Conheça a história do doce político carioca que virou
símbolo nacional
Em dezembro de 1945 o Brasil finalmente respirava democracia
depois de oito anos de Estado Novo. Na Guanabara, capital federal, o país se
preparava para eleições diretas que prometiam virar a página da ditadura de
Getúlio Vargas. O motivo era claro: como justificar aos pracinhas que voltavam
da Europa, onde haviam combatido heroicamente o nazifascismo,…
Em dezembro de 1945 o Brasil finalmente respirava democracia
depois de oito anos de Estado Novo. Na Guanabara, capital federal, o país se
preparava para eleições diretas que prometiam virar a página da ditadura de
Getúlio Vargas. O motivo era claro: como justificar aos pracinhas que voltavam
da Europa, onde haviam combatido heroicamente o nazifascismo, que sua própria
pátria ainda vivia sob um regime autoritário? Era hora de devolver ao povo o
direito ao voto, e o cenário estava pronto para uma disputa que cariocamente
iria misturar política, militares e… chocolate.
De um lado do ringue, o austero heroico e galã Brigadeiro
Eduardo Gomes, que cativava as moças da alta sociedade com seu slogan “É bonito
e é solteiro”. Do outro, o General Eurico Gaspar Dutra, figura opaca que, em um
duplo twist carpado político, derrubou o regime e depois virou candidato do
mesmo grupo político que mandara fazer as malas.
Até que em meio a chás beneficentes e pequenos comícios em
mansões elegantes uma socialite carioca, Heloísa Nabuco de Oliveira, apresentou
ao mundo sua arma secreta: bolinhas de chocolate feitas de leite condensado,
manteiga e Nescau, enroladas em granulado. Batizaram a iguaria de “brigadeiro”,
em homenagem ao candidato bonitão.
A ideia era angariar votos, mas o destino tinha outros
planos. Alguns podem até dizer que no fim das contas foi o Dutra quem ganhou a
eleição. E estão certíssimos. Mas o grande vencedor naquele dezembro foi um
docinho que pegou carona na campanha, nasceu de um contexto de racionamento, é
um pouquinho filho da popularização do Leite Moça e do Nescau, e o resultado é
um patrimônio cultural gigantesco que nasceu carioca, mas conquistou o coração
e o paladar de toda a nação.
Cheiro de pólvora no ar
O Brasil tem histórias tão controversas, que se não tivessem
existido, nenhum escritor as teria criado. Antes das eleições de 1945, o país
vivia uma dessas situações: na friaca da neve da Europa, os pracinhas combatiam
o nazifascismo enquanto, em casa, havia uma ditadura de inspiração autoritária,
coalhada de simpatizantes do alemão de bigodinho.
Desde 1937, vivíamos sob o Estado Novo de Getúlio Vargas, um
período de oito anos no qual o Congresso foi fechado, os partidos políticos
foram abolidos e os direitos constitucionais, colocados na geladeira e junto
com qualquer oposição mais barulhenta.
Mas a vitória dos Aliados tornou politicamente insustentável
que Vargas continuasse governando sem voto, afinal de contas o discurso da luta
por Liberdade e Democracia havia sido usado como combustível moral para a
entrada na guerra.
Por isso o regime caiu?
Bom, o fim do Estado Novo não veio com um estrondo, mas com
um desgaste que tornou sua sustentação impossível. Como explicar aos pracinhas
que voltavam heroicos que seu próprio país era governado por um regime de
exceção? A contradição era insustentável.
De acordo com o historiador Boris Fausto, a participação
brasileira na Segunda Guerra fez da defesa da democracia um mantra. E assim,
aproveitando-se de uma greve em Minas Gerais, militares, capitaneados por
generais como Góis Monteiro e Gaspar Dutra, deram o ultimato a Vargas.
Em 29 de outubro de 1945, o “pai dos pobres” saiu do Palácio
do Catete pela porta dos fundos, deixando o país entre o alívio e a incerteza.
Uma nova Constituição seria promulgada e eleições diretas convocadas,
encerrando de vez o período autoritário.
As eleições de 1945
A disputa presidencial de 1945 foi um duelo entre brasis.
Pela primeira vez as mulheres puderem votar e 12 partidos se apresentaram à
disputa. Mas os principais candidatos foram Eurico Gaspar Dutra, pelo PSD;
Eduardo Gomes, pela UDN; e Yedo Fiúza, pelo PCB.
