Fábio Alves, O Estado de S. Paulo
O Banco Central brasileiro destoou do tom de preocupação
de outros BCs com os efeitos da guerra
Os investidores correram para refazer suas apostas para a
trajetória de juros nas maiores economias do mundo depois que os bancos
centrais deixaram um recado mais duro do que o esperado sobre os riscos para a
inflação com a alta nos preços dos combustíveis, em razão do conflito no
Oriente Médio. Mas um deles destoou desse tom de preocupação: o BC brasileiro.
É verdade que a decisão do Copom, iniciando o ciclo de corte
de juros com redução mais suave da taxa Selic, de 15% para 14,75%, veio em
linha com a projeção do mercado. É verdade também que o Copom admitiu que os
riscos para a inflação se intensificaram após o início da guerra no Irã. E
ainda reafirmou a postura de “serenidade e cautela”.
Mesmo assim, manteve o balanço de riscos
para a inflação exatamente igual ao da reunião anterior, antes da crise no
Oriente Médio e da alta no preço do petróleo, com o barril do Brent ainda
próximo de US$ 100. Para a surpresa de muitos, o Copom destacou que “os
indicadores do final de 2025 mostraram desaceleração na atividade econômica”. A
visão de consenso é outra: de evidente reaceleração da economia no primeiro
trimestre de 2026. Além disso, a projeção de inflação para o horizonte
relevante da política monetária (terceiro trimestre de 2027) passou de 3,2%
para 3,3%, enquanto a expectativa era de revisão para, no mínimo, 3,4%. A ata
da reunião não veio muito diferente do comunicado.
Já o Banco Central Europeu, que manteve inalterada a taxa
básica, elevou a projeção de inflação em 2026 de 1,9% para 2,6%. Sua estimativa
para o núcleo da inflação em 2027 passou de 1,9% para 2,2%, indicando o risco
de a alta no custo de energia se propagar para outros preços. Na Inglaterra, o
banco central manteve a taxa parada, mas alertou que “estava pronto para agir”.
Os investidores já precificam três altas de juros na Zona do Euro e na
Inglaterra até o fim do ano.
No Japão, o BC sugeriu que pode elevar os juros em abril. Na
Austrália, aliás, o BC subiu sua taxa pelo segundo mês consecutivo e sinalizou
mais aperto adiante. Nos EUA, o Federal Reserve deu maior ênfase aos riscos à
inflação com a alta do petróleo, levando o mercado a praticamente eliminar as
apostas de corte de juros em 2026.
Mesmo que no Brasil a Selic siga em nível restritivo, o
Copom não fez qualquer menção do risco de pausa no ciclo de corte de juros se a
situação no Golfo Pérsico piorar ou o preço do petróleo ficar elevado por muito
tempo. Pelo contrário: deixou aberta a porta para acelerar o corte para 0,50
ponto porcentual na próxima reunião.
https://www.estadao.com.br/politica/marcelo-godoy/farra-na-seguranca-assembleia-aprova-projeto-que-cria-delegados-sem-delegacia-e-promocao-automatica/

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