Medidas contra inadimplência abrem temporada de estímulos
governamentais em ano eleitoral
Em abril a Quaest foi a campo e questionou a eleitores de
todo o Brasil sobre suas percepções sobre o estado da economia brasileira. 62%
responderam que ela havia piorado no último ano, sendo que 59% sentiam que sua
capacidade de pagar as contas tinha diminuído nos três meses anteriores. A
inflação se mostrava como o grande vilão: 98% identificavam que os produtos
estavam mais caros, e para 24% a culpa pelo aumento de preços dos combustíveis
era do presidente: Jair Bolsonaro.
Sim, estou me referindo à pesquisa
Genial/Quaest de abril de 2022, faltando seis meses para as eleições daquele
ano. Naquele momento, o governo Bolsonaro enfrentava uma avaliação negativa de
47%, contra 26% que viam sua gestão como positiva e outros 25% que a
consideravam regular.
Como resultado, as perspectivas de reeleição pareciam
baixas: no cenário mais provável de segundo turno, Lula aparecia com 55% das
intenções de voto, contra apenas 34% do então presidente Bolsonaro.
Naquele momento Jair Bolsonaro já começava a colher os
frutos das políticas econômicas adotadas a toque de caixa para reverter seu mau
desempenho nas pesquisas. Em dezembro de 2021, seu governo havia subido o valor
do Auxílio Brasil, o rebatizado sucessor do programa Bolsa Família, de uma
média de R$ 190 para R$ 400 por grupo familiar. Essa medida havia feito a
avaliação positiva de Jair Bolsonaro subir de 16 para 24 pontos percentuais
entre os beneficiários do programa, segundo a mesma pesquisa Quaest.
Essa foi apenas uma das muitas armas que Bolsonaro utilizou
para aumentar as suas chances de reeleição. Depois disso ele ainda elevou o
valor do Auxílio Brasil para R$ 600 mensais - acompanhado da expansão do número
de famílias atendidas - concedeu benefícios para caminhoneiros e taxistas,
ampliou o valor do auxílio-gás e promoveu uma desoneração tributária para
conter a alta dos preços dos combustíveis provocada pela guerra na Ucrânia.
Houve ainda a liberação de saques extraordinários do FGTS e a antecipação do
pagamento do 13º salário para aposentados e pensionistas do INSS. Medida
controversa à época, o governo Bolsonaro também autorizou operações de crédito
consignado para quem tinha direito ao Auxílio Brasil.
Ao final, com sua campanha turbinada pelo clima de
polarização e por essa avalanche de recursos públicos despejada na economia,
Jair Bolsonaro cresceu nas pesquisas e por muito pouco não conseguiu se
reeleger.
Quatro anos depois, o governo Lula enfrenta dificuldades
parecidas. Na última pesquisa Quaest, que foi a campo entre 6 e 9 de março de
2026, a avaliação negativa de Lula era de 43%, contra 31% positiva e 25%
regular. Na economia, 48% dos entrevistados consideravam que a situação piorou
e 64% acreditavam que seu poder de compra ficou menor nos últimos 12 meses. É
bom destacar, porém, que esse levantamento ainda não capta os efeitos da guerra
no Oriente Médio sobre os preços dos combustíveis.
Da mesma forma que Bolsonaro quatro anos antes, Lula já
colhe os frutos de estímulos concedidos por seu governo: 31% dos entrevistados
admitem ter sentido no bolso os efeitos da isenção de imposto de renda para
quem recebe até R$ 5 mil por mês.
É bom destacar, porém, que Lula parte de uma situação
economicamente muito mais favorável do que a de Bolsonaro. Analisando três das
principais variáveis que sintetizam o bem-estar financeiro da população, Lula
se dá muito melhor em todas elas quando se confronta o mesmo momento quatro
anos antes.
O desemprego hoje está em 5,8% (contra 11,2% no mesmo
período no último ano do mandato bolsonarista), o rendimento médio da população
é de R$ 3.679 (versus R$ 3.027, já descontada a inflação) e os preços subiram
4,14% nos últimos doze meses (comparado com uma alta de 11,3% em março de
2022).
Ainda assim, Lula aparecia empatado com Flávio Bolsonaro
(PL) na pesquisa Quaest de março, ambos com 41% das intenções de voto. Na
sondagem do Datafolha publicada no final de semana, Lula aparece tecnicamente
empatado não apenas com o filho de seu arquirrival (45%-46%), mas também com
aspirantes da direita que não carregam o sobrenome do ex-presidente - os
ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), ambos apenas três
pontos percentuais atrás de Lula, mas dentro da margem de erro da pesquisa.
A seis meses da eleição, o governo Lula atribui à elevada
inadimplência uma das explicações para o paradoxo de apresentar uma avaliação
ruim nas pesquisas mesmo com desemprego e inflação em baixa e renda no patamar
máximo desde 2012. De fato, dados do Serasa Experian apontam que 81,7 milhões
de CPFs estavam negativados em fevereiro, com um valor médio de dívida em
atraso de praticamente R$ 6,6 mil.
Em entrevista à Folha, o novo ministro da Fazenda, Dario
Durigan, anunciou que os trabalhadores com renda até cinco salários-mínimos
poderão sacar até 20% do seu saldo no FGTS para quitar dívidas. Trata-se de
apenas uma das medidas de um amplo programa de renegociação capitaneado pelo
governo federal.
Já vimos esse filme em 2022.

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