Ele via a morte como uma pândega. O homem que se dizia
terminal parecia cada vez mais inaugural
Ativo até o fim, aos 92 anos, Cony seria o primeiro a
desmoralizar o seu próprio centenário
Já contei esta história. Em 2012, coordenando um ciclo no
Sesi, em São Paulo, sobre o centenário de Nelson Rodrigues, convidei Carlos
Heitor Cony a participar de um dos debates. Cony, com 86 anos, tinha
um câncer linfático crônico, cujo tratamento lhe provocava um enfraquecimento
que o obrigava à cadeira de rodas. Mas sua cabeça continuava atilada,
surpreendente e com a molecagem intacta. Aceitou e tomou o avião no
Santos-Dumont.
Ao chegar de carro ao prédio da avenida
Paulista, onde se daria o debate, Cony foi recebido na garagem pelas moças da
produção. Elas o observaram ser descido a custo do veículo e colocado na
cadeira de rodas. Uma delas perguntou, aflita: "Está tudo bem, Dr.
Cony?". E Cony, grave, quase tumular: "Não passo desta noite".
Deu-se um alarido. Elas acreditaram e acharam que ele podia
morrer ali mesmo, na porta dos elevadores, ou no meio do evento. Uma quase
começou a chorar. Tive de me meter e dizer que Cony estava brincando, que
estava ótimo, nada aconteceria. E, de fato, não só nada aconteceu como Cony
roubou a noite na mesa do debate, usando Nelson Rodrigues como pretexto para
falar de jornalismo, censura, coragem, liberdade de opinião —o que, de certa
forma, era a história dele próprio.
Cony parecia ver a morte como uma pândega. Em começos dos
anos 90, recém-saído de um câncer de próstata mais do que resolvido, ele às
vezes aparteava a si próprio para dizer: "Você sabe, Ruy. Sou um homem
terminal". Minha ignorância a respeito de câncer me fazia achar que ele
estava falando sério. Mas os anos se passavam e o homem terminal parecia cada
vez mais inaugural. Em 1995, seu romance "Quase Memória", o primeiro
em mais de 20 anos de silêncio no gênero, devolveu-o com estrondo à literatura
e o fez atravessar, vivíssimo, as muitas noites de que dizia que "não
passaria".
Cony morreu em 2018, às vésperas dos 92 anos, ativo até
demais. Custo a crer que, neste sábado (14), ele faria 100. Por um motivo: Cony
seria o primeiro a desmoralizar o seu próprio centenário.

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