Nega-se à deputada Erika Hilton o 'lugar de fala': sendo
trans, não poderia tratar de questões das 'mulheres biológicas'
Às preocupações do brasileiro com o perigo de um conflito
nuclear e ao espanto com as cafonices de Daniel Vorcaro, somou-se a batalha
entre Ratinho e a deputada federal Erika Hilton.
O apresentador mostrou-se indignado com a eleição da deputada ao cargo de
presidente da Comissão da Mulher da Câmara. Irritado, disse-se contrário a que
uma pessoa trans ocupe a vaga. E explicitou sua visão de mundo:
— Ela é trans. Para ser mulher tem que ter útero, menstruar,
tem que ficar chata três, quatro dias. Eu sou contra [a eleição dela]. Eu acho
que deveria deixar uma mulher.
Para não deixar dúvidas, acrescentou:
— Mulher, para ser mulher, tem de ser mulher (...). Quero
dizer que não tenho nada contra a deputada, ou deputado, não sei.
A deputada acionou o Ministério Público,
que pediu a condenação do apresentador e da emissora. No contrapé, o Partido
Novo solicitou a cassação da parlamentar, acusada de usar o mandato “como
instrumento de intimidação (...) contra críticos que expressaram opiniões
legítimas sobre temas como sexo biológico e identidade de gênero”.
Ratinho e o Partido Novo, em suas intervenções, não
informaram que o Brasil, no ranking mundial, lidera o número de homicídios de
pessoas LGBTQIA+. As fontes para minha afirmação (Grupo Gay da Bahia,
Observatório de Mortes e Violências LGBTI+ no Brasil, entre outros) divergem
bastante, e alguns estados deixam de informar os dados. Mas isso não alivia as
mortes por ódio.
O imbróglio (chamemos assim) poderia ser polarizado da
seguinte forma: Erika é uma deputada trans de esquerda; o Partido Novo está à
direita e Ratinho vai na mesma seara, além de seus comentários em geral
ofensivos. Ainda no campo ideológico, um relatório do Instituto Democracia em
Xeque mostrou o impacto nas redes sociais. Em sete dias pesquisados, foram 956
mil posts com 15,6 milhões de interações dos usuários. Houve predomínio da
direita (7 milhões) sobre a esquerda (4,2 milhões), com o restante espalhado
por outras tendências. No conteúdo, embora se reconheça a luta das mulheres
trans, ocorre a diferenciação entre elas e as “mulheres biológicas” — mas
questiona-se a legitimidade de Erika para ocupar o cargo de presidente da
Comissão da Mulher. É negado à deputada o “lugar de fala”. Sendo trans, não
poderia tratar de questões das “mulheres biológicas”.
Se ficarmos nas estatísticas, em 2024 ocorreu uma morte a
cada 30 horas, segundo o Grupo Gay da Bahia. No ano anterior, a frequência foi
de uma morte a cada 34 horas. A maioria das vítimas (60,8%) tinha entre 19 e 45
anos. Salvador, em termos proporcionais de população, é a capital mais
violenta. No ranking mundial, em 2024, 30% das mortes ocorreram no Brasil. Há
divergências entre as fontes: em 2023, o GGB contou 257 homicídios, e o
Observatório de Mortes e Violências LGBTIA+ no Brasil, 230; diferem as sistematizações.
Nos métodos usados, estão armas brancas e de fogo; espancamentos, asfixia e
apedrejamento. E ainda esquartejamento e carbonização.
Mesmo para um país violento como o Brasil — 20,8
assassinatos a cada 100 mil habitantes em 2024, segundo o Fórum Brasileiro de
Segurança Pública —, os números são estarrecedores. Daí que não é questão a ser
discutida por uma posição maniqueísta como ocorre nas redes, com eco num
apresentador com altos índices de audiência.
Ratinho alega liberdade de expressão para propagar seus
preconceitos. É o recurso usado à direita e à esquerda quando se é pego na cena
do crime. Não é de agora que os meios de massa são usados para validar a
opressão. Sob a ditadura, apresentadores acusavam artistas de ser comunistas.
Aconteceu com Gil e Caetano, que acabaram presos e exilados por anos, embora
não tenha havido um processo formal contra os dois. A fala de Ratinho pode
ensejar violência. Ou solidificar a hostilidade contra o público LGBTQIA+. Com
as consequências conhecidas.
Não importa, como se argumentou, que a Erika tenha votado
contra o aumento de pena para crimes de feminicídio. E agora seja presidente da
Comissão de Direitos da Mulher. A discussão é outra e precisa ser maior —
pessoas são mortas. Não é tema para ser polarizado pela política ou religião
(infelizmente se misturam no Brasil). Podemos lembrar a Ratinho que a
escravidão era legal e defendida em nome da liberdade de propriedade. E o que é
visto como liberdade de expressão, hoje, pode ser crime de ódio.

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