segunda-feira, 23 de março de 2026

SEM MAIS SILÊNCIO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

As pessoas que atracam os fones às orelhas o dia inteiro isolam-se da vida

Eles são um passaporte para a alienação, o individualismo, o não-tou-nem-aísmo

O jovem de fones ao ouvido atravessou a rua fora do sinal, costurando entre os carros em movimento e tirando fino das motos entre eles. Perplexo, eu assistia a tudo da calçada. Mas nada aconteceu. O garoto chegou ao outro lado e retomou tranquilo o seu caminho, como se o asfalto fosse uma extensão de sua casa. Perguntei-me que maravilhas estariam saindo dos fones, abafando tudo e permitindo-lhe ignorar as buzinas. Rockrapforrók-pop?

Outra cena que sempre me intriga é a dos jogadores descendo do ônibus do clube para o jogo de dali a pouco, no qual, em tese, eles deveriam estar totalmente concentrados. Todos trazem alguma coisa ao ouvido. Como 90% dos atuais jogadores são evangélicos, imagino que devem estar escutando os hinos e pregações que os levarão à vitória. Mas, se o repertório de seus fones vier do cafonejo, e ainda por cima perderem o jogo, não podem culpar Deus pela derrota.

Digo tudo isso ao ler sobre os efeitos dos headphones nas pessoas que hoje os atracam às orelhas para correr, caminhar, pedalar, motocar, dirigir, dormir, trabalhar e até estudar, alheios à vida ao redor. É como se se isolassem da vida. Usam-nos também para reduzir o estresse, relaxar ou, ao contrário, excitar-se, tudo exceto refletir. É um passaporte para a alienação, o individualismo, o não-tou-nem-aísmo.

Por sorte, quem usa esses fones tem a liberdade de tirá-los para, às vezes, dar um alívio aos fatigados tímpanos. Mas, e se uma pessoa for obrigada a ouvi-los, sem poder arrancá-los ou implorar a alguém para fazer isso?

Foi o que me contaram de um conhecido meu, homem de seus 80, nos estágios finais de um mal que o impedia de mover-se ou comunicar-se. Todos sabiam do amor que, em dias mais felizes, ele dedicara a Lizst, Chopin e Tchaikovski. Daí, seus netos prepararam 24 horas de playlist com suas sinfonias favoritas e, todos os dias, aplicavam-lhe os fones pelo dia inteiro.

É o terror: ser condenado a escutar sem parar o que você ama, quando tudo que quer é o silêncio.

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