As pessoas que atracam os fones às orelhas o dia inteiro
isolam-se da vida
Eles são um passaporte para a alienação, o
individualismo, o não-tou-nem-aísmo
O jovem de fones
ao ouvido atravessou a rua fora do sinal, costurando entre os carros
em movimento e tirando fino das motos entre eles. Perplexo, eu assistia a tudo
da calçada. Mas nada aconteceu. O garoto chegou ao outro lado e retomou
tranquilo o seu caminho, como se o asfalto fosse uma extensão de sua casa.
Perguntei-me que maravilhas estariam saindo dos fones, abafando tudo e
permitindo-lhe ignorar as buzinas. Rock, rap, forró, k-pop?
Outra cena que sempre me intriga é a dos
jogadores descendo do ônibus do clube para o jogo de dali a pouco, no qual, em
tese, eles deveriam estar totalmente concentrados. Todos trazem alguma coisa ao
ouvido. Como 90% dos atuais jogadores são evangélicos, imagino que devem estar
escutando os hinos e pregações que os levarão à vitória. Mas, se o repertório
de seus fones vier do cafonejo, e ainda por cima perderem o jogo, não podem
culpar Deus pela derrota.
Digo tudo isso ao ler sobre os
efeitos dos headphones nas pessoas que hoje os atracam às orelhas para
correr, caminhar, pedalar, motocar, dirigir, dormir, trabalhar e até estudar,
alheios à vida ao redor. É como se se isolassem da vida. Usam-nos também para
reduzir o estresse, relaxar ou, ao contrário, excitar-se, tudo exceto refletir.
É um passaporte para a alienação, o individualismo, o não-tou-nem-aísmo.
Por sorte, quem usa esses fones tem a liberdade de tirá-los
para, às vezes, dar um alívio aos fatigados tímpanos. Mas, e se uma pessoa for
obrigada a ouvi-los, sem poder arrancá-los ou implorar a alguém para fazer
isso?
Foi o que me contaram de um conhecido meu, homem de seus 80,
nos estágios finais de um mal que o impedia de mover-se ou comunicar-se. Todos
sabiam do amor que, em dias mais felizes, ele dedicara a Lizst, Chopin e
Tchaikovski. Daí, seus netos prepararam 24 horas de playlist com suas sinfonias
favoritas e, todos os dias, aplicavam-lhe os fones pelo dia inteiro.
É o terror: ser condenado a escutar sem parar o que você
ama, quando tudo que quer é o silêncio.

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