro
está preso e preso ficará por muito tempo, em regime fechado, porque foi
condenado.
O Brasil está entrando em terreno novo, ao levar para a
cadeia um ex-presidente da República que, acumpliciado com lideranças
militares, tentou acabar com a democracia. Começará em breve o longo inverno de
Bolsonaro. Resta aos políticos do seu grupo, e seu clã, reorganizar as forças e
saber o que fazer. Até agora tudo deu errado.
A estratégia de mobilizar o governo americano contra a
economia brasileira produziu perdas econômicas iniciais, mas o uso eficiente da
diplomacia e do diálogo está desfazendo todo o ataque tarifário ao Brasil. A
ideia de que a Casa Branca poderia impor o fim do processo contra Jair
Bolsonaro fracassou totalmente. Ontem a edição do "The New York
Times" trouxe um artigo assinado pelo jornalista Jack Nicas com o título,
“Brasil desafiou Trump e venceu”. Diz que quando Trump decretou as tarifas de
50% contra o Brasil, Bolsonaro foi visto como o grande vencedor, mas está claro
agora que é ele quem mais perdeu.

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