Master pagou R$ 27 mi ao Metrópoles, que fez ‘débito
imediato’ a empresas da família de Luiz Estevão
Repasses aparecem em documento do Coaf que aponta
suspeita de ‘movimentação em benefício de terceiros’; ex-senador afirma que
pagamentos dizem respeito a patrocínio de transmissão da Série D do Brasileirão
2025 e que ‘faz o que quiser com o dinheiro que recebe’
BRASÍLIA - O Banco Master repassou
R$ 27,2 milhões, entre 2024 e 2025, ao Metrópoles, site de notícias
comandado pelo ex-senador Luiz Estevão,
segundo documento do Conselho
de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
O relatório registra os pagamentos como suspeitos ao apontar
que o veículo fez “débito imediato” de valores recebidos do Master em direção a
outras empresas da família de Luiz Estevão, o que “pode configurar possível
movimentação de recursos em benefício de terceiros”.
Além disso, o documento classifica os aportes do Master como
“inusitados” e aponta uma movimentação do Metrópoles “incompatível
com o faturamento médio mensal”.
Procurado, o ex-senador afirmou que os pagamentos dizem
respeito ao patrocínio do Will Bank,
que pertencia ao Master, à transmissão da Série D do Campeonato Brasileiro de
2025, feita pelo Metrópoles, e à venda dos naming
rights da competição . Em relação às transferências para
empresas da família, ele diz que pode dar a destinação que quiser ao dinheiro
recebido (leia mais abaixo).
Ao todo, o Master enviou R$ 27.283.800 à empresa Metrópoles
Marketing e Propaganda LTDA. No segundo semestre de 2024, o banco fez dois
pagamentos que totalizaram R$ 838,8 mil. Todo o restante foi transferido entre
janeiro e outubro de 2025.
Este período foi crucial para a instituição financeira. O
banqueiro Daniel
Vorcaro tentou vendê-la ao BRB,
em março, virou alvo de investigações por suspeita de fraude financeira
bilionária e viu sua empresa acabar liquidada pelo Banco
Central, em novembro. Vorcaro
está preso.
De acordo com o relatório, o Master aparece como “principal
remetente” de recursos ao Metrópoles nos período analisados em
2025, com pagamentos variados que chegam a R$ 5,7 milhões.
Embora esses repasses tenham começado em janeiro de 2025 e
Luiz Estevão os atribua ao contrato de patrocínio da Série D, as transmissões
só começaram a exibir a logomarca do Will Bank três meses depois do início do
campeonato.
A competição começou em 19 de abril de 2025. O Metrópoles e
a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciaram, nos dias 2 e 3 de julho,
respectivamente, um acordo referente apenas à transmissão dos jogos. As
primeiras partidas exibidas no YouTube, gratuitamente, foram as da 11ª rodada
da Série D, com 15 jogos transmitidos nos dias 5 e 6 de julho.
Luiz Estevão também tinha negociado com o banco a venda
dos naming rights. O campeonato passou a ser chamado de
“Brasileirão Série D Will Bank”. Foi a primeira vez que a competição,
organizada pela CBF, teve os “direitos sobre o nome” comercializados.
Mas a logomarca do Will Bank só foi instalada na placa de
publicidade central dos campos de jogo a partir de 26 de julho, na 14ª rodada,
a última da primeira fase. Portanto, mais de três meses após o início do
campeonato e seis meses após o Master começar a injetar dinheiro no Metrópoles.
A parceria do ex-senador com a empresa de Vorcaro foi revelada pelo Estadão.
O documento do Coaf destaca que o Metrópoles fez
“débito imediato” de valores recebidos pelo Master para empresas como Madison
Gerenciamento S/A, Sense Construções e Participações S/A e Macondo Construções
e Participações S/A.
As três firmas têm Luiz Estevão e filhas no quadro
societário ou em funções de direção. Segundo o relatório, esse fluxo financeiro
“pode configurar, possível movimentação de recursos em benefício de terceiros”.
As comunicações ao órgão de controle foram feitas pela Caixa
Econômica Federal. Nos alertas, o banco também pontuou uma “movimentação de
recursos incompatível com o faturamento médio mensal”, “recebimento de
transferências de valores inusitados”, com as do Master.
“A comunicação ao Coaf é justificada pois no período
analisado foi movimentado recursos incompatíveis com o faturamento médio mensal
da pessoa jurídica, identificamos o recebimento de transferências de valores
inusitados, a movimentação foi caracterizada pelo recebimento de crédito com o
débito imediato dos valores, há indícios de movimentação de recursos em
benefício de terceiros e movimentação com pessoas expostas politicamente”,
frisa o documento.
Will Bank na série D
A reportagem sondou operadores do mercado de futebol e eles
disseram que a Série D, geralmente, não é rentável para quem exibe o torneio e,
historicamente, há poucos interessados na competição.
Luiz Estevão nega que os valores negociados com o Master
tenham sido superdimensionados. Segundo ele, os pagamentos deveriam ter sido
ainda maiores, mas foram cortados com a liquidação do banco.
“O valor foi maior. Eles não pagaram tudo. Ainda estão
devendo dinheiro e estamos atrás de receber”, disse, antes de completar: “O
valor não está nada fora. E ainda temos que comprar os direitos da CBF, que não
disponibiliza gratuitamente, não.”
O ex-senador também frisou que não há nenhum tipo de
problema com os “débitos imediatos” feitos pelo Metrópoles.
“O dinheiro que eu recebi passa a ser meu e faço com ele o
que eu quiser. Posso comprar publicidade no Estadão, posso
transferir esses recursos para outras empresas minhas, comprar um imóvel, fazer
o que quiser“, afirmou.

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