A escola deve semear o ideal de uma sociedade justa e
tolerante, gerando indivíduos que não excluam o diferente nem admitam a
desigualdade
Acompanhar o noticiário nas últimas semanas tem sido
desanimador. O ataque ao Irã mostra como o mundo se tornou incerto e perigoso
sob as novas regras estabelecidas por Trump e seus aliados, gerando um cenário
sombrio no curto prazo. No Brasil a situação não é muito melhor: a epidemia de
feminicídios tomou conta do país e as instituições políticas estão sob suspeita
desde a eclosão do caso Master. É muito difícil lutar contra o imperialismo
trumpista, mas é possível, em alguma medida, atuar sobre os valores que
alimentam a barbárie brasileira. Para isso, uma via essencial é a educação,
tomada como instrumento formador das pessoas desde a tenra idade.
Desde a Independência até a
redemocratização recente, o Brasil escolheu uma via educacional elitista e
excludente. Os altos índices de analfabetismo, a enorme reprovação e evasão dos
alunos mais pobres, bem como uma alocação pequena de recursos para a educação
básica, marcaram nossa trajetória histórica. O país escolheu um modelo de
desenvolvimento e, por que não dizer, de civilização no qual ensinar saberes e
valores à maioria das crianças e jovens brasileiros não foi prioridade.
A partir da Constituição de 1988, e por meio de uma série de
reformas por mais de três décadas, houve uma mudança de patamar educacional. A
educação virou um direito de todos, o que gerou a universalização do
fundamental I. Ainda houve uma expansão enorme dos jovens formados no ensino
médio e a inclusão de populações que sempre estiveram fora da escola, como
indígenas, quilombolas e crianças com deficiências. Também ocorreu uma maior
profissionalização dos profissionais e dos instrumentos de gestão, especialmente
nos campos do financiamento e avaliação.
Os avanços são expressivos quando comparados ao passado do
país, porém, há muitos problemas e carências na educação básica brasileira. O
aprendizado das crianças tem melhorado nos anos iniciais, mas a partir do
fundamental II os resultados se tornam bem fracos, o que fica mais visível pelo
baixo desempenho na avaliação internacional mais relevante, o Pisa (Programme
for International Student Assessment), realizado por adolescentes de 15 anos de
idade. Além disso, ainda há uma evasão significativa no ensino médio e muita
desigualdade entre os estudantes em todas as etapas educacionais.
É preciso que o país garanta o aprendizado para todos, sem
exceção, obviamente com prioridade pedagógica para o alunado advindo das
famílias e grupos sociais mais vulneráveis. Essa é uma tarefa essencial para o
futuro do Brasil e que deve ser encampada por todos os concorrentes às eleições
de 2026, por meio de propostas baseadas em evidências e experiências
bem-sucedidas, e não se utilizando de ideias equivocadas e eivadas de
preconceitos, como o homeschooling ou a escola cívico-militar.
Só que o desafio educacional vai além da aprendizagem das
disciplinas básicas: é por meio do processo educacional que os valores mais
profundos são construídos na população infantojuvenil, com impacto sobre toda a
vida. Não se trata de pensar numa dicotomia entre esses dois objetivos. Ambos
devem estar interligados num modelo de educação integral, que desenvolve um
conjunto múltiplo de saberes, competências e princípios éticos. Os indivíduos
formados pelas escolas serão os adultos do futuro em todas as dimensões, como
profissionais, cidadãos e pessoas com talentos diversos.
A escola deve semear o ideal de uma sociedade justa e
tolerante, gerando indivíduos que não excluam o diferente nem admitam a
desigualdade que inviabiliza a liberdade de escolha e a dignidade básica de
grande parte da população. As organizações educacionais precisam alimentar
sonhos de um mundo melhor do que o atual, construir princípios de convivência
solidária e alavancar talentos múltiplos em cada estudante. O prazer de saber
que há muitas possibilidades de felicidade e que os jovens de hoje podem influenciar
a transformação da realidade daria outro sentido à vida escolar.
Todo esse desenvolvimento integral, como mostra a ciência
contemporânea, deve começar na formação da primeira infância (de 0 a 6 anos de
idade), quando as crianças estão formando a maior parte de sua capacidade
neuronal e têm suas primeiras experiências de socialização para além de casa.
Depois isso se segue por toda a vida escolar, culminando com o ensino para uma
juventude aberta à diversidade de caminhos individuais e coletivos de
construção do mundo adulto.
