Com o mundo recém-estreando 2026 e eleições na agenda,
convém lembrar o poder de manipuladores de massas
Quem não gosta de uma boa ilusão? Todo espetáculo do mágico
Harry Houdini, fosse qual fosse a novidade apresentada, deixava maravilhadas
gerações de crianças e adultos. Húngaro de nascimento e cultuado até hoje por
sua arte inimitável, Houdini era simplesmente o maior e melhor de sua época
(1874-1926). Uma noite específica se tornou histórica — a de 7 de janeiro de
1918, que reuniu 5.300 espectadores num vasto anfiteatro de Nova York, o antigo
Hippodrome Theater. Saíram dali boquiabertos.
Uma elefanta que pesava perto de 7
toneladas fora trazida para o palco dentro de um contêiner giratório, aberto,
como carroça de circo. Chamava-se Jennie, era filha de Jumbo, gentil e gostava
mais de açúcar que de ganchos. Apresentada aos três níveis da sala (orquestra,
balcões e galerias), sem jamais sair do campo de visão do público, a mastodonte
rotacionava 180 graus iluminada de todos os ângulos o tempo todo. Nada mais
parecia haver no palco além de 30 homens que acionavam polias e cabos. Em
determinado momento, Jennie sumiu. Houdini a fizera desaparecer num passe de
mágica analisado até hoje. Para aficionados do caso ou de leitura de férias,
“Hiding the elephant”, de Jim Steinmeyer, talvez seja a melhor entre as muitas
versões, explicações e teorias sobre o feito.
Viradas de ano costumam ser propícias à construção de
ilusões, luas de papel ou castelos de areia. Não confundir com a arte da magia,
a que Houdini deu grandeza benigna e humanista. Coube ao alemão Thomas Mann
fazer caminho inverso, ao explorar o uso maligno e desumanizante do ilusionismo
como arma política.
“Mário e o mágico: Uma experiência trágica de viagem” é uma
novela de pouco mais de cem páginas publicada depois do colossal “A montanha
mágica”, de 1924. Ambientada num balneário do sul da Itália em período de
ascensão do fascismo, a história acompanha uma família alemã de férias, cujos
dias de descanso são assombrados por uma atmosfera opressiva, indefinida.
A experiência da família atinge o clímax quando ela se junta
à população local para assistir à apresentação de um hipnotizador de
audiências, o mágico Cipolla. Figura grotesca e carismática, o ilusionista
criado pelo escritor porta o título de “Il Cavaliere Cipolla”, evocando
Mussolini. Seus métodos e manipulações funcionam como alegoria para o
autoritarismo emergente na Itália. Cipolla é o “moderno domador das multidões,
homem de vontade e ação, cuja astúcia e energia estavam inteiramente a serviço
do mal”.
A aparência do mágico — um homem fisicamente deformado,
fumante inveterado, de dentes estragados e pele amarelada — apenas camufla seu
extraordinário poder hipnótico. Domina a multidão com um carisma inquietante e
uma espécie de supremacia psicológica. Ao longo do espetáculo, Cipolla
constrange o público a executar atos bizarros e humilhantes, como fazer um
homem contorcer-se de dor por mera sugestão ou obrigar outro a servir de
banquinho humano. Escolhe uma pessoa por noite para servir-lhe de alvo. O público
ri, aplaude, se entrega à manipulação, e o espetáculo vai ganhando em
intensidade, mal-estar e crueldade. O clímax ocorre quando Cipolla chama um
garçom local que assistia de pé ao espetáculo — o Mário do título — e o obriga
a beijar sua repulsiva boca na presença da noiva.
Nesse momento, a obediência de Mário se rompe. Ele se rebela
contra a humilhação pública e mata Cipolla com dois tiros após descer do
estrado, quebrando o feitiço que o mágico exercia sobre os demais. Com a
chegada da polícia, a família de veranistas alemães foge do local, no que pode
ser lido como uma libertação ambígua e ilusória, tingida de trauma. Afinal, não
tardaria muito para que brotasse, na própria Alemanha, a insânia hitlerista.
Com o mundo recém-estreando 2026 e eleições múltiplas na
agenda, convém lembrar o poder sedutor de manipuladores de massas. Candidatos a
Cipollas não faltam, e cumplicidade passiva de multidões perante regimes sem
freios, também não. É relativamente rápida a decomposição ética de uma
sociedade enquanto o público ri.
O que falta são Houdinis, cuja arte é honesta. E faltam
Mários, muitos Mários, para quebrar a marcha da ilusão. Mas sem tiros, por
favor.

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