A questão é se os países conseguirão administrar os
conflitos inerentes dessa disputa
A ordem internacional desenhada sob a hegemonia
incontestável dos Estados Unidos e de seus aliados ocidentais no pós-Guerra
Fria está desaparecendo. Vivemos um período de intensa disputa hegemônica, no
qual o conflito se manifesta em múltiplas frentes: econômica, tecnológica,
geoestratégica, e, com o risco real de escalada para o confronto militar.
A origem desse embate reside na perda relativa de dinamismo
das economias desenvolvidas do Ocidente, particularmente dos países do G7 e da
União Europeia (UE), em contraste com o crescimento acelerado da China e da
Índia, além da reafirmação da Rússia como ator geopolítico e militar de
primeira ordem. O modelo neoliberal dominante nas últimas décadas, ao priorizar
a financeirização, a desregulamentação e a maximização de lucros de curto
prazo, produziu ganhos financeiros significativos, mas à custa da erosão da
base produtiva e industrial dessas economias. A desindustrialização, a
fragmentação das cadeias produtivas e o enfraquecimento do investimento público
comprometeram a capacidade de crescimento de longo prazo do Ocidente.
Um símbolo claro desse deslocamento estrutural é o papel da
China na economia mundial. O país responde hoje por cerca de um terço da
produção manufatureira global e avança em setores de alta e média-alta
tecnologia, como semicondutores, inteligência artificial, energias renováveis e
telecomunicações. Medido em paridade de poder de compra, o PIB somado de China,
Índia e Rússia em 2024 já supera o do G7, evidenciando uma mudança na
correlação de forças econômicas globais.
Desde a crise financeira internacional de 2008, os Estados
Unidos e seus aliados têm adotado políticas voltadas a conter esse processo de
perda relativa de hegemonia. No entanto, até o momento, os resultados dessas
estratégias têm sido limitados. A intensificação de políticas industriais, a
adoção de subsídios, barreiras comerciais e restrições tecnológicas refletem
menos uma retomada consistente do dinamismo produtivo e mais uma tentativa de
preservar posições estratégicas. A própria guerra na Ucrânia deve ser
interpretada não apenas como um conflito regional, mas como a expressão mais
aguda e trágica da competição global, uma guerra por procuração na qual a Otan
e o projeto geopolítico russo testam os limites da nova ordem internacional
ainda em formação.
Pela paridade de poder de compra, o PIB somado de China,
Índia e Rússia em 2024 já supera o do G7, evidenciando uma mudança na
correlação de forças econômicas globais. Só a China responde hoje de um terço
da produção manufatureira global
Na Europa, essa mudança de cenário tem provocado uma
inflexão significativa nas prioridades econômicas e políticas. O Relatório
Draghi de 2024 sobre competitividade da União Europeia alerta para a
necessidade de ampliar investimentos produtivos e acelerar a modernização
tecnológica, mas também enfatizou a expansão dos gastos militares. Em 2024, a
União Europeia aumentou seus gastos militares em cerca de 20% em relação ao ano
anterior, passando a responder por 13,9% do gasto militar mundial. A Alemanha aprovou
a ampliação do orçamento de defesa e planeja elevá-lo para 3,5% do PIB até
2029. O Reino Unido anunciou trajetória semelhante, com a meta de alcançar 3%
do PIB em gastos militares, enquanto o presidente Emmanuel Macron defendeu
níveis ainda mais elevados para a França e para a União Europeia.
Esse processo tende a ser acompanhado por cortes ou
contenção dos gastos sociais, indicando uma reconfiguração das prioridades.
Militarismo e keynesianismo voltam a se aproximar, mas agora em nova
configuração: o estímulo fiscal direcionado à indústria bélica ocorre
simultaneamente ao enfraquecimento do Estado de bem-estar social.
Do lado norte-americano, o movimento Make America Great
Again (Maga), sob a liderança de Donald Trump, expressa uma resposta agressiva
à possível perda relativa de hegemonia. A estratégia combina guerra comercial,
financeira, tecnológica e militar, com o objetivo de reafirmar a primazia dos
Estados Unidos. O documento National Security Strategy 2025 prioriza a
reindustrialização doméstica, pressiona para que a Europa assuma maior
responsabilidade por sua defesa, aceita que China e Rússia ocupem papéis subordinados
na economia mundial e reinterpreta a Doutrina Monroe, visando reafirmar a
influência estadunidense no hemisfério ocidental. Em 2024, os Estados Unidos
responderam por cerca de 38% do gasto militar mundial, totalizando
aproximadamente US$ 997 bilhões.
No caso da América Latina, o documento identifica três
“ameaças” centrais: os fluxos migratórios, o narcotráfico e a crescente
presença econômica e política da China. A Doutrina Monroe, sintetizada no lema
“América para os americanos”, expressa a prevalência histórica dos interesses
dos Estados Unidos sobre a região e vem sendo revitalizada em um contexto de
hegemonia contestada. Em 2025, observaram-se episódios de interferência em
processos eleitorais na Argentina e em Honduras, pressões sobre o sistema judiciário
brasileiro, ataques verbais contra o presidente Gustavo Petro da Colômbia e,
agora, o ataque à Venezuela e a remoção de Nicolás Maduro do poder. A questão
passa ser qual será o próximo passo da intervenção na região.
A capacidade militar dos Estados Unidos e do Norte Global é
muito superior ao do Sul Global. Os Brics responderam por cerca de 21,5% do
gasto militar mundial em 2024, com destaque para a China (11,8%), a Rússia
(4,6%) e a Índia (3,3%). Em 2024, a China aumentou seus gastos militares em
5,7%, mantendo uma expansão similar ao seu PIB. Os Brics não utilizam os gastos
militares como eixo de suas estratégias de crescimento econômico, com exceção
da Rússia, que está em guerra. Por enquanto, esses países não possuem acordos
militares.
Apesar do discurso em favor da paz e da estabilidade, a
história do capitalismo mostra que as grandes potências recorreram
repetidamente à guerra, em suas diversas formas, como instrumento para
construir, preservar ou restaurar sua hegemonia. Ainda é prematuro afirmar que
o declínio do Norte Global ocidental seja irreversível. A questão decisiva, no
entanto, é se os países conseguirão administrar os conflitos inerentes a essa
disputa hegemônica dentro dos limites de uma competição geoeconômica ou se o mundo
caminhará para uma escalada que culminará em guerras regionais ou de grandes
proporções.

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