quinta-feira, 9 de abril de 2026

A FARSA ANTISSISTEMA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Se você quer alguém novo, de fora, para livrar o Brasil da corrupção, prepare-se para ser tapeado

O sistema é o que os antissistema querem derrubar para impor seu próprio sistema, seja qual for

Não paga dez. Pelo que as trombetas já anunciam, o principal adversário dos candidatos a candidatos à Presidência pela oposição, mais do que o odiado incumbente, será um ente invisível, impalpável, incolor e inaudível —o sistema. A palavra já está na boca de vários, salivante, sibilante, pronta a ser pronunciada com uma profusão de "Ss", fazendo dos discursos uma sinfonia de assobios. O que a torna paradoxalmente significativa é o fato de que tanto esses candidatos quanto seus potenciais eleitores não precisam saber o que ela significa.

O sistema é mais fácil de atacar do que de definir. De modo geral, é um conglomerado de políticos que mamam nas tetas do povo, sendo nós os mamados. O candidato antissistema é um puro, um impoluto, vindo de alguma estratosfera, a salvo de mamatas, desvios e negociatas. Votando nele, você estará dizendo que não agüenta mais a política oficial, não acredita em partidos e quer "alguém novo, de fora, para livrar o Brasil da corrupção".

O eleitor, esse parvo, não percebe que o candidato antissistema também faz parte do sistema —é um político profissional, vindo de uma família de políticos profissionais, cercado por uma quadrilha de políticos profissionais— e vota nele assim mesmo. Os antissistemas mais vitoriosos da República foram Jânio Quadros em 1960, Fernando Collor em 1989 e Jair Bolsonaro em 2018. Três messias de hospício. Fizeram-se de antipolíticos, puseram-se acima dos partidos e prometeram varrer a corrupção. O Brasil sabe o quanto cada um lhe custou.

O sistema é aquilo que os antissistema precisam derrubar para impor o seu próprio sistema, seja qual for. Mas é impossível disfarçar: ambos se valem por igual da corrupção. E, para piorar, sem o sistema (leia-se os políticos) cai-se na ditadura militar —que, como a nossa demonstrou à larga, também é corrupta.
Não há sistema sem corrupção. A diferença é que, na democracia, ela pode ser denunciada, investigada, julgada e condenada. Na ditadura, ela também existe e você é só um ente impotente.

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