Julgamento do caso Marielle põe a milícia no banco dos réus
Investigação escancara ligação entre política, polícia e
crime organizado no Rio
O julgamento do caso Marielle levou ao Supremo uma realidade
conhecida dos cariocas: a ligação entre política, polícia e crime organizado.
A Procuradoria-Geral da República expôs a conexão dos irmãos
Brazão, acusados de encomendar o assassinato da vereadora, com grupos armados
que dominam territórios nas zonas Norte e Oeste do Rio. Esses laços não são
novos. Já haviam sido mapeados pela CPI das Milícias, concluída em 2008.
Depois daquela investigação, o clã
continuou a expandir seu poder. Domingos Brazão, que era deputado estadual, foi
alçado a conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Chiquinho Brazão, então
vereador, chegou a Brasília como deputado federal. Agora os dois estão presos,
mas o sobrenome continua na ativa. Manoel Inacio Brazão, que não é citado no
caso Marielle, exerce o segundo mandato na Assembleia Legislativa.
Além de garantir votos, as milícias ajudaram a família a
enriquecer à margem da lei. Segundo a PGR, os irmãos Brazão faturaram alto com
a grilagem de terras nas regiões de Jacarepaguá e Rio das Pedras. Acumularam ao
menos 87 imóveis, num esquema que envolvia uso de laranjas e falsificação de
documentos.
Os pistoleiros eram recompensados com proteção política e
nacos da máquina pública. A Polícia Federal descobriu que Domingos Brazão
pendurou a mulher de um miliciano na folha de pagamentos da Alerj. Preso há
dois anos, o conselheiro ainda
recebe salário do TCE. Neste mês, seu contracheque chegou a R$ 56 mil
brutos, incluindo R$ 14 mil em penduricalhos.
Para a Procuradoria, Marielle Franco foi morta porque
enfrentou as milícias e se tornou um risco para os negócios do clã. A vereadora
do PSOL pagou por não se render a uma estrutura de poder corrompida, que aposta
na intimidação e no cinismo para se perpetuar.
Ontem o advogado de Chiquinho Brazão, Cleber Lopes, tentou
naturalizar a convivência de detentores de mandato com o crime. “Quem faz
política no Rio e nunca pediu voto para traficante ou para miliciano que atire
a primeira pedra”, disse. Hoje a Primeira Turma do Supremo pode dar uma
resposta a quem acha isso normal.

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