O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acredita - e ele está
certo - que a prova de que um assunto caiu na boca do povo é se virou conversa
de bar. Foi o que ele afirmou em evento de lançamento do programa “Acredita”,
de oferta de crédito para micro e pequenos empreendedores. “Nós precisamos
transformar o ‘Acredita’ em assunto de mesa de bar, é preciso que as pessoas
saibam que ele existe”, defendeu, em discurso de 18 de outubro de 2024.
Dois anos antes, a tese soou exagerada. Em março de 2022, em
um evento da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Lula disse que os
brasileiros resolveriam a guerra da Rússia com a Ucrânia numa mesa de bar.
“[Essa guerra] seria resolvida aqui no Brasil numa mesa tomando cerveja, se não
na primeira, na segunda. Ia até acabar as garrafas para um acordo de paz.”
De fato, segundo pesquisas qualitativas
(encomendadas por um político influente em sua base eleitoral), o que realmente
caiu na boca do povo e está circulando nas mesas de bar é o rombo de R$ 52
bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC) provocado pela crise do Banco
Master, que envolveu autoridades de todos os Poderes. A prisão do ex-banqueiro
Daniel Vorcaro, os diálogos dele com a ex-namorada Martha Graeff e a agenda de
contatos chegaram aos botecos, aos restaurantes com estrela Michelin, aos
pontos de ônibus, às corridas de aplicativos, em suma: há tempos um escândalo
político e financeiro não alcançava os brasileiros com tamanha amplitude, sem
distinção de renda ou classe social.
Estes levantamentos mostraram que as pessoas até aprenderam
os nomes de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O único deles com a
imagem preservada seria André Mendonça, relator do caso Master na Corte, e
responsável pela prisão de Vorcaro e demais envolvidos nas denúncias.
Uma conclusão é de que a crise recai, especialmente, sobre o
governo porque a população entende que o presidente da República é o
responsável por nomear os ministros do STF, o presidente do Banco Central (BC),
o diretor-geral da Polícia Federal (PF), entre outras autoridades. Neste
cenário, os brasileiros buscam um líder que tenha autoridade para conduzir o
Brasil para longe deste lamaçal, e para um caminho de prosperidade, sem
violência e corrupção.
Para o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles,
os efeitos do escândalo Master recaem não apenas sobre o governo, mas sobre
todos. “Se recai sobre todo mundo, a perspectiva de que todo mundo é igual,
aumenta”, alertou. Acrescentou que esta conjuntura estimula o sentimento
antissistema. “Sempre quem está no governo sofre mais se o ambiente
generalizado é um ambiente de crítica ao sistema, porque o governo é sistema”,
completou.
Para Meirelles, que é especialista em comportamento e
opinião pública, não é o caso de afirmar que a população brasileira está
rachada. “O Brasil não está dividido, está cansado”, alegou. “Cansado é
diferente de dividido, vamos entrar na eleição com o eleitor cansado, inclusive
das brigas [das eleições] de 2022 e 2018.”
Diante disso, os líderes das pesquisas, Lula e o senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) conseguem se colocar como a solução que os brasileiros
cansados buscam? Não há resposta por enquanto. Para Meirelles, Flávio não
conseguirá encarnar o “antissistema” como Jair Bolsonaro, porque tem esqueletos
no armário, que ainda serão explorados, e não tem a virulência do pai. Quanto a
Lula, ainda está operando no modo “institucional”. Somente o “Lula em campanha”
poderá dar esta resposta.
Além do impacto eleitoral do escândalo Master, Meirelles
pondera que a realidade econômica, como sempre, também influenciará o voto.
Observa que não adianta o governo exaltar dados da inflação ou do Produto
Interno Bruto (PIB) porque a macroeconomia não importa, e sim, a microeconomia.
E segundo ele, as pessoas estão se endividando com novas “necessidades” como
apostas em “bets”, canetas emagrecedoras e compras em marketplaces
internacionais (como Shein e Shopee), que não geram empregos no Brasil.
Ainda assim, Meirelles acredita que na questão da economia,
o governo atuará para criar uma “sensação de que as coisas estão melhorando”.
Há programas de crédito em gestação, e a expectativa é de que o dinheiro volte
a circular, movimentando, principalmente, o varejo, com o Dia das Mães, dos
Pais e das crianças no radar.
O presidente do Locomotiva sustenta que pelo menos 30% do
eleitorado está em disputa. Esta é a parcela dos brasileiros que se mostram
dispostos a mudar de ideia quanto à avaliação do governo. Ou seja, quem acha
ruim hoje pode ter outra opinião à frente, e vice-versa.
“Política é ciência humana, os aspectos relativos à
definição do voto não são cartesianos”, observou. Por exemplo, como estará a
saúde do Bolsonaro? Como o eleitor reagirá quando Lula disser que estará
pedindo o seu voto pela última vez?
Meirelles sustenta que a máquina pública continua sendo uma
vantagem. “A reeleição foi feita para reeleger, e a derrota de Bolsonaro [em
2022] foi a exceção da exceção.” Isso ainda torna Lula favorito. Mas adverte
que será uma disputa tão acirrada quanto a anterior, que “será dada no segundo
turno, com dois, três pontos de diferença”. Como no “photo finish” das corridas
de cavalos.

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