O Brigadeiro Eduardo Gomes mais do que um candidato, era uma
lenda viva. Foi, por exemplo, um dos únicos sobreviventes do lendário grupo dos
“18 do Forte” de Copacabana”. Alto, elegante e avesso a populismos, era
conhecido pela imagem de militar austero, íntegro e de princípios
inquebrantáveis. Posteriormente foi reconhecido como o Patrono da Força Aérea
Brasileira.
Contra ele uma contradição ambulante. Gaspar Dutra era
aquele general discreto, disciplinado e opaco. Foi o ministro no Estado Novo,
participou da deposição de Vargas e, paradoxalmente, virou seu herdeiro
político, graças ao apoio do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), a novíssima
legenda criada para canalizar as massas ao getulismo.
Dutra venceu com 55,39% dos votos, Gomes ficou com 34,74% e
Fiúza com 9,71%. Mas para os comunistas foi quase um triunfo. O PCB elegeu 14
deputados federais (entre eles o escritor Jorge Amado) e, o mais notável, um
senhor senador: Luís Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança” eleito pela
Guanabara, então Distrito Federal.
Tudo bem, mas como o doce entra nessa história?
Eduardo Gomes pode ter perdido a eleição, mas deixou marcas
incontornáveis na história do Brasil. Não só pelo hilariante slogan “Vote no
Brigadeiro. É bonito e é solteiro”, que pode não ter funcionado, mas fez
sucesso entre as socialites cariocas de então.
Elas passaram a organizar eventos sociais com o objetivo de
arrecadar fundos para a campanha. E foi numa dessas festas que Heloísa Nabuco
de Oliveira, sobrinha do escritor Joaquim Nabuco, apareceu com um doce feito de
leite condensado, chocolate em pó e manteiga, enrolado em bolinhas e coberto
com granulado.
Momento Leo Dias: Heloísa é bisavó da jornalista Cristiane
Pelajo, que atuou durante 26 anos como apresentadora, entre outras funções, na
Globonews.
Enfim, deram-lhe o nome de “Brigadeiro”, um golpe de
marketing político delicioso que colou imediatamente. Só que havia uma,
digamos, pequena questão.
De problema a solução
Naquele final de 1945 o Brasil, como grande parte do mundo
no pós-Segunda Guerra, enfrentava dificuldades de abastecimento. Ingredientes
como leite fresco e açúcar refinado eram racionados e muito caros. Foi quando
entrou em cena o leite condensado.
Ele substituía várias etapas da confeitaria tradicional de
uma só vez. Já vinha adoçado, tinha textura cremosa e dispensava longos
cozimentos ou técnicas sofisticadas. Isso democratizou a produção, permitindo
até hoje qualquer amador fazer brigadeiros.
Mas, cá pra nós, não foi a Nestlé quem inventou o
brigadeiro?
Definitivamente não. Isso não passa de teoria da conspiração
segundo pesquisadores, como o Luís da Câmara Cascudo em sua História da
Alimentação no Brasil.
Mas, por outro lado, foi sim na virada da década de 1930
para 1940 que a Nestlé começou a produzir em larga escala no Brasil o leite
condensado Moça e o chocolate em pó Nescau, popularizando esses itens que até
então eram importados e elitizados.
A campanha eleitoral de 1945 coincidiu com o momento em que
esses produtos já estavam consolidados nas casas brasileiras. E isso foi
decisivo para a popularização do brigadeiro, já que os ingredientes estavam
acessíveis e prontos para uso.
Sem os icônicos produtos da Nestlé, talvez o brigadeiro
nunca tivesse existido. Mas no fim das contas, o Brasil, mais uma vez, pegou
algo que veio de fora e antropofagicamente transformou numa coisa nossa, sem
igual em nenhum país do mundo.
Não existe nenhuma receita parecida com o brigadeiro em
outro lugar do mundo?
É aqui que mora a nossa singularidade. Sim, existem trufas
de chocolate em todo o mundo, doces à base de chocolate e creme de leite, mas o
brigadeiro é uma invenção genuinamente brasileira, ou melhor dizendo e sem
falsa modéstia, carioquérrima.
Na Suíça, as trufas usam chocolate derretido e creme fresco.
Nos Estados Unidos, as “fudge balls” podem ser até iguaizinhas a um
primeiro olhar desatento, mas levam marshmallow ou açúcar de confeiteiro na
receita.
O brigadeiro é, portanto, muito mais do que um simples doce de chocolate: é um patrimônio cultural com CPF próprio, criado a partir de condições históricas, industriais e políticas exclusivas do Brasil dos anos 1940. Que nasceu no atrito de uma campanha eleitoral e até hoje está presente em qualquer festinha de aniversário ou, pode confessar, naquela panela que você leva para a sala e se lambuza enquanto maratona uma série.


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