Resultado das eleições na Hungria sugere que o presidente
americano continua tóxico em muitos países e que seu apoio pode fazer mais mal
do que bem. Isso cria um dilema para o candidato direitista Flavio Bolsonaro
A derrota do premiê Viktor Orbán nas eleições de hoje na
Hungria sugere que Donald Trump provavelmente continua tóxico em muitos países
e que o seu apoio eleitoral pode fazer mais mal do que bem. Isso cria um dilema
para o candidato direitista Flavio Bolsonaro. Ele precisará analisar muito bem
se convém ou não trazer o apoio explícito do presidente americano para a
campanha eleitoral brasileira.
A derrota significa o fim de 16 anos de governo de Orbán,
que é acusado tanto pela oposição interna como pelos parceiros da União
Europeia de atentar contra o Estado de direito na Hungria. Seu governo adotou
uma série de medidas que minaram a independência do poder Judiciário. Ele
também “capturou” a mídia, o que resultou no controle direto ou indireto da
maior parte da comunicação no país por aliados do governo. Por isso, a UE
congelou o repasse de fundos europeus ao governo húngaro.
Orbán é um ícone de movimentos de direita
pelo mundo, como o Maga (Make America Great Again) nos EUA, por ter iniciado o
combate à cultura woke, à imigração, às elites universitárias e ao jornalismo,
entre outras coisas. De certo modo, Orbán desbravou o caminhou e montou o
roteiro de como minar uma democracia por dentro, no que já foi chamado de
“democracia iliberal”.
Com essas políticas, ele conseguiu atrair a simpatia tanto
dos EUA de Trump como da Rússia de Vladimir Putin. Orbán vem bloqueando a ajuda
financeira europeia à Ucrânia e foi acusado pela UE de compartilhar com Moscou
informações sigilosas do bloco. Segundo o jornal britânico Financial Times, a
Rússia montou uma campanha de desinformação para tentar ajudar Orbán a se
reeleger.
Mas não foi apenas Putin que entrou na campanha eleitoral
húngara. Washington atuou pesadamente a favor de Orbán. Trump manifestou várias
vezes o seu apoio ao premiê, recebeu-o na Casa Branca e prometeu “usar todo o
poderio econômico americano para fortalecer a economia da Hungria”. Ele se
disse “entusiasmado para investir na prosperidade futura que será gerada pela
liderança continuada de Orbán”. Em fevereiro, o secretário de Estado americano,
Marco Rubio, afirmou, em Budapeste, que as relações entre os dois países vivem
uma “era de ouro”. Na semana passada, o vice-presidente dos EUA, JD Vance,
passou dois dias na Hungria, onde fez campanha abertamente para o aliado,
chegando inclusive a participar de um comício de Orbán, durante o qual
telefonou para Trump. Ao vivo, o presidente elogiou o premiê, dizendo que ele
fazia um “trabalho fantástico”.
Esse é um nível de interferência política sem precedentes
dos EUA num país da UE e da Otan. Curiosamente, Vance acusou a UE de
interferência eleitoral, por ter congelado fundos destinados à Hungria. A
decisão da UE foi corroborada pelos países-membros e por instâncias jurídicas
do bloco.
Mas nem o apoio da Trump conseguiu impedir a derrota de
Orbán. Isso sugere que a rejeição ao presidente e ao governo dos EUA continua
elevada, num momento em que ambos são profundamente impopulares, tanto em casa
como no resto do mundo.
É claro que Orbán não perdeu apenas ou principalmente por
causa do apoio e da proximidade com Trump. Havia a fadiga de poder, após 16
anos de governo. Havia o risco de a sua reeleição afastar ainda mais a Hungria
da UE, num momento em que cresce a ameaça do autoritarismo russo. Aparentemente
os jovens votaram maciçamente contra o premiê. E seu adversário e agora premiê
eleito, Peter Magyar, não é um esquerdista, mas um dissidente recente do
próprio partido de Orbán e que lidera uma coligação de centro-direita.
Ainda assim, o resultado foi que Trump não conseguiu mover a
agulha em favor de Orbán e pode até tê-lo prejudicado, mesmo com a promessa de
apoio econômico à Hungria caso o premiê fosse reeleito.
Mais do que qualquer outro presidente na história recente
dos EUA, Trump vem jogando duro para favorecer aliados em eleições pelo mundo.
Na Argentina, ele conseguiu evitar uma provável derrota do governo de Javier
Milei nas eleições para o Congresso, no ano passado, mas apenas depois de
emprestar US$ 20 bilhões ao país. No Equador, seu apoio possivelmente ajudou,
mas Gustavo Noboa já era favorito à reeleição. Em Honduras, o candidato apoiado
por Trump venceu uma eleição marcada por denúncias de fraude e irregularidades.
Dois dias antes da votação, Trump anunciou o perdão e a libertação de um
ex-presidente direitista hondurenho que estava preso no EUA, condenado por
tráfico de drogas e armas.
Mas o presidente americano coleciona mais derrotas do que
vitórias nessa política de interferência aberta em processos eleitorais
estrangeiros. O caso mais clamoroso foi o do Canadá. O Partido Conservador
(centro-direita) liderava as pesquisas com cerca de 20 pontos de vantagem
quando Trump começou hostilizar o país e a zombar do premiê liberal
(centro-esquerda) Justin Trudeau. Ao final, o Partido Liberal venceu a eleição
em abril do ano passado, sob a liderança do agora premiê Mark Carney. É
consenso no país que o apoio explícito de Trump afundou o candidato
conservador.
Algo parecido ocorreu na Austrália. A coligação de
centro-direita liderava as pesquisas por 10 pontos até a posse de Trump. À
medida que o americano apoiou o candidato direitista, o Partido Trabalhista
(centro-esquerda) começou a avançar, e o premiê Anthony Albanese (também
ridicularizado por Trump) acabou se reelegendo. Nas eleições na Alemanha, em
final de fevereiro de 2025, Trump também enviou Vance para fazer campanha pelo
partido direitista Alternativa para a Alemanha (AfD). Mas o apoio do presidente
se revelou tóxico. O AfD, que vinha em alta, começou a cair nas pesquisas e
ficou abaixo do esperado na eleição.
O fracasso do apoio de Trump a Orbán ocorreu apesar de o
presidente americano ser relativamente popular na Hungria. Segundo pesquisa do
instituto americano Pew, de junho do ano passado, 53% dos húngaros confiavam
que Trump faria a coisa certa em assuntos internacionais. Esse era o maior
percentual na Europa e o quarto maior entre os 24 países pesquisados. Já no
Brasil, apenas 34% confiavam no americano. É pouco provável que esse percentual
tenha aumentado desde então. Pelo contrário.

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