Esse processo educacional de cultivar valores profundos
contra a barbárie deve andar lado a lado com o aprendizado de saberes básicos,
podendo inclusive ser uma alavanca para que alunos e professores gostem mais da
escola e comemorem, ao final, melhores resultados em testes padronizados e
vestibulares. O sonho de uma escola melhor passa a ser aquela em que todos os
estudantes aprendem, tendo um processo de ensino que leve em conta as
especificidades de cada um na aquisição do saber, e no qual a educação seja a
semente principal de valores em prol de uma sociedade melhor.
O que se propõe aqui, portanto, é mudar o olhar sobre o
papel da educação. Para mobilizar a sociedade em torno de uma política
educacional melhor, deve-se ter um sonho que conjugue aprendizado múltiplo e
para todos com a produção de valores profundos contra a barbárie e as
desigualdades brasileiras. Se todos ficamos indignados com o noticiário recente
é porque, de um modo ou de outro, queremos algo que alavanque profundamente a
transformação dessa realidade inaceitável.
A epidemia de feminicídio que horroriza boa parte da
sociedade é fruto de um processo longo de construção de valores. Há muitos
lugares em que as noções machistas e misóginas se alastram pela cabeça dos
meninos, como as perversas redes sociais - que deveriam ser expressamente
proibidas até os 16 anos de idade, como decidiu recentemente a Austrália - e,
infelizmente, as famílias, especialmente pelos homens que as compõem, eles
próprios resultado de uma sociedade historicamente patriarcal e violenta.
A educação tem de entrar nesse jogo como um instrumento de
construção de outros valores nos meninos, desde a tenra idade. O assassinato
cruel de mulheres pode ser combatido se a escola mostrar que a singularidade e
a autonomia de cada gênero deve ser um convite para o aprendizado conjunto -
cada um saber a dor e a delícia de ser o que é, como já diria Caetano. O mundo
é maravilhoso quando há diferenças e a partir delas produzimos formas de
comunhão, sem tiranizar ou hierarquizar a relação entre as pessoas.
O processo educacional pode engendrar valores contra a
barbárie em outras questões, como a pedofilia, o racismo, o capacitismo, a
indiferença em relação aos mais pobres, o narcisismo exacerbado que procura
sucesso nas redes sociais, o ódio crescente contra o outro, para ficar em
temas-chave. Obviamente a educação tem limites e há forças sociais com
enraizamento mais profundo que não desejam um modelo mais tolerante e
igualitário de sociedade. Mesmo assim, a escola tem de ser responsável pela
apresentação de valores distintos da violência escravocrata e do
patrimonialismo de castas que continuam marcantes no Brasil.
Tal tarefa de combate aos substratos de barbárie da
sociedade brasileira passa muito pela escola pública, por conta de seu alcance
populacional, contudo também deve ser um objetivo das instituições privadas de
elite. Nelas, estudaram muitos dos que comandam o país, no setor público e
privado. Evidentemente que uma parte importante desse grupo tem contribuído
para melhorar o Brasil nas últimas décadas. Só que outra parcela, com tamanho e
influência bastante significativos, tem tido o papel de reforçar o sentimento
de casta privilegiada, que é superior e tem “mais direitos” do que o restante
da população. Pior: esse grupo crê na legitimidade de seu espaço VIP frente ao
conjunto da cidadania, e tem lutado contra formas de democratização de
oportunidades e poder que têm ocorrido na sociedade brasileira.
Os monstros do feminicídio e os defensores da casta
superior, em suas versões de mercado e no poder público, já são, na maioria,
adultos que a educação não tem mais como recuperar. Mas, ao se propagar em voz
alta que as escolas podem transformar radicalmente os valores da barbárie à
brasileira junto às crianças e jovens, é possível constranger os grupos sociais
que degradam o modelo civilizatório do país. A força desse processo, de todo
modo, tem limites, inclusive na forma autoritária que vigora em muitas famílias
ou na fragilidade de laços que compõem parte do tecido social do Brasil.
Uma resposta complementar talvez esteja no reforço de outras
instâncias ou organizações da sociedade, que deveriam ser locais para se
discutir os valores que possam evitar o feminicídio, a ascensão do banqueiro
cangaceiro, a defesa do burocrata que não quer ser transparente perante os
cidadãos, o discurso preconceituoso contra os mais vulneráveis e o ódio contra
quem pensa diferente. Tais lugares deveriam, à maneira das escolas, ser espaços
que possibilitem a reflexão sobre a formação dos valores que produzem o
noticiário indigesto a todos. Precisamos conversar mais, de forma tolerante,
sobre os efeitos de nossos princípios sobre a barbárie que nos aflige, num
processo de aprendizado permanente.
*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela
USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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