Esquerda e direita se debatem em incoerências porque não
conseguem ver de forma holística a geopolítica mundial
Da mesma maneira que a esquerda brasileira se acha na
obrigação de defender um banqueiro como Daniel Vorcaro, achttps://oglobo.globo.com/google/amp/blogs/merval-pereira/coluna/2026/01/candidatos-sem-visao.ghtmlusado de fraudes
bilionárias, apenas porque ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) são
apontados como seus protetores, também a direita aplaude o presidente americano
Donald Trump pela invasão da Venezuela e pelo sequestro de Nicolás Maduro
porque o ex-ditador é de esquerda. Esquerda e direita se debatem em
incoerências porque não conseguem ter uma visão holística da situação
geopolítica do mundo, enquanto Estados Unidos, China e Rússia vão armando um
acordo tripartite para dividi-lo a seu gosto.
O governo Lula, embora tenha exibido
reações inteligentes e equilibradas na crise das tarifas, tanto que conseguiu
superar os principais obstáculos e reatar em parte os laços comerciais, não
consegue criticar o governo de Maduro desde que ficou claro como ele fraudara
as eleições presidenciais vencidas pela oposição. Não reconheceu a vitória, mas
também não denunciou a corrupção chavista, tanto política quanto econômica. A
direita, por meio de todos os pré-candidatos à Presidência, repete o mesmo erro
das tarifas, comemorando o sequestro do ex-ditador como vitória da democracia
na região. Começando pelo candidato semioficial do bolsonarismo, o senador
Flávio Bolsonaro. Dão demonstrações claras de que não estão preparados para
governar o país.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, se
precipitou ao anunciar seu apoio a Trump:
— Uma ditadura não cai da noite para o dia. Ela corrói as
instituições por dentro, pouco a pouco, e quem paga o preço mais alto é sempre
a população. Que a prisão do ditador Maduro seja o primeiro passo no caminho da
liberdade para a Venezuela.
Como é possível a um governador do maior estado brasileiro
não atentar para o fato de avalizar uma invasão estrangeira em qualquer país,
até mesmo naquele que pretende um dia governar? Foi desmentido pelo próprio
Trump. Este avisou que o chavismo poderá continuar no poder, com todos os seus
Cabellos, Padrinos e que tais, “desde que faça a coisa certa”.
O governador do Paraná, Ratinho Junior, achou “brilhante” a
solução de Trump “para libertar o povo da Venezuela, oprimido há décadas por
tiranos antidemocráticos”. Nenhuma palavra sobre a necessidade de novas
eleições, nenhum comentário sobre a restauração da democracia, já descartada
por Trump, preocupado unicamente com a geopolítica, voltando à ideia de que a
América Latina é o “quintal” dos Estados Unidos.
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, desejou que o dia da
invasão seja “o dia da libertação do povo venezuelano, oprimido há mais de 20
anos pela narcoditadura chavista”:
— Que a democracia, a liberdade e a prosperidade se instalem
no país.
Um desejo no mínimo ingênuo, diante das próprias palavras de
Trump. Somente um governante com aspirações ao Palácio do Planalto, o
governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, teve a visão de longo prazo
sobre as responsabilidades que pretende assumir. Depois de criticar Maduro, fez
uma ressalva fundamental:
— A violência exercida por uma nação estrangeira contra
outra soberana, à margem dos princípios básicos do Direito Internacional, em
especial o de não intervenção, é igualmente inaceitável.
O governo Lula, que tem culpa por não ter rompido com a
Venezuela quando ficou clara a fraude na eleição, tem mantido posição correta.
Neste momento, o Brasil não pode fazer nada em relação à invasão da Venezuela.
A nota do governo brasileiro foi num tom de protesto, mas não temos nenhuma
capacidade para enfrentar Trump. Nem nós, nem nenhum país. As reações pelo
mundo foram todas cautelosas diante da barbaridade de um país se definir como
dono de uma região — foi o que Donald Trump fez. Estamos num mundo em que a
força impõe as normas. Pode ser que haja reação interna nos Estados Unidos,
porque Trump está passando dos limites.